Luke MacGregor
Luke MacGregor

Como uma repórter denunciou abusos em luxuosa instituição de caridade de Londres

Após denúncias de abuso sexual, investigação foi aberta e a primeira-ministra manifestou seu extremo desconforto com a situação

Washington Post

25 de janeiro de 2018 | 19h15

LONDRES - Precisa-se: mulheres jovens e atraentes usando calcinhas sensuais para trabalhar como recepcionistas para figurões empresariais britânicos em um evento de caridade apenas para senhores de idade bêbados. Em 2018.

Quando a notícia em estilo tabloide sobre esse evento surgiu no geralmente comportado jornal de negócios Financial Times na quarta-feira, 24, o susto foi imediato.

A história dos prósperos homens malcomportados não era exatamente o momento #MeToo da Grã-Bretanha. Londres foi cenário de supostos atos de assédio sexual tanto por parte de Harvey Weinstein quanto de Kevin Spacey, enquanto o governo foi assolado por seus próprios escândalos de “pragas sexuais”, incluindo a demissão no final do ano passado do secretário de Defesa, Michael Fallon, acusado de insistentemente colocar a mão no joelho de uma conhecida radialista num jantar em 2002.

Mas a investigação do jornal sobre o assédio que era distribuído em um evento de caridade de Londres na quinta-feira, 18, trouxe um novo abalo. A reportagem diz que as mulheres que serviram como recepcionistas, algumas delas estudantes universitárias, foram apalpadas, perseguidas e receberam cantadas. Um participante, idoso, perguntou a uma das moças se ela era prostituta.

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A jornalista disfarçada, que escreveu a matéria, contou ao The Washington Post que ela também foi apalpada e submetida a comentários obscenos.

A Câmara dos Comuns anunciou investigações e a primeira-ministra manifestou seu extremo desconforto, pois as recepcionistas chegaram a correr para as saídas. A própria instituição de caridade anunciou na quarta-feira que encerrará atividades imediatamente.

Todos os anos, há 33 anos, o Presidents Club Charitable Trust organiza um jantar para angariar fundos no exclusivo Hotel Dorchester de Londres em benefício de “dignas causas para crianças”.

Os participantes da semana passada, como no passado, foram selecionados entre famosos britânicos, dos negócios, finanças, moda, entretenimento e do establishment político - um grupo “prezado”, de acordo com o site do clube, e altamente exclusivo. Entre os excluídos: mulheres, seja como convidadas ou benfeitoras.

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Mas 130 “recepcionistas” foram contratados para satisfazer as necessidades dos cerca de 360 homens convidados. As mulheres foram incentivadas a beber com os convidados, tanto no evento principal quanto em outros mais discretos – as reconhecidamente assustadoras – “pós-festas”.

Houve algo de diferente este ano. Entre as apresentadoras havia duas infiltradas, uma jornalista do Financial Times chamada Madison Marriage e uma mulher, trabalhando com ela, que garantiu os empregos de recepcionista e também estava disfarçada, para cobrir o evento.

O “furo do FT rapidamente tornou-se a principal história na Grã-Bretanha na quarta-feira, dominando as manchetes da primeira página dos vespertinos, dos sites de notícias e o ambiente das mídias sociais. Os dois hospitais infantis que receberam as doações do evento anunciaram ter ficado “chocados”, pediram desculpas e disseram estar devolvendo o dinheiro.

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No meio da manhã, a cabeça do primeiro diretor importante já havia rolado - a de David Meller, o presidente do evento. Ele pediu demissão algumas horas depois, do cargo de diretor não-executivo do Departamento de Educação da Grã-Bretanha, mesmo que outros doadores e contribuintes tenham saído rapidamente para se afastar do caso.

Já no início da noite, a instituição de caridade Presidents Club anunciou que encerraria suas atividades e distribuiria quaisquer fundos deixados em suas contas para causas que tivessem necessidade - se pudessem encontrar as partes interessadas.

A primeira pista sobre o sórdido comportamento que se desencadearia no jantar secreto veio enquanto os repórteres e outras anfitriãs estavam sendo preparadas.

Os requisitos para o trabalho incluíam pessoas “altas, magras e bonitas”, relatou Marriage no FT.

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Embora o jantar fosse black-tie, para as recepcionistas o traje exigido era: “sensuais sapatos pretos, roupa íntima preta” e “vestidos pretos curtos e apertados”, juntamente com um “cinto preto grosso que se assemelhasse a um espartilho”.

A agência que as contratou nada disse sobre os convidados as apalparem. Foi-lhes dito que os homens poderiam ser “importunos”, informou o FT. “Você só tem que aguentar os homens irritantes e se você puder fazer isso, está bem”, disseram-lhes.

