ALEX SILVA
O químico Carlos Antonio Tadiotti, sócio-diretor da Predilecta, mantém o perfil de pesquisador da época da universidade para inovar ALEX SILVA

Como o gigante da goiabada mudou o perfil de uma região

Principal fornecedor mundial de polpa de goiaba da Coca-Cola, sócio da Predilecta, de Matão (SP), atraiu antigos citricultores para o cultivo da fruta

Márcia De Chiara (textos) e Alex Silva (fotos), enviados especiais a Matão (SP), O Estado de S. Paulo

21 de janeiro de 2017 | 17h00

Alguns anos atrás, quando o empresário Antonio Carlos Tadiotti desembarcou de um vaporeto na Praça de São Marcos, em Veneza, na Itália, ele viu um sonho realizado: ganhar o mundo com a goiaba. Numa ruela movimentada, Tadiotti encontrou num empório latas de goiabada da marca que fabrica – Predilecta.

Do distrito de São Lourenço do Turvo, em Matão, no interior do Estado de São Paulo, onde a produção do doce começou num barracão de 450 metros quadrados e investimentos de US$ 30 mil, até hoje o tamanho e o entorno do negócio mudaram. Mas a meta de ser o “rei da goiabada” foi mantida. Em 13 fevereiro 1991, o empresário tirou a primeira remessa de goiabada. Foram 700 quilos naquele dia, numa região, na época, dominada pela laranja.

Agora, na unidade instalada no mesmo local do barracão, mas com 1.200 funcionários que trabalham de segunda a sábado, Tadiotti produz mil vezes mais. São 700 toneladas diárias de doce e polpa, que saem da fábrica cercada por pomares de goiaba. “Somos o maior processador de goiaba do mundo. Nem os países da África e da América Central, que têm a fruta, há indústrias com essa capacidade”, diz o sócio-diretor da Predilecta.

Não há dados globais consolidados da produção de goiabada e de polpa só dessa fruta. Mas há evidências que confirmam esse gigantismo. A empresa é o principal fornecedor de polpa para a Coca-Cola mundial. Há 15 anos na exportação, a polpa e o doce são vendidos para 57 países com a marca brasileira e a marca local do cliente. Para os Estados Unidos, a companhia produz sete marcas próprias de goiabada e para Portugal três, que saem do País nas respectivas embalagens.

Na polpa da fruta, o empresário explica que ganhou o mercado quando começou a exportar o produto usando um sistema asséptico, semelhante ao do leite de caixinha. Desenvolvido em parceira com a universidade, a Unesp de Araraquara (SP), esse processo dispensa o congelamento, reduz custos e aumenta a durabilidade. “Com esse sistema, ganhamos o mercado mundial”, observa.

Técnica. Químico de formação, Tadiotti, de 70 anos, conta que antes de abrir a própria fábrica, trabalhou por mais de dez anos na Conservas Alimentícias Hero, em São Carlos (SP), onde nasceu. “A Hero produzia muita goiabada.” Pela empresa fez estágios em fábricas na Europa e aprendeu novas tecnologias. Mas, apesar de ter se realizado no mundo dos negócios, o perfil de cientista foi mantido.

O empresário era pesquisador e docente – fazia mestrado na área de medicina nuclear na Universidade de São Paulo – antes de ir para a indústria. Essa vontade de testar técnicas novas explica boa parte do sucesso da empresa, que tem vários convênios com universidades e se apoia nesse pilar para fazer um produção diferente, na qual o campo siga o ritmo da fábrica.

Integração. Uma das inovações implantadas pela companhia foi a verticalização da produção da goiaba. Seguindo o exemplo da avicultura, que ganhou o mundo com um grupo de produtores integrados que engordam os pintinhos de um dia que se transformam em frangos numa data determinada pela indústria para o abate, a empresa começou a fomentar os agricultores para produzirem goiaba o ano inteiro e remunerá-los por um preço fixo, que lhes garanta a renda.

Atualmente são cerca 260 pequenos agricultores “integrados” de goiaba que ficam em 20 municípios num raio de até 40 quilômetros de distância da fábrica de Matão. A empresa fornece a muda de goiaba, a um custo de R$ 4, que é descontado do valor pago pela fruta num período de dois anos. Nesta safra, cada agricultor vai receber R$ 0,35 por quilo da fruta. Durante o cultivo, é fornecida orientação de poda e irrigação para garantir que ocorra a produção de matéria prima o ano inteiro, nas datas estabelecidas.

“Nós perenizamos a produção de goiaba”, afirma o empresário. Ele explica que a ideia de montar esse sistema veio com teses de mestrado desenvolvidas na Unesp de Jaboticabal (SP) que mostraram que, com irrigação e poda escalonada, era possível diluir a produção da fruta ao longo do ano. “Com a verticalização, a indústria é abastecida sem paradas por falta de matéria prima”, diz.

Outro ponto para o sucesso da indústria foi o tipo de muda usada na verticalização. “A muda que usamos não é obtida pelo plantio da semente, mas por estaquia.” Ela foi desenvolvida pela Unesp de Jaboticabal, e produz fruta com mais polpa, o que amplia o rendimento.

O próximo passo para ganhar mercados exigentes foi dado. Em parceria com a universidade, a empresa desenvolveu uma goiaba que requer menos agrotóxico. Batizada de Predilecta, a variedade está sob sete chaves, junto com a receita da companhia que o empresário não revela. Hoje a empresa tem cinco fábricas, que além da goiaba, processam tomate e outros vegetais, e emprega 4,2 mil trabalhadores.

