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Como se equivocar na economia

Sobreposição de erros compromete performance econômica global

Paul Krugman, NYTIMES.COM

15 de setembro de 2014 | 19h30

Na semana passada, participei de uma conferência organizada pelo Rethinking Economics, um grupo conduzido por estudantes para promover - adivinhe - reconsiderações sobre a economia. E Mamom (figura que personifica o dinheiro e a avareza) sabe que a economia precisa ser repensada depois uma crise desastrosa, que não foi prevenida, sequer prevista.

Acho importante lembrar, porém, que amargamos vários fracassos intelectuais nos últimos anos, em diversos níveis. Não há dúvida de que a economia como disciplina tomou rumos equivocados durante anos - ou décadas -, e facilitou a crise. Mas as falhas na economia foram consideravelmente agravadas pelos pecados dos economistas - que frequentemente deixam o favoritismo ou o autoengrandecimento prevalecerem sobre o profissionalismo. Por último, mas não menos importante, os responsáveis por políticas econômicas escolhem sistematicamente ouvir apenas o que lhes interessa. A sobreposição de equívocos em diversos níveis - e não apenas a inadequação do discurso econômico - é a responsável pela terrível performance da economia ocidental desde 2008.

Em que sentido a economia tomou rumos equivocados? Quase ninguém previu a crise de 2008, embora esse lapso seja compreensível em um mundo tão complexo. Por outro lado, é assustadora a convicção dos economistas de que uma crise como essa não poderia acontecer. Nas entrelinhas dessa complacência, reside a idealização de um capitalismo no qual os indivíduos são sempre racionais, e os mercados funcionam perfeitamente.

Modelos ideais desempenham um papel importante no estudo da economia (e, claro, em qualquer disciplina), clareiam o pensamento. Mas a partir dos anos 1980, tornou-se cada vez mais difícil questionar o modelo econômico idealizado nos grandes meios de comunicação. Economistas que tentam levar em conta as imperfeições do sistema enfrentam o que Kenneth Rogoff - figura nada radical de Harvard (e com quem tenho divergências) - chamou de "nova repressão neoclássica". E deveria ser desnecessário dizer que negligenciar a irracionalidade e os equívocos do mercado significou fechar os olhos para a possibilidade de uma catástrofe econômica como a que assolou o mundo desenvolvido há seis anos.

Alguns economistas especializados sustentaram uma visão de mundo mais realista, debruçaram-se sobre textos de macroeconomia e, apesar de não terem previsto a crise, realizaram um bom trabalho ao prever cenários de contenção para os desdobramentos da crise. Medidas como a baixa nas taxas de juros para enfrentar grandes déficits orçamentários, a redução da inflação para lidar com o crescimento da oferta monetária, e o arrocho econômico em vários países com a imposição de políticas de austeridade fiscal surpreenderam âncoras da TV, mas tratam-se de resoluções fundamentadas em modelos básicos de cenários pós-crise.

Se esses modelos não desempenharam tão mal o papel de mitigar a crise, muitos economistas influentes não corresponderam às expectativas: recusaram-se a assumir seus erros, deixaram favoritismos explícitos influenciar suas análises, ou encarnaram as duas atitudes. "Ei! Afirmei que outra grande depressão jamais aconteceria novamente, e não estava errado. O problema é que a economia está reagindo ao fracasso anunciado do Obamacare."

Pode-se dizer que essa é a natureza humana, pois enquanto economistas conservadores cometiam equívocos intelectuais chocantes, alguns pares mais à esquerda também pareciam mais interessados em defender seu quinhão e condenar homólogos rivais do que em prever e prevenir a crise. De qualquer forma, o comportamento dos dois lados pareceu descabido, especialmente aos que acreditaram que realmente estavam debatendo questões de economia.

Mas se os economistas tivessem se comportado melhor, teria sido diferente? Ou os líderes no poder teriam feito exatamente as mesmas coisas?

Os responsáveis por políticas econômicas não passaram os últimos cinco ou seis anos submetidos a ortodoxias econômicas, ao contrário do que se poderia pensar. Ao tomar decisões importantes, foram altamente receptivos a inovações, heterodoxias e ideias econômicas novas - que muitas vezes se revelaram equivocadas, mas ofereceram justificativas para as medidas tomadas.

A grande maioria dos economistas especializados em política econômica acredita que o aumento dos gastos públicos em períodos de depressão estimula a criação de empregos, enquanto os cortes orçamentários produzem o efeito contrário. Mas líderes europeus e estadunidenses decidiram acreditar na palavra de um punhado de economistas que dissertam o oposto. Nem a teoria, nem a história justificam o pânico em relação aos níveis atuais de déficit orçamentário, mas os políticos insistiram em entrar em pânico, usando como justificativa uma pesquisa pouco fundamentada (que revelou-se também enganosa).

Não estou dizendo que a economia está em forma, ou que seus desvios não importam. Sim, importam, e sou a favor de repensar e reformular esse campo.

O grande problema da política econômica, porém, não é o fato da economia convencional não dizer o que deve ser feito. Em realidade, o mundo estaria muito melhor se as medidas econômicas tomadas no mundo real refletissem as lições da Econ 101. Se destroçamos tudo, a culpa não está nos textos, e sim em nós mesmos. / Tradução de Livia Almendary

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