Aly Song/Reuters
Aly Song/Reuters

Como investem os 0,01% mais ricos do mundo

Com US$ 4 trilhões, famílias criam empresas para aplicar a própria fortuna

The Economist*, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2018 | 05h00

Pense nos mais altos escalões do negócio de administração de dinheiro, e a imagem que vem à mente é de bancos privados em Genebra ou Mayfair, em Londres, com lobbies de mármore e falsas salas de reunião de casas de campo, projetadas para fazer seus clientes super-ricos se sentirem em casa. Mas essa imagem está desatualizada. Uma mais precisa incluiria centenas de escritórios privados em prédios envidraçados na Califórnia e em Cingapura que investem em títulos canadenses, no setor imobiliário europeu e em startups chinesas – e cujos clientes dourados estão como sonâmbulos em meio a uma tempestade política.

As finanças globais estão sendo transformadas à medida que os bilionários se tornam mais ricos e eliminam os intermediários criando seus próprios “family offices”, empresas de investimento pessoal que vagam pelos mercados globais em busca de oportunidades. Os family offices tornaram-se uma força no investimento, com até US$ 4 trilhões em ativos – mais do que os fundos de hedge e equivalentes a 6% do valor dos mercados de ações do mundo. Ao crescerem ainda mais, os family offices estão destinados a enfrentar questões desconfortáveis sobre como concentram poder e alimentam a desigualdade.

O conceito não é nada novo: John D. Rockefeller montou seu family office em 1882. Mas o número explodiu neste século. Entre 5 mil e 10 mil têm sede nos EUA, na Europa e em Cingapura e Hong Kong. Embora sua tarefa principal seja administrar ativos financeiros, os maiores escritórios fazem todos os tipos de tarefas, desde trabalho fiscal até a função de mordomos que reservam jatos.

Os custos de trazer tal expertise às mansões quer dizer que ela geralmente só faz sentido para aqueles com patrimônio superior a US $ 100 milhões, o maior valor de 0,001% da fortuna global. Magnatas asiáticos como Jack Ma, do Alibaba, criaram seus próprios feudos. Os maiores escritórios de gestão de fortunas familiares ocidentais, como o de George Soros, supervisionam dezenas de bilhões e são tão potentes quanto as empresas de Wall Street.

Todo boom de investimento reflete a sociedade que o gerou. O humilde fundo mútuo amadureceu na década de 1970, após duas décadas de prosperidade da classe média nos EUA. A ascensão dos family offices reflete a desigualdade cada vez maior. Desde 1980, a parcela da riqueza mundial detida pelos primeiros 0,01% subiu de 3% para 8%. Enquanto os fundadores das empresas familiares recebem dividendos, eles geralmente reposicionam o dinheiro. Mas desde a crise financeira, houve uma perda de confiança nos gerentes financeiros externos. Clientes ricos deram uma atenção maior às altas taxas dos bancos privados e nos incentivos obscuros, e recuaram.

É improvável que tais tendências desapareçam. O número de bilionários ainda está crescendo – 199 novatos entraram para o grupo em 2017. No mundo emergente, os empresários mais velhos preparam-se para vender seu patrimônio, enquanto nos EUA e na China os jovens empreendedores de tecnologia podem emitir ações de suas empresas, liberando uma nova onda de dinheiro para reinvestir.

O peso dos family offices no sistema financeiro provavelmente aumentará. Se isso ocorrer, as objeções a eles aumentarão exponencialmente. O mais óbvio deles é o menos convincente – que os family offices criaram desigualdade. Eles são uma consequência, não sua causa. No entanto, há preocupações – e em particular, é que vale a pena se preocupar com isso.

Riscos 

A primeira é que os family offices podem colocar em risco a estabilidade do sistema financeiro. Combinar pessoas muito ricas, opacidade e mercados pode ser explosivo. O ltcm, um fundo de hedge de US$ 100 bilhões apoiado pelos super-ricos, faliu em 1998, quase derrubando Wall Street. Ainda assim, os family offices não parecem como o próximo desastre. Eles têm dívida equivalente a 17% de seus ativos, o que os situa entre os participantes menos alavancados nos mercados globais. 

A segunda preocupação é que os family offices possam ampliar o poder dos ricos sobre a economia. Isso é possível: se Bill Gates investisse exclusivamente na Turquia, ele teria 65% de seu mercado acionário. Mas o objetivo geralmente é diversificar o risco. A indústria de family office é menos concentrada do que a gestão de ativos conservadores. 

É o terceiro perigo que mais causa problemas: os family offices podem ter acesso privilegiado a informações, permitindo que tenham desempenho superior ao de investidores comuns. Até agora há pouca evidência disso. O family office médio teve retornos de 16% em 2017 e 7% em 2016, de acordo com a Campden Wealth, uma empresa de pesquisa, algo que fica um pouco atrás em relação aos mercados acionários mundiais. Não obstante, os magnatas são muito bem conectados. Os family offices estão se tornando mais complexos – um terço deles tem pelo menos dois ramos – o que torna mais fáceis os inteligentes esquemas fiscais. Corretores e ávidos bancos estão lançando o tapete vermelho e negociando com empresas não listadas que não estão disponíveis para investidores comuns. Se tudo isso conduzisse a uma vantagem injusta e invulnerável, o efeito, quando combinado ao longo de décadas, tornaria desastrosamente pior a desigualdade de riqueza.

*TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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