Como medir a prosperidade

Como medir a prosperidade

O PIB não é um bom instrumento para se avaliar a evolução do bem-estar material. Está na hora de criar novos indicadores

The Economist

03 de maio de 2016 | 18h35

O que você preferiria ser: um monarca medieval ou um funcionário de escritório moderno? O rei tem batalhões de criados à sua disposição. Veste as sedas mais esplêndidas e come das iguarias mais deliciosas. Mas vive com dor de dente. É vítima de infecções fatais. Leva uma semana para ir de carruagem de um palácio a outro. E está cansado de ouvir, dia após dia, os gracejos dos mesmos bobos da corte de sempre. A vida dos escriturários do século 21 ganha um ar bem mais aprazível quando pensamos na moderna ciência odontológica, nos antibióticos, nas viagens aéreas, nos smartphones e no YouTube.

Não se trata de simples brincadeira de salão. A questão mostra como é complicado comparar padrões de vida em diferentes momentos da história. Apesar disso, essas comparações não apenas são comumente feitas, como se baseiam fundamentalmente num único índice: o Produto Interno Bruto (PIB). 

Essa medida estatística tornou-se sinônimo de bem-estar material, muito embora seja um instrumento problemático, com falhas que vêm se aprofundando com o passar do tempo, prejudicando sua utilização como barômetro da prosperidade. Isso, por sua vez, pode estar causando no mundo desenvolvido níveis exagerados de ansiedade em relação a uma série de fenômenos, da estagnação da renda aos baixos índices de crescimento da produtividade.

Velocímetro defeituoso. Os defensores do PIB dizem que o que hoje se espera do indicador não corresponde àquilo que originalmente se pretendia que ele realizasse. Cria da grande depressão dos anos 1930 e das exigências da guerra nos anos 1940, seu objetivo original era mensurar a capacidade de produção da economia. De lá para cá, o PIB passou a fazer o papel de estrela-guia de políticas destinadas a fixar tributos, reduzir o desemprego e administrar a inflação.

No entanto, em muitos casos o PIB é uma medida tremendamente imprecisa: o da Nigéria, por exemplo, ficou 89% maior em 2014, depois que os técnicos do país realizaram um ajuste em sua metodologia de cálculo. Por mais ajustes que se façam, porém, o fato é que o cômputo do PIB sempre envolve alguma dose de adivinhação: os britânicos, por exemplo, para calcular a expansão do mercado de sexo pago em seu país, supõem que ela acompanhe o crescimento da população masculina; e usam os preços cobrados por boates de lap-dancing como referência para o segmento como um todo. As revisões são comuns e, a não ser nos Estados Unidos, tendem a empurrar o PIB dos países ricos para cima. Como os números revisados não atraem tanta atenção, isso contribui para criar a impressão, frequentemente exagerada, de que a economia americana tem desempenho muito superior ao da europeia. Também significa que as autoridades econômicas tomam decisões com base em dados incorretos.

Se o PIB não consegue cumprir a contento o que promete - isto é, mensurar o valor adicionado numa economia -, sua utilização como referência de bem-estar é ainda mais questionável. O problema vem de longa data: os benefícios gerados pela expansão do saneamento básico, pelo aperfeiçoamento dos serviços de saúde, assim como os confortos proporcionados pelos sistemas de aquecimento ou ar-condicionado significam que o crescimento do PIB registrado nas décadas subsequentes à 2.ª Guerra quase com certeza subestima a melhoria concomitante das condições de vida. Ainda assim, pelo menos nessa época o sentido das mudanças era o mesmo: o PIB crescia em ritmo acelerado e o mesmo acontecia com a qualidade de vida das pessoas. Atualmente, porém, apesar de o PIB continuar se expandindo (ainda que em ritmo menos acelerado), as condições de vida, dizem os números, estão estagnadas. Em parte, isso é consequência da desigualdade crescente: faz 25 anos que, ajustada à inflação, a mediana da renda das famílias americanas mal sai do lugar. Mas não há como ignorar que o principal indicador de geração de valor mostra-se cada vez mais ineficaz para captar as coisas a que as pessoas dão valor.

