Como reverter o problema?

Cinco economistas apontam possíveis soluções para recolocar a economia brasileira no caminho do crescimento

Alexa Salomão, O Estado de S. Paulo

30 de agosto de 2014 | 19h04

Bernard Appy, diretor da LCA Consultores. “Em primeiro lugar, é preciso recuperar a credibilidade mediante ajuste das contas públicas. O ajuste não precisa ser imediato. Pode ser feito no horizonte de um mandato ou até além. O controle das despesas contribuiria para o aumento da poupança, criaria condições para a expansão do investimento e abriria espaço para a queda da taxa de juros - consequentemente, para a retomada de um novo ciclo de crédito para as famílias. Isso seria possível porque taxas de juros mais baixas implicam prestações menores. Também seria preciso fazer uma agenda de microrreformas que pudesse elevar a eficiência e a produtividade do País. Um das mais importantes é a reforma tributária - que aliás nunca foi tão discutida numa campanha eleitoral como agora. A burocracia tributária é um peso morto. Eleva os custos das empresas e alimenta contenciosos judiciais, que também consomem tempo e dinheiro. O Brasil acumula distorções por não se mexer na estrutura tributária.” 

Fernando Nogueira da Costa, professor da Unicamp. “Coloco uma pergunta diferente: como o Brasil poderia crescer mais? O País terá nos próximos anos uma janela de oportunidade histórica e extraordinária. Vai contar com os benefícios do bônus demográfico (momento em que a maioria da população está em idade produtiva, o que cria efeitos positivos no crescimento). O bônus vai se estender até 2030. Alguns falam que pode ir até 2050. Também vai contar com a exploração de petróleo do pré-sal. Mais da metade da produção do Brasil, até 2018, virá do pré-sal. A previsão é que o País se torne na próxima década um dos maiores exportadores de petróleo do mundo. Depois de 2020, a Petrobrás já estará produzindo 4 milhões de barris por dia. Outras empresas devem produzir outros 1,2 milhão de barris. O Brasil terá uns 2 milhões de barris para exportar. Isso vai resolver o problema da balança de pagamentos. Como está definido que 75% dos royalties do petróleo vão para educação e 25%, para a saúde, o petróleo vai melhorar a qualidade da vida da população, além dar estabilidade ao câmbio.”

Marcos Lisboa, vice-presidente do Insper. “Ganho de produtividade vem da concorrência. Na hora que tenho várias empresas tentando prosperar, muitas vão fracassar. Quebrar. É parte do jogo. Mas algumas vão ter sucesso. Vão crescer. Essas serão copiadas e vão gerar aumento de produtividade. Você pode até dar estímulos. Não sou contra estímulos. O Chile vinha tendo redução de investimento e fez recentemente uma política de estímulo. Mas eles não escolheram A ou B. Fizeram para todo mundo. Vou dar um exemplo local. O agronegócio teve proteção - mas para todo mundo. Empresas privadas e públicas, como a Embrapa, fazem pesquisa. O agronegócio concorre internacionalmente. Muita gente quis plantar soja em Mato Grosso e café no Cerrado mineiro e faliu. Mas as empresas que sobreviveram compraram as pequenas, investimento em novas máquinas, serviços e equipamentos. Precisamos sair da armadilha dos benefícios setoriais que foi criada nos últimos anos. Desarmar vai ser complicado. Haverá oposição, mas a direção é essa para que o Brasil retome o crescimento.” 

Monica De Bolle, sócia diretora da Galanto. “Precisamos, antes de tudo, que nossas autoridades reconheçam os problemas que criaram. O Banco Central precisa voltar a operar com autonomia, com uma equipe que não seja submissa ao governo e coloque o regime de metas de inflação para funcionar como sempre funcionou. Isso é o mais fácil de resolver. Difícil é reorganizar a política fiscal (a política relacionada à gestão da arrecadação e dos gastos públicos). Não vai bastar anunciar corte de gastos. Hoje o balanço das empresas dos setor elétrico, da Petrobrás, do BNDES, da Caixa Econômica Federal e do Tesouro Nacional fazem parte de um único pacote. É um nó difícil de desatar, igual aquele que se faz em correntinha comprada em feira hippie. Ninguém sabe com clareza o tamanho da conta, do buraco. Sabemos apenas que o fiscal está atrapalhado. A população não se preocupa com política fiscal, mas ela pede hoje mais qualidade na saúde, na educação, na segurança. Quando o fiscal está atrapalhado, fica difícil atender essas demandas.” 

Vinicius Carrasco, professor na PUC-Rio. “O mais fácil, imediato e barato é assumir um conjunto de regras que sejam claras e iguais para todos. Isso significa acabar com a proteção a setores eleitos. Proteger um setor tem dois efeitos bastante deletérios sobre a economia. Primeiro: aumenta o custo de produção, reduz a produtividade e o nível de competitividade. Segundo: quando um setor enfrenta menos competição, perde o estímulo para inovar e para buscar mais produtividade. Como crescimento de longo prazo está intimamente relacionado a ganhos de produtividade, a proteção, ao final, terá impactos negativos sobre o crescimento. É preciso também rever a política que elege esses ou aqueles setores como campeões nacionais. Com ela, quem recebe o crédito generoso do BNDES não é necessariamente a empresa que tem o melhor projeto, mas que é melhor relacionada. O favorecimento dessa natureza pode levar a um excesso de investimentos nas atividades erradas e induzir a escolha de projetos com menos qualidade. Esses equívocos reduzem a produtividade e o crescimento.”

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