 

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Preço baixo faz produtor mudar de lavoura

O produtor Jair Casoni, de 39 anos, sempre cultivou laranja em Matão (SP) até seis anos atrás. “Nasci e cresci vendo laranja. Parei porque não estava compensando, estava difícil de vender.”</p>

Márcia de Chiara (texto) e Alex Silva (fotos), enviados especiais a Matão (SP), O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2017 | 05h00

Ele entregava a laranja para a Citrosuco. A última vez que vendeu para a processadora recebeu R$ 9 pela caixa ou R$ 0,22 por quilo de laranja. Essa receita, segundo ele, não cobria os custos. “Arranquei a laranja e plantei goiaba.”

A saída encontrada por Casoni foi a de muitos agricultores de várias cidades na região de Matão e Taquaritinga (SP), que no passado eram um polo da citricultura formado também por pequenos agricultores.

“Vinte anos atrás o carro-chefe da produção agrícola na região era a cana e a laranja. O plantio de goiaba existia na região, por causa da presença de empresas como a Cica, Etti e a Peixe, que processavam a fruta. Mas a participação era pequena em relação a laranja ”, afirma o presidente do Sindicato Rural de Taquaritinga, Marco Antonio dos Santos.

Ele calcula que, no passado, a laranja ocupava 40% da área, a cana 50% e outras frutas, 10%. Hoje a cana continua forte, com metade da área, ao passo que a fatia da laranja encolheu para cerca de 10% e a goiaba atingiu uma participação de 20%, ao lado do limão com 12% e a manga com 8%. “Na região de Taquaritinga tem pouca laranja hoje e em Matão só os grandes produtores ficaram no negócio, como a Citrosuco e a Fazenda Cambuhy.”

Doenças. Uma conjugação negativa de fatores contribuiu para a mudança do perfil da região. Além dos preços baixos recebidos pelo citricultor, o avanço de pragas e doenças, como o greening e o amarelão, afetaram a produtividade dos pomares e desestabilizaram o negócio dos pequenos produtores de laranja.

Casoni, por exemplo, que seis anos atrás tinha comprado 15 hectares na região com 4 mil pés de laranja e 500 de goiaba, hoje não tem um só pé de laranja, mas cultiva 5,3 mil pés de goiaba. “Tenho mais 2 mil goiabeiras para começar a produzir este ano”, avisa.

Como produtor integrado da indústria, ele recebeu em 2016 R$ 0,36 pelo quilo da goiaba colocada na indústria, o mesmo preço do ano anterior. “Acho que esse valor é justo. Para mim sobra a metade”, diz o produtor, que gasta R$ 0,18 por quilo para produzir a fruta.

Para Santos, do sindicato, o preço de R$ 0,36 por quilo não é bom e seria necessário algo entre R$ 0,40 e R$ 0,50 para cobrir os custos.

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'Taquaritinga murchou, ficou mais pobre'

Elbo Gibertoni, de 90 anos, é a testemunha das transformações que ocorreram na cidade de Taquaritinga (SP), que nos anos 1980 ganhou o posto de capital da laranja.</p>

Márcia de Chiara (texto) e Alex Silva (fotos), enviados especiais a Matão (SP), O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2017 | 05h00

“Era uma maravilha: tinha muito serviço, muitos colhedores, empreiteiros e caminhões para puxar laranja”, lembra o ex-citricultor. Na época, Gibertoni plantava laranja numa área de 40 alqueires no município. “A maior parte da área hoje tem cana, arrendei para usina. Eu cultivo também limão e goiaba por conta”, diz o ex-citricultor, que está aposentado. Atualmente, quem toca a fazenda é o filho.

Segundo ele, as processadoras de suco foram ganhando dinheiro e comprando terras. Agora eles têm a própria produção de laranja e a safra dos pequenos citricultores foi recusada. Isso provocou uma profunda mudança no perfil da cidade. “Taquaritinga murchou, ficou mais pobre”, diz ele.

É que, com a laranja, circulava muito dinheiro no município por causa do grande número de trabalhadores, uma vez que a colheita é manual “O pessoal vinha colher laranja e gastava o dinheiro aqui.”

Com a chegada da cana, que substituiu boa parte da laranja, a mão de obra foi dispensada, porque a roça é mecanizada, do plantio à colheita. No caso da goiaba, Gibertoni diz só na época da colheita emprega bastante gente. Na goiaba usa-se muito herbicida, roçadeira. “No limão é a mesma coisa, só paga para colher.” Nas contas do ex-citricultor, a goiaba emprega 10% da mão de obra que era usada no cultivo da laranja.

Transformação. Não é a primeira vez que há uma mudança no perfil da cidade. Em 90 anos, Gibertoni, sentado no banco da praça de Taquaritinga, lembra que presenciou muitas transformações na agricultura da região e no perfil da cidade.

“Quando eu era bem criança, o que predominava aqui era o café”, diz ele. Com a decadência da cafeicultura no Estado de São Paulo, o plantio do algodão avançou na região. Depois disso, veio a época das roças de tomate, vendido para a indústrias como Cica, Etti e Peixe.

O auge da laranja ocorreu nos anos 1980, com as fortes geadas nos pomares da Flórida (EUA), que puxavam os preços do suco e encheram o bolso dos citricultores. Agora é a vez da cana, da goiaba, da manga e do limão.

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