Companhias valem 6,5 vezes mais em dez anos

Ao atingir a maturidade, o mercado de capitais brasileiro tem hoje tamanho e características completamente distintos ao que era há uma década. As empresas listadas em bolsa aumentaram seu valor de mercado mais de 6,5 vezes no período. Na onda do crescimento das exportações, empresas brasileiras, que antes eram apenas vendedoras ao exterior, hoje ganharam dimensão de companhias internacionais.

TERESA NAVARRO, Agencia Estado

19 de maio de 2010 | 23h00

É o que mostra o resultado do Destaque Agência Estado Empresas da Década, que hoje homenageia cinco companhias com o melhor desempenho nos últimos dez anos do ponto de vista do acionista. O reconhecimento às empresas da década é uma forma de comemorar os dez anos da existência do prêmio, concedido anualmente, e os 40 anos da Agência Estado. São empresas e instituições financeiras que, como a vencedora AmBev, hoje têm presença internacional.

Em 1999, quando a Agência Estado e a Economática começaram a elaborar um ranking para medir, com uma metodologia própria, o desempenho de companhias de capital aberto, a bolsa paulista contava com 312 empresas listadas, somando valor de mercado de US$ 194 bilhões. Dez anos depois, as 325 empresas que negociam na Bovespa têm valor de mercado de US$ 1,26 trilhão, segundo dados da Economática.

Tamanha valorização está relacionada às chamadas expectativas. No sobe e desce do mercado de ações, o investidor está sempre atento às perspectivas para o futuro, ou, no jargão do setor, está sempre usando o modelo de caixa descontado. "A valorização acentuada das ações, sobretudo a partir de 2003, nada mais é do que a expectativa de um futuro favorável, que está se concretizando agora", diz o presidente da Economática, Fernando Exel, referindo-se ao bom desempenho da economia brasileira.

Na década, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu no acumulado 38,5%, as exportações subiram 218,65% e, como consequência, a balança comercial, que era negativa em US$ 1,28 bilhão em 1999, no ano passado fechou positiva em US$ 25,34 bilhões, de acordo com dados do IBGE e do Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio (MIDC), respectivamente. O País também resistiu bem à crise econômica internacional, iniciada em 2008, e as empresas que, no primeiro momento colocaram o pé no freio, a partir do segundo semestre de 2009 já voltaram a investir.

Mercado Interno

O resultado do prêmio Destaque Agência Estado Empresas 2010, relativo ao levantamento de 2009, reflete bem o comportamento da economia brasileira no ano passado. "As companhias que tiveram os melhores desempenhos em 2009 foram, sobretudo, as voltadas ao mercado interno, como varejo e serviços", diz Exel. A campeã do Destaque 2010, que este ano conta com a auditoria da KPMG, foi a rede varejista Lojas Americanas.

Mesmo quem já conquistou o mundo, como a AmBev, está atento ao mercado brasileiro. Com uma história que coincide com a do Destaque AE Empresas, a campeã da década anunciou a fusão entre Brahma e Antarctica, dando origem à AmBev, em 1999, também primeiro ano do levantamento feito pela Agência Estado e Economática. A fusão deu início ao processo de internacionalização, com presença, hoje, em 14 países. Apesar do sucesso mundial, os planos para o futuro olham para o mercado interno. "Vamos aproveitar o fato de estarmos fortemente posicionados no Brasil, que é a bola da vez", diz o presidente da empresa, João Castro Neves.

Também a Souza Cruz olha opções para manter sua trajetória de crescimento no Brasil. Embora o foco continue sendo o cigarro, uma alternativa é a importação de charutos Dunhill quando a marca já estiver consolidada no mercado brasileiro, ou até mesmo de cigarrilhas. "Além disso, dentro da área de cigarros, poderemos ter produtos alternativos", afirma o presidente da Souza Cruz, Dante Letti. A empresa investe na pesquisa de um cigarro menos prejudicial à saúde, que a companhia chama de safer. "Quem sabe poderemos ter algo nesse sentido no mercado nos próximos anos."

Exportações

Se hoje o Brasil tem um mercado interno fortalecido, o primeiro impulso veio das vendas externas. "As exportações começaram o ciclo virtuoso, com a forte demanda da China por matéria-prima a partir de 2003", afirma Exel. Uma das maiores beneficiadas com esse movimento foi a mineradora Vale. Roger Agnelli, presidente da empresa, diz que a Vale foi beneficiada assim como todas as empresas de recursos naturais, "sendo a que mais se despontou nesse processo, a que mais cresceu no mundo da mineração nos últimos dez anos."

Acreditando na continuidade da forte demanda e, como consequência, na força para novas altas no preço do minério de ferro, Agnelli afirma que a Vale vai manter na próxima década o ritmo acelerado de investimentos. "A Vale tem sido por anos seguidos a empresa que mais investe em mineração. Este ano, por exemplo, o maior investimento da história do setor é a Vale que está fazendo", diz.

Crédito

Com a melhora na balança comercial e a maior entrada de dólar no Brasil, culminando na formação de reservas, a política monetária do governo pode ser menos recessiva que na década anterior, quando a taxa básica de juros, Selic, sempre se manteve acima de dois dígitos. O País saiu de uma taxa básica de juros média anual, em 1999, de 26,79% para 9,81% no ano passado. A redução da taxa de juros possibilitou o fortalecimento do mercado de crédito, que saiu do patamar abaixo de 30% do PIB e hoje está na casa de 45% do PIB, permitindo o crescimento dos bancos brasileiros.

Tanto que o desafio do Itaú Unibanco para os próximos anos é ganhar espaço no mercado de crédito. "Esperamos ampliar significativamente o saldo de nossas operações de crédito, tanto junto à pessoa física quanto à pessoa jurídica", afirma o presidente da instituição, Roberto Setubal. Segundo ele, o crescimento da classe C abriu boas oportunidades nesse mercado.

O crescimento da economia está sendo acompanhado de perto também pelo Bradesco. Enquanto na última década a meta do banco era a segmentação atingindo as classes de maior renda, a prioridade durante os próximos dez anos é ter escala. "Se já temos 20% dos mercados onde atuamos, e se esses mercados estão em fase de acelerada expansão, é nossa obrigação não só trabalhar para manter essa margem, como também conquistar novas fatias", afirma o presidente do banco, Luiz Carlos Trabuco Cappi.

Com a economia estabilizada e em crescimento, a tendência é que o mercado de capitais brasileiro entre em uma nova fase, com menos oscilações e ganhos mais consistentes. Tende a se tornar uma alternativa de poupança de longo prazo.

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