Fayez Nureldine/AFP
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Coluna

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Companhias aéreas dizem que é seguro viajar de avião. Será?

Elas passaram a exigir máscaras, a medir a temperatura dos passageiros e a acelerar o check-in, mas, para especialistas, 'muita coisa está incerta no momento'

Jane L. Levere, The New York Times

03 de junho de 2020 | 09h00

Companhias aéreas e aeroportos em todo o mundo estão fazendo o possível para dar confiança às pessoas no sentido de que é seguro viajar de avião, apesar da pandemia do coronavírus.

As empresas vêm exigindo o uso de máscaras pelos passageiros e a tripulação, impondo novos procedimentos de limpeza das aeronaves, adotando o distanciamento social a bordo, bloqueando os assentos do meio e, num caso, até mesmo proibindo os passageiros de fazer fila para utilizar os banheiros.

No caso dos aeroportos, funcionários checam a temperatura das pessoas que vão embarcar, realizam exame biométrico para acelerar o check-in e os procedimentos de alfândega e imigração e de segurança; e também usam robôs autônomos para limpeza dos pisos do terminal. Mas nada disto é consistente. E não se sabe ao certo se tais medidas são suficientes.

Por exemplo, o distanciamento social funciona quando os viajantes ficam horas sentados dentro de um avião ao lado de pessoas estranhas? As checagens de temperatura identificam pessoas já doentes, mas como detectar o vírus quando se calcula que 35% das pessoas são assintomáticas e 40% das transmissões ocorrem antes de alguém ficar doente?

“Muita coisa é incerta neste momento”, afirmou Henry Harteveldt, fundador do Atmosphere Research Group, empresa de análise de viagens baseada em São Francisco. “Os aeroportos e companhias aéreas necessitam investir em algo de longo prazo que seja permanente, como a segurança dos aeroportos, ou estas são respostas táticas de curto prazo?”

“Essa incerteza, combinada com a variação de aeroporto para aeroporto no caso dos processos de monitoramento de saúde, acaba deixando o consumidor confuso, sem confiança para viajar. Eles embarcarão num avião apenas quando for necessário, não mais como antes, viajando a negócios ou por prazer”.

A International Air Transport Association estabeleceu, no mês passado, o que chamou de “guia” para a retomada do setor de aviação, recomendando a adoção de medidas “em vários níveis” a serem “implementadas globalmente e reconhecidas pelos governos”. E que incluem monitoramento do passageiro antes do voo; checagem de temperatura quando os viajantes chegam ao aeroporto; uso de máscaras pelos passageiros; uso de máscaras e equipamento de proteção pelos funcionários dos aeroportos, self-service, recursos que evitem o contato quando do check-in e entrega de bagagem, e procedimentos alfandegários realizados eletronicamente.

Mas a associação rejeitou política adotada por algumas empresas aéreas de bloquear os assentos do meio da aeronave, afirmando que “o risco de transmissão da covid-19 de um passageiro para outro, a bordo, é muito pequeno”.

E embora a associação espere que tais diretrizes tranquilizem os viajantes, Timothy O’Neil-Dunne, diretor da empresa de investimentos 777 Partners, que viaja de avião com frequência, disse que foi ignorada uma “pergunta crucial que precisa ser respondida: como posso ficar tranquilo de que somente pessoas que não propagam a covid-19 viajam comigo no avião?”.

Uma medida exigida de modo amplo pelas companhias aéreas é o uso de máscaras ou proteção facial pelos passageiros e pela tripulação.

Aéreas

No caso de algumas companhias, como Qatar Airways, Philippines Airlines e AirAsia, os comissários de bordo vêm usando trajes de proteção.

A American Airlines e a Southwest Airlines estão entre algumas companhias que intensificaram seus programas de higienização das aeronaves, mas os aparelhos mais modernos usam filtros de partículas no ar muito eficientes (chamados filtros Hepa), utilizados em salas de operações nos hospitais. Esses filtros extraem virtualmente todos os micróbios e vírus do ar da cabine. Mas não há prova de que eles protegem totalmente o viajante contra o coronavírus.

Ryanair, empresa low-cost com sede em Dublin que pretende retomar 40% do seu serviço regular no dia 1.º de julho, é contrária ao bloqueio dos assentos do meio da aeronave. E adotou uma das medidas mais inusitadas: proibir as “filas dos banheiros” durante os voos e “o acesso ao banheiro será possível para passageiros individualmente e a pedido”.

A Delta Air Lines não só exige o uso de máscaras, mas vem também desinfetando os quiosques de check-in e balcões e os locais onde a bagagem é colocada, e também desinfetando as áreas dos portões e pontes de embarque e desembarque dos aviões, como também as áreas usadas por funcionários.

Além disto, vem desinfetando os lavatórios, os espaços de guarda de bagagem dentro do avião, as mesas extensíveis e as telas antes de cada voo. E temporariamente bloqueou os assuntos do meio, reduziu a oferta de alimentos e bebidas e troca os filtros Hepa duas vezes como recomendado pela fabricante.

Frontier, Air France e Singapore Airlines, entre outras, checam a temperatura dos passageiros. A Etihad está fazendo um teste com voluntários no aeroporto de Dubai no caso de um quiosque self-service, em que não há nenhum contato, para medição de temperatura, ritmo cardíaco e frequência respiratória.

Aeroportos

O aeroporto internacional de Pittsburgh tem um robô com um cérebro projetado pela Carnegie Robotics que usa luz ultravioleta para limpeza do piso. O aeroporto também considera usar a luz para esterilizar botões de elevadores e corrimões em elevadores e esteiras rolantes. 

O aeroporto de Cincinnati começou a utilizar recentemente um robô chamado Avidbots NEO, utilizado em aeroportos no exterior, para limpar os pisos. Brian Cobb, diretor de inovação do aeroporto, disse que a ideia é usar dados fornecidos pelo robô para monitorar e, se necessário, redirecionar os viajantes para manter o distanciamento social.

O aeroporto de Dallas utiliza luzes e letreiros digitais para indicar lugares livres nas áreas de descanso. O aeroporto Hartsfield-Jackson, de Atlanta, instalou 400 novos desinfetantes de mão que empregam um sistema de monitoramento inteligente.

O aeroporto internacional de Miami adotou um novo serviço, da desenvolvedora de software Inside, que monitora e avalia o distanciamento social nas filas de checagem de segurança. O aeroporto internacional de Tampa instalou protetores de plástico nas áreas de trânsito intenso e marcadores de distanciamento social. Reduziu os assentos e aumentou as medidas de limpeza. Além disso vem aconselhando os viajantes a chegarem com pelo menos duas horas de antecedência ao aeroporto “para evitar aglomeração na correria de última hora”.

Privacidade

O uso do exame biométrico continua a ser debatido, pelo menos nos Estados Unidos e Europa. Embora O’Neil-Dunne e Harteveldt apoiem a ideia, este último sugeriu que, não importa quem adotar a tecnologia, precisa operá-la “com o mais alto padrão de segurança de dados”, de modo a assegurar que a informação sobre a saúde dos passageiros seja protegida.

Para O’Dunne, os passageiros talvez tenham de ser mais flexíveis quanto à privacidade, para proteger a sua saúde e a dos outros.

“Ética é importante quando ela é tudo o que importa”, disse ele. “Neste caso é um vírus que provocou uma pandemia. Você não está lidando apenas com direitos individuais, mas com os direitos humanos básicos dos passageiros ao seu lado e na minha opinião isto tem precedência”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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