Como os países em crise ocultam sua riqueza

Estudo do BCE mostra que família média alemã possui ativos equivalente a 195 mil, quase 100 mil a menos do que uma família espanhola

DER, SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2013 | 02h03

As imagens que vemos das capitais de países atingidas pela crise da Europa são confusas. Na capital do Chipre, Nicósia, milhares protestaram contra o imposto cobrado sobre os depósitos bancários, portando cartazes com imagens de Hitler e slogans contra Angela Merkel, um deles com a inscrição: "Merkel, seu dinheiro nazista é mais sangrento do que qualquer dinheiro lavado".

A chanceler alemã foi recebida da mesma maneira hostil quando visitou Atenas em outubro de 2012. Apesar das ofensas, os manifestantes e os demais críticos de Angela Merkel em Roma, Madri, Nicósia e Atenas concordam num ponto: a Alemanha deve pagar pelos pacotes de ajuda o máximo possível e com certeza mais do que tem feito até agora.

Eles afirmam que a Alemanha é um país rico que se beneficiou mais do que todos os outros com a introdução do euro e inundou os outros países europeus com suas exportações e prosperou às suas custas.

Os alemães devem menos do que aqueles que estão pedindo dinheiro emprestado, mas há também uma segunda imagem da Alemanha, baseada em números e não em emoções. Os dados foram obtidos pelo Banco Central Europeu (BCE) e divulgados há duas semanas. Essa imagem retrata um país cujas famílias devem menos em média do que aquelas que estão pedindo empréstimos.

Nesse ranking de ativos do BCE, Chipre ocupa o segundo lugar em toda a Europa, ao passo que a Alemanha está numa posição bem mais baixa, mais inferior até do que dois outros países afetados pela crise, Espanha e Itália.

Chipre, com suas famílias ricas, receberia agora cerca de 10 bilhões (ou US$ 13,1 bilhões) do Mecanismo de Estabilidade Europeu (ESM na sigla em inglês) - fundo permanente de ajuda financeira -, e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas uma nova questão está surgindo: por que, exatamente, estamos fazendo isso?

A Alemanha já forneceu 100 bilhões para esse mecanismo de ajuda. Se mais países requisitarem um socorro financeiro e não puderem mais servir de doadores, a quantia em dinheiro garantida pelos alemães pode aumentar para 509 bilhões, segundo a Associação Alemã de Contribuintes.

Seria mais sensato - e mais justo - que países combalidos pela crise exerçam sua autoridade para reduzir seus débitos, ou seja, recorrendo a uma parte maior dos ativos dos seus cidadãos do que fizeram até agora.

Como mostra esse recente estudo do BCE, com certeza existe dinheiro disponível suficiente para isso. Os dados apresentados são explosivos. Por exemplo, uma família média alemã possui ativos equivalente a 195 mil, quase 100 mil menos do que uma família média espanhola. O patrimônio líquido médio de uma família em Chipre chega a 671 mil, três vezes mais do que o de uma família alemã. Quanto às famílias italianas e francesas, elas também são muito mais ricas do que suas contrapartes alemãs.

As diferenças são mais pronunciadas quando se trata da riqueza líquida média, nível que a metade mais desfavorecida da população mal alcança e a metade mais rica ultrapassa. Com base nessa medida, a Alemanha, com 51,4 mil, está, na verdade, em último lugar na zona do euro. O valor correspondente no caso de Chipre é cinco vezes maior. E ele é ainda mais alto em Portugal, combalido pela crise.

A conclusão do estudo do BCE dificilmente seria publicada antes de várias medidas serem adotadas para relativizar os dados. Os resultados foram aparentemente incômodos para o BCE e também para o governo alemão.

Quando os políticos da União Democrata Crista (CDU) e seu partido irmão da Baviera, União Social Cristã (CSU), analisaram minuciosamente os dados confusos durante uma reunião e questionaram, o ministro de Finanças, Wolfgang Schaeuble, reagiu com displicência. E não ofereceu nenhuma interpretação clara. No final, comentou que os dados não eram tão claros como pareciam e ninguém fez mais perguntas.

Schaeuble alcançou seu objetivo, uma vez que temia que o material seria uma ótima munição para os críticos da atual política de resgate do euro adotada pela Alemanha. Observou, por exemplo, que uma família média em Chipre é composta de três indivíduos, ao passo que na Alemanha em geral tem apenas dois integrantes. O que é verdade. Mas a diferença de 50% em termos de tamanho de uma família não explica uma diferença 200% em termos de riqueza.

Mais convincente é uma nota observando que as diferenças em termos de riqueza podem ser atribuídas sobretudo à posse de uma propriedade, o que é habitual em vários países. Enquanto mais de 80% das famílias detêm um imóvel próprio na Espanha (83%), Eslovênia (81,6%) e Eslováquia (90%) somente 44% dos alemães possuem um imóvel em seu nome.

A comparação mostra o papel significativo que a propriedade de um imóvel tem nas estatísticas sobre a riqueza: enquanto o patrimônio médio de uma família alemã que possui casa própria ou participa de um condomínio é de 216 mil, ele é de apenas 10,3 mil no caso daqueles que alugam um imóvel.

E é claro que os proprietários de imóveis na Espanha e em Chipre não são tão ricos como sugere o estudo do BCE. Os dados relativos a muitos países da UE são de 2010, ao passo que parte da informação no caso da Espanha é de 2008. Em ambos os países o valor de muitas casas e condomínios caiu drasticamente. Só na Espanha a queda foi de 36%. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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