Como o Plano Collor prejudicou alguns cidadãos

Conheça três histórias de pessoas que tiveram suas poupanças confiscadas

29 de setembro de 2012 | 11h26

Maria Golqin Glina. "Eu não tinha nem dinheiro para comprar leite, se você quer saber", relata Maria Golqin Glina, 86 anos, mãe divorciada de cinco filhos, dois dos quais, à época do confisco implementado pelo Plano Collor, ainda frequentavam um colégio particular, na cidade de Itatiba, interior de São Paulo. Maria já era aposentada e vivia da renda de uma loja de móveis usados. "Eu fiquei desesperada, porque eu tinha dinheiro e não tinha, já que não podia usar".

Maria conta que em março de 1990 havia juntado dinheiro com os filhos para comprar um imóvel e deixar o aluguel. "Era uma sexta-feira. Aí a dona do imóvel que nós queríamos comprar disse assim: 'a senhora coloca o dinheiro no banco, e na segunda-feira nós fechamos o negócio'. Mas na segunda-feira a Zélia [Cardoso de Mello, então ministra da Fazenda] fechou o banco e pegou o dinheiro", conta Maria, que depois do confisco, morou durante mais dois anos de aluguel, até conseguir começar a construir sua casa.

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Joaquim Costa Filho.  Durante doze anos, o educador Joaquim Costa Filho trabalhou em dois empregos - diretor de colégio estadual no município de Caieiras, e professor em um colégio municipal em São Paulo - e viveu apenas com o salário de um. O plano era economizar para construir uma casa e sair do aluguel. Em março de 1990, a realização do projeto estava quase se tornando possível; Joaquim já havia reunido Cr$ 1 milhão - valor que hoje corresponderia a cerca de R$ 100 mil. Com o confisco, ele ficou impossibilitado de construir sua casa até o ano de 1997, já que, quando descongelado, o valor já não era mais suficiente para bancar o projeto.

Joaquim conta que, quando viu o anúncio, entrou em pânico. "Fiquei com a sensação de que não havia mais nada para se acreditar nesse país, porque ali estava sendo desrespeitado um direito básico"

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João Alexandre Viégas.  Em março de 1990, João Alexandre Viégas estava em vias de abrir uma fábrica de fármacos na cidade de Indaiatuba, interior de São Paulo, a Laborgen Química Fina e Biotecnologia. Ele e os sócios haviam recém fechado um financiamento junto ao Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), quando veio o confisco. "Você só podia mexer no dinheiro para pagar a folha, mas não prestadores de serviços, que muitas vezes eram pessoas físicas, e que, aliás, precisavam daquele dinheiro para sobreviver. Então, na prática o que aconteceu foi que a obra ficou parada", relata João.

"A carência do financiamento acabou e nós precisávamos amortizá-lo, mas a fábrica não existia". A situação só foi resolvida depois de grande conflito, com uma renegociação, cujo resultado foi um novo empréstimo do BNDES, lastreado nos valores bloqueados em 15 de março de 1990. A morosidade da obra foi de praticamente dois anos, e quando foi possível retomá-la, a empresa já estava muito descapitalizada, e pagou juros de sua dívida por muito mais tempo do que estava previsto.

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