GIANNI CIPRIANO/THE NEW YORK TIMES
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Como os chineses ocuparam a cidade italiana de Prato

População culpa imigrantes asiáticos pela falta de emprego, mas mudança teve início há décadas com as forças econômicas globais

Peter S. Goodman e Emma Bubola, The New York Times

15 de dezembro de 2019 | 05h00

PRATO, ITÁLIA - Como todos em sua família e a maioria das pessoas nas fábricas onde trabalhou, nesta cidade conhecida por sua indústria têxtil, Roberta Travaglini apoiava ferreamente a esquerda política. Durante sua infância seu pai a levava a comícios do Partido Comunista, com muita música, danças e discursos acalorados. Quando ela fez 18 anos arrumou um emprego numa tecelagem e votou no partido.

Mas isso foi antes de as coisas mudarem – antes de a China surgir como potência têxtil, minando as empresas locais, e antes de ela e seus colegas perderem seu emprego e ela se ver mãe de dois garotos vivendo com ajuda dos pais aposentados. E antes da chegada dos chineses a Prato, arrendando tecelagens fechadas e funcionando durante a noite toda.

Nas eleições nacionais do ano passado, Roberta, 61 anos, votou na Liga, partido de extrema direita cujo bombástico líder, Matteo Salvini, propõe uma solução rudimentar para os problemas da Itália: fechar as portas do país.

Para Roberta, Salvini se dirige a pessoas como ela e oferece uma explicação coerente do que ocorreu em sua vida. Forças globais ocultas e imigrantes moralmente depravados roubaram seu direito natural de italiana: a promessa de uma vida confortável. Artesãos e operários resgataram a Itália dos escombros da Segunda Guerra Mundial, construindo uma nação próspera, antes de elementos perversos chegarem para roubar a recompensa.

A ascensão da Liga – hoje fora do governo, mas que deve vencer quaisquer eleições nacionais que se realizarem no país – é explicada pela cólera da população contra a imigração. Esse é claramente um importante fator. Mas as bases da mudança foram criadas há décadas, quando cidades têxteis como Prato foram destruídas por forças econômicas globais e, especialmente, pela concorrência de uma China que avançava rapidamente.

Competição

 A Itália ficou especialmente vulnerável à China, uma vez que grande parte dos seus negócios artesanais – com têxteis, couro e fabricação de sapatos – sempre foram dominados por pequenas empresas familiares sem escala para competir com fábricas numa nação de 1,4 bilhão de pessoas. Quatro regiões italianas – Toscana, Umbria, Marche e Emilia-Romagna – que na década de 80 elegeram comunistas e depois apoiaram candidatos de centro-esquerda, nos últimos anos mudaram acentuadamente o seu voto para a extrema direita.

Apesar das características marxistas e a solidariedade para com a União Soviética, o Partido Comunista jamais foi devotado à uma derrubada revolucionária do capitalismo. Era uma esquerda no mesmo estilo dos países nórdicos, como a Suécia, seus líderes buscando uma distribuição equitativa dos ganhos com o crescimento econômico.

A taxa oficial de desemprego do país excedeu os 10% na maior parte da última década. A enorme dívida pública, combinada com as regras impostas pela União Europeia, limitando os déficits, impediram o governo de fazer gastos para promover o crescimento. Os bancos, estrangulados com o montante de créditos não pagos, deixaram de emprestar. A população está envelhecendo, a evasão fiscal é desenfreada, a economia está estagnada e jovens talentosos vêm deixando o país.

As pessoas em cidades como Prato, perto de Florença, no coração da Toscana, veem a esquerda como uma tribo de tecnocratas decadentes, prescrevendo a globalização como solução para todos os problemas.