O relato foi simples, escreveu Marriage: “mantenha felizes os integrantes dessa mistura de empresários britânicos e estrangeiros, um estranho lorde, políticos, oligarcas, magnatas da construção, produtores de filmes, financistas e principais executivos - e forneça bebidas quando necessário”.

“Um certo número de homens ficou de pé ao lado das recepcionistas enquanto aguardavam a chegada das entradas de salmão defumado”, começa a reportagem sobre a noite. “Outros permaneceram sentados e ainda insistiram em segurar as mãos de suas recepcionistas ... um prelúdio para puxar as mulheres para o seu colo”.

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À medida que as bailarinas de teatro burlesco se apresentavam em um palco, uma “anfitriã, de 19 anos” ouviu a pergunta de um dos “convidados, perto de seus setenta”, se “era uma prostituta”, o que ela não era, de acordo com a reportagem, que o FT disponibilizou gratuitamente na internet.

Uma das anfitriãs contou ao FT uma cena de “homens zurrando enquanto acariciavam seu traseiro, estômago e pernas. Outro convidado “lançou-se sobre ela para beijá-la”. “De acordo com os relatos de várias das mulheres que trabalhavam naquela noite, carícias e abusos semelhantes foram observados em várias das mesas na sala”, informou o FT.

As recepcionistas disseram que os homens “insistentemente” colocam as mãos nas saias, e um deles se expôs a uma mulher durante as festividades. As recepcionistas que não pareciam entusiasmadas foram pressionadas por “uma equipe coercitiva” a interagir com os convidados.

“Fora dos banheiros das mulheres”, disse o FT, “havia um sistema de monitoramento: as mulheres que passaram muito tempo lá eram chamadas e levadas de volta ao salão de baile”.

Uma “figura da sociedade” cujo nome não foi revelado, agarrou uma das hostesses “pela cintura, puxou-a contra seu estômago e declarou: “Eu quero que você abaixe esse copo, tire suas calcinhas e dance nessa mesa”.

Marriage disse ao The Washington Post em uma entrevista por telefone que ela também foi assediada, mas não incluiu esse detalhe em sua história porque queria se concentrar nas jovens vítimas de abuso. “Recebi propostas e fui apalpada e recebi alguns comentários muito obscenos”, disse ela.

Ela disse que, após o evento, “eu realmente me senti incrivelmente triste e perturbada com o que vi, o fato de que os escalões superiores de nossa sociedade operam dessa maneira ainda em 2018". Marriage disse que conseguiu se manter no “modo profissional” no restante da semana. Mas, no sábado após o evento, “fui visitar meus pais e explodi em lágrimas”.

As outras recepcionistas, que receberam cerca de 211 libras, tinham idades entre 19 e 23 anos, muitas delas estudantes, algumas atrizes, dançarinas e modelos que procuram um dinheiro extra pois seus trabalhos são instáveis”, especialmente em janeiro, quando todo mundo está meio falido”.

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Marriage disse que, embora muitas das mulheres ficaram “perturbadas e alarmadas com o que experimentaram”, outras “gostaram” de trabalhar no evento, especialmente se “pudessem fazer isso com um grupo de amigas, o que torna tudo mais fácil do que sozinha”.

Ela disse que tinha recebido uma dica sobre o jantar. “Recebemos relatos de ex-recepcionistas contando que as mulheres não foram bem tratadas”, disse ela. Isso a levou a sugerir a história aos editores no FT, ela disse.

“A investigação ainda não acabou”, disse ela. Mais provas podem surgir”.

O Financial Times, um jornal global com sede em Londres, está entre as organizações de notícias mais respeitadas do mundo. Mas é mais conhecido por suas precisas reportagens sobre finanças e negócios globais e seus colunistas do que por reportagens sob disfarce.

Depois que a história de quarta-feira foi publicada, incluindo vídeo secreto, a indignação foi imediata.

Membros da Câmara dos Comuns levantaram questões quanto à presença no jantar do legislador do Partido Conservador Nadhim Zahawi, subsecretário de estado para crianças e famílias. Ele alegou ter saído cedo do evento. “É seguro dizer que o Sr. Zahawi não participará do evento no futuro”, disse um porta-voz da primeira-ministra Theresa May.

Um porta-voz de May disse ao The Post que a primeira-ministra estava “pouco à vontade” com as alegações da FT e observou que “claramente este é um evento ao qual ela não seria convidada”.

A vice-líder do Partido Liberal Democrático da Grã-Bretanha, Jo Swinson, chamou a história de “algo de embrulhar o estômago”.

Em um comunicado ao FT, o Presidents Club, observando que havia captado “vários milhões de libras para crianças necessitadas” no evento, disse que os organizadores estavam “chocados” com as acusações. As investigações serão feitas e as devidas ações serão tomadas. Logo depois, anunciou seu pedido de demissão. /Tradução de Claudia Bozzo

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