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Como um vírus transforma o mundo

Num viés otimista, a crise da covid-19 trará cooperação global para muito além de uma agenda de livre-comércio

Sergio Rial*, O Estado de S. Paulo

04 de abril de 2020 | 05h00

Por enquanto, precisamos refletir com o devido cuidado sobre os malefícios sociais e econômicos que a pandemia vem causando


Nada mais profundo do que a crise gerada pelo novo coronavírus aconteceu no planeta pelo menos desde a depressão de 1929. Só uma crise real, ou ao menos assim percebida, pode gerar mudanças em todos os níveis da sociedade.

Houve um completo e abrupto reset global. É como se o mundo tivesse sido tirado da tomada. Faltou energia e, quando ela voltar, teremos de fazer o rebooting para uma nova realidade pós-vírus.

O futuro será muito melhor do que o presente. Mas, por enquanto, precisamos refletir com o devido cuidado sobre os malefícios sociais e econômicos que a pandemia vem causando.

Teremos recessão em vários países, contrariamente ao que pensávamos dois meses atrás, quando víamos os EUA em seu melhor momento econômico e o Brasil retomando o crescimento de forma sólida. Com o Ibovespa precificado acima de 100 mil pontos e dois milhões de investidores pessoa física, a primeira grande semente da formação de um capitalismo mais democrático parecia estar plantada. Não devemos desistir jamais desse pluralismo econômico.

A covid-19, porém, encerra a era industrial. Ou seja, o modelo econômico de “mais pelo mais” – em que o conceito de escala rege o pensamento estratégico – mostra-se muito mais vulnerável com a crise.

A envergadura desse ataque à humanidade deixou claro que a interdependência dos países é real, e não política. A tecnologia e a logística deste século desconstruíram fronteiras: nunca fomos testemunhas de tamanha colaboração científica global. O vírus vai acelerar a revolução da ciência do genoma, da biotecnologia e de campos afins.

Na Comunidade Europeia, a explosão do vírus teve um efeito de união que nem o euro foi capaz de criar. Há quem diga que a crise será a raiz dos “Estados Unidos da Europa”. Como toda a crise, existem vozes muito opostas a essa visão, na medida em que apesar de haver respiradores em outros países limítrofes ao norte da Itália, tal mobilização não ocorreu. Seria a fragmentação inevitável das regiões autônomas da Europa pós-covid?

Em um viés otimista, a crise da covid-19 trará uma cooperação global para muito além de uma agenda de livre-comércio. A partir de agora, a humanidade se unirá contra novos patógenos que surgirão e em esforços para superar os abalos socioeconômicos que emergirem. São crescentes as iniciativas de empresas e pessoas para garantir doações de equipamentos médicos e suprimentos, por exemplo. A mobilização social nunca foi tão premente e está ocorrendo.

Não vivemos uma crise financeira como a de 2008 ou outras. O sistema financeiro, não só bancos, está preparado. Cabe lembrar que não se enfrenta uma crise dessa envergadura com o sistema financeiro débil. É essencial que o setor tenha capacidade de fornecer crédito e faça parte da solução. Críticas à execução das medidas são legítimas porque o cidadão tem pressa. Precisamos garantir o atendimento à população e oferecer alternativas para que a atividade econômica não paralise e os problemas sociais sejam minimizados. 

Duas premissas são dadas: recessão no planeta e, possivelmente, maior inadimplência. Neste momento, não podemos dar espaço a oportunismos, como tentativas de quebra de contratos com repercussões maiores do que imaginamos. Tudo no sistema econômico está entrelaçado. Devemos sim fazer tudo para que a vida do outro seja mais fácil e a recuperação se dê com maior velocidade. E juntos, com o maior nível de civilidade possível. 

Uma das principais preocupações é em relação às pequenas e médias empresas, os maiores empregadores do País, mas que sofrem direta e rapidamente com a diminuição da circulação da população. Ao garantir a capacidade de pagamento de salários em momentos como este, faremos uma profunda diferença na vida de milhões de pessoas.

As estruturas físicas, tanto agências de bancos quanto escritórios, passam a ter um significado diferente. Sabíamos que este seria o século da desmaterialização, mas nunca fomos testados, em tão pouco tempo, a trabalhar de forma remota e com a obrigação de garantir a produtividade em tão pouco tempo.

Nessa nova sociedade, o remote everything terá repercussões profundas, da indústria financeira à de turismo e, com muita intensidade, no comércio. Em três meses, o e-commerce terá um crescimento que, em condições normais, demandaria anos, e possivelmente trazendo à tona questões latentes, como o aspecto tributário dessas transações e o valor inestimável da logística. A construção de marcas também terá novos filtros.

As cadeias alimentares serão redesenhadas a partir da eliminação dos wet-markets na China. Valorizaremos ainda mais a rastreabilidade e o manuseio logístico do alimento. O aspecto da limpeza ao nosso redor terá uma nova régua – no avião, no restaurante, nas agências e nas nossas casas. Os vírus passam a ser “visíveis a olho nu”. Tenho esperança de que tudo isso nos leve a colocar saneamento e água de qualidade à frente em nossa agenda de infraestrutura.

Nas empresas, a crise evidencia dimensões de gestão muito bem conhecidas, mas nem sempre bem resolvidas. Mais do que nunca, é fundamental ter alta capacidade de liderança, alinhamento preciso na execução e enfrentar o desafio de, em momentos de crise, quando a tolerância tende a desaparecer, dar espaço a opiniões diametralmente opostas às nossas.

Como diz o escritor Yuval Noah Harari, a grande vitória do vírus ocorrerá se não formos capazes de nos unir em prol de uma sociedade que saia desse turbilhão mais forte.

Por enquanto, seguimos reagindo às ameaças do vírus com intensidade. Os mais otimistas dizem que veremos o nascimento de um capitalismo mais sustentável. A metáfora da falta de respiradores mesmo em sociedades mais ricas, nos remete à excessiva concentração de renda dentro de um mundo que já é fundamentalmente mais plural, mais participativo e que tem anseios legítimos, impulsionados especialmente pela tecnologia, na sua forma mais ampla.

O grande desafio deste século é garantir a todos o direito a uma vida mais digna, com trabalho adequado e tendo em mente a consciência de que tudo está mudando mais rápido do que somos capazes de entender. Maior riqueza se dá com crescimento e, para isso, teremos de repensar vários modelos de negócios existentes e a forma como vamos interagir como povos. É só reconhecer, que em menos de 25 anos, o mundo esteve bem perto de eventos de envergadura catastrófica.

Em 2020, a causa foi um vírus, mas quem poderá antecipar o que catalisará novas mudanças nas próximas décadas? O século 21 chegou.

*PRESIDENTE DO SANTANDER BRASIL

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