No século 12, as pessoas já fabricavam tecidos em Prato, explorando a disponibilidade de água que corria através dos canais construídos pelos romanos. O boom moderno veio após a Segunda Guerra , quando as pessoas partiram para a cidade para trabalhar nas fábricas. Na década de 80, as grandes casas de moda da Itália enviavam seus estilistas para Prato, e os produtores locais produziam material para Armani, Versace e Dolce & Gabbana. As operações no setor de tecelagem continuavam pequenas e especializadas, usando oficinas instaladas em casa, permitindo mudarem seu foco rapidamente para satisfazer as novas preferências no campo da moda. 

“Nós nos considerávamos os melhores do mundo”, disse Edoardo Nesi, que passou seus dias dirigindo a tecelagem fundada por seu avô, e suas noites escrevendo romances. “Todos estavam ganhando.”

O Partido Comunista controlava a cidade, usando seu poder para construir obras públicas, um museu de arte contemporânea, uma biblioteca dentro de uma fábrica abandonada, um museu da tecelagem.

O pai de Nesi era um amante de Beethoven, literatura e pagamento no prazo. Ele conferiu a seu filho um contrato lucrativo: ele enviava lã para fábricas de sobretudos na Alemanha e elas, infalivelmente, pagavam dez dias depois. Seu pai assegurou a ele que a fórmula para o sucesso era ser honesto e produzir tecido de qualidade, “e você será tão feliz como eu sou”. “Vivemos num lugar onde tudo foi bom durante 40 anos. Ninguém tinha medo do futuro.”

Nos anos 90, os alemães passaram a comprar tecidos mais baratos da Bulgária e Romênia. Depois voltaram seus olhos para a China. Os clientes alemães se viram pressionados a fazer economia por causa das novas lojas que estavam entrando em seu negócio.

Made in Italy (por imigrantes chineses)

 À medida que as tecelagens de Prato fechavam, os chineses começavam a chegar em busca de oportunidade. Muitos eram de Wenzhou, cidade costeira famosa pelo seu espírito empreendedor. Eles assumiram o controle de tecelagens falidas e construíram novas fábricas. Importavam tecido da China e fabricavam roupas, imitando os estilos de marcas da moda italianas, mas colocando um rótulo valioso em suas criações – o “Made in Italy”.

Hoje, mais de um décimo dos 200 mil habitantes da cidade são chineses que vivem legalmente no país e, segundo uma estimativa, talvez 15 mil sem documentos legais. Os restaurantes e confeitarias chineses surgiram para atender à população local. Nos arredores da cidade, armazéns de chineses estão inundados de roupas para serem vendidas nos mercados de rua em Florença e Paris.

Entre os operários italianos que se inclinaram para a direita, a chegada dos chineses, com a imigração africana, é uma indecência que transformou Prato numa cidade que não mais reconhecem. “Não acho justo que eles cheguem e roubem os empregos dos italianos”, disse Roberta Travaglini. Segundo ela, as empresas chinesas não pagam impostos e violam as normas salariais, reduzindo a remuneração de todos. Desde que perdeu seu emprego numa tecelagem há três anos, ela tem sobrevivido reformando roupas para pessoas do bairro. “Não há emprego nem mesmo para os jovens”, disse.

Dentro da comunidade chinesa, as pessoas protestam, afirmando que suas contribuições para a economia local são ignoradas em meio a essas acusações racistas. “Esses depósitos estavam vazios antes de os chineses chegarem”, disse Marco Weng, 20 anos, cujos pais vieram da China para a Itália há três décadas. “Os chineses não roubam empregos. Criam empregos.” 

Marco Hong, 23 anos, ítalo-chinês de segunda geração, supervisiona a produção na fábrica de roupas dos pais. Operando a marca Distretto 12, a empresa compra tecidos de tecelagens de Prato e produz roupas modernas que são encontradas em lojas na Espanha e Alemanha. Cerca de 35 pessoas trabalham na fábrica, metade empregados italianos. “Quem conhece o setor sabe que o trabalho aumentou desde a chegada dos chineses”, disse ele./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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