O cálculo do PIB parte do pressuposto de que, com poucas exceções, como os computadores, tudo que um país produz e consome tem qualidade constante. A suposição funcionava bem na época em que as principais economias do mundo se caracterizavam pela produção em massa de artigos padronizados. Já não é assim quando os serviços constituem fatia cada vez maior da atividade econômica. Na disputa por consumidores, as empresas alteram a qualidade de seus produtos e os adequam mais ou menos a preferências individuais. Se os restaurantes servem menos refeições, mas cobram mais caro por elas, isso empurra a inflação para cima e faz o PIB cair, ainda que seja resultado de mudanças - como a utilização de ingredientes mais frescos ou a redução no número de mesas disponíveis - desejadas pelos consumidores. Os serviços que o Google e o Facebook prestam a seus usuários são gratuitos, o que significa que não entram no cálculo do PIB. E, quando artigos que antes eram comercializados, como mapas e gravações musicais, tornam-se serviços digitais gratuitos, também passam a ser excluídos do PIB. A conveniência proporcionada pelas compras e pelos serviços bancários online é uma grande vantagem para os consumidores, mas, se resulta em queda nos investimentos em construção civil, provoca a contração do PIB.

Contar apenas, não basta. São necessárias três mudanças para que a prosperidade possa ser medida com mais precisão. A mais simples delas é promover ajustes no cálculo do PIB, a fim de torná-lo um termômetro mais apurado de tudo que um país produz. Descartar de vez o indicador não é solução: o PIB deve muito de seu apelo ao fato de ser, ou aparentar ser, um número que oferece às pessoas uma visão sintética do estado da economia.

Portanto, o ideal seria que os técnicos aprimorassem o modo como os dados do PIB são coletados e apresentados. A fim de minimizar a necessidade de revisões, seria importante recorrer com mais ênfase a informes tributários, buscas na internet e outras fontes contemporâneas de dados estatísticos, como as transações realizadas por meio de cartões de crédito, deixando em segundo plano os levantamentos tradicionais junto a empresas ou consumidores.

Apontando a direção a ser seguida, algumas empresas privadas vêm coletando enormes quantidades de dados sobre preços em sites de comércio eletrônico, a fim de produzir índices de inflação mais precisos.

Em segundo lugar, os países desenvolvidos, cuja economia é dominada pelo setor de serviços, deveriam elaborar e adotar um novo indicador, mais abrangente, capaz de registrar a produção de valor e os padrões de vida com mais exatidão. Antes de mais nada, seria importante que esse indicador - que poderia se chamar PIB-plus - incorporasse uma modificação conceitual há muito necessária: a inclusão no cálculo do PIB das atividades domésticas não remuneradas, como, por exemplo, os cuidados com familiares. O PIB-plus também deveria ser capaz de captar mudanças na qualidade dos serviços, incluindo, por exemplo, a elevação da expectativa de vida nas estimativas sobre a contribuição que os serviços de saúde dão para a geração de riqueza. Além disso, seria indispensável conferir maior ênfase aos benefícios gerados por novos produtos e pela ampliação na gama de opções que os consumidores têm à sua disposição. E, em termos ideais, seria de grande valia que o indicador pudesse ser "fatiado", refletindo os efetivos padrões de gastos dos indivíduos que ocupam o topo, o meio e a base da pirâmide de renda: as pessoas mais pobres tendem a gastar mais em bens de consumo do que em mensalidades de Harvard.

Mesmo representando uma melhora significativa em relação ao indicador atual, o PIB-plus continuaria sendo uma medida restrita aos fluxos de renda. Para que se pudesse fazer uma verificação cruzada da prosperidade de um país, um terceiro instrumento deveria ser elaborado, determinando, a cada década, o valor de seu patrimônio. Esse balanço patrimonial incluiria os ativos estatais, como estradas e parques, e os privados. Capitais intangíveis - competências, marcas, designs, ideias científicas e redes online - também entrariam no cálculo. O índice também registraria a depreciação do capital: o desgaste do maquinário, a deterioração das estradas e dos espaços públicos e os danos ao meio-ambiente.

A elaboração desses indicadores exigirá que os órgãos nacionais de estatística passem por revolução tão radical quanto a que resultou no próprio cálculo do PIB. Mesmo assim, como quantidade não desprezível daquilo a que as pessoas dão valor está sujeita a diferenças de opinião, não há como um cálculo desse tipo ser perfeito. Mas o nosso atual índice de prosperidade está repleto de erros e omissões. É melhor partir para a criação de novos indicadores do que ignorar os progressos que permeiam a vida moderna.

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