Compartilhando ideias para poupar dinheiro

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Cada vez mais empreendedores recorrerem às mentes alheias - e não apenas suas carteiras - para testar novos produtos, estabelecer preços e trazer ideias para o mercado

Constance Gustke, The New York Times

20 de maio de 2016 | 15h12

Algumas das melhores ideias de negócio são inspiradas pelos outros, ou pelo menos é isso que dizem as multidões. Isso está levando cada vez mais empreendedores a recorrerem às mentes alheias - e não apenas suas carteiras - para testar novos produtos, estabelecer preços e trazer ideias mais rapidamente ao mercado.

Lee Mayer descobriu os benefícios do crowdsourcing depois de se mudar de Nova York para Denver e passar três meses procurando por um designer de interiores que trabalhasse com seu orçamento apertado. Então, ela conheceu um decorador que estava fazendo poucos negócios. E assim nasceu um site de design de interiores chamado Havenly, oferecendo projetos de decoração acessíveis para todo mundo.

Mas antes que Lee tomasse as medidas necessárias para criar a empresa, ela quis saber qual era a opinião popular e enviou milhares de formulários de pesquisa para responder uma questão fundamental: as pessoas pagariam por esse serviço de decoração? Antes de sair do emprego como estrategista de negócios e gastar milhares de dólares em uma nova empresa, ela queria sinais de que o empreendimento poderia dar certo.

"Você precisa garantir que outros acreditam no mesmo que você. Isso torna a coisa menos arriscada", afirmou Lee, que fez um MBA na Universidade de Harvard e trabalhou como consultora.

Lee, que atualmente é executiva-chefe da Havenly, busca respostas junto ao público, incluindo testes de preços, produtos e design do site. (O designer de interiores que tinha poucos clientes agora é o diretor de design da empresa). Desenvolvimento custa caro, pensou Lee, que até aprendeu programação para começar o site, por isso é importante fazer escolhas que são corretas e possíveis.

"O crowdsourcing é veloz, barato e descomplicado, especialmente quando é necessário reagir rapidamente."

Enquanto sites de crowdfunding bem estabelecidos como o Kickstarter e o Indiegogo recorrem às contas bancárias do público, o crowdsourcing recorre aos cérebros. Os especialistas afirmam que consultar as massas pode ajudar na obtenção de respostas mais claras do que com outros métodos.

"O Crowdsourcing substituiu os velhos grupos focais. É mais rápido e muito mais barato. A inovação caminha a passos tão largos que agora também precisamos de respostas mais velozes", afirmou Chris Hicken, presidente da UserTesting, uma empresa com sede em Mountain View, Califórnia, especializada no desenvolvimento de ideias para empresas virtuais com a ajuda das massas.

A UserTesting, por exemplo, ajudou a Speek, um serviço de teleconferência, a ajustar o design do site para torná-lo mais compreensível. Como resultado, o número de registros aumentou 60 por cento, de acordo com a Speek.

Para ter ideias de como construir o site da Havenly, Lee também utilizou os serviços da UserTesting, que oferece o acesso a mais de um milhão de usuários. Com base no feedback, uma das coisas que ela acrescentou foi uma calculadora de orçamentos.

Esses empreendedores encontraram um novo nicho. As pesquisas mostram que as melhores ideias vêm de fora da empresa, de acordo com Elizabeth Gerber, professora associada de design na Universidade Northwestern.

"Os funcionários não questionam tanto. Todas as decisões são importantes em um mundo em que quem não inova, morre".

Recorrer ao poderio mental de consultores externos e grupos focais pode ser caro e vagaroso. Porém, o crowdsourcing dá às empresas uma caixa de ferramentas maior. As empresas são capazes de testar novos produtos e de fidelizar clientes, afirmou Gerber.

A velocidade é um ingrediente crucial para o sucesso nos dias de hoje, de acordo com os pesquisadores. Receber informações antecipadas dos consumidores pode ajudar as empresas a mudarem de rumo mais rapidamente e de forma mais econômica com produtos que estão destinados ao fracasso, de acordo com uma pesquisa realizada pelo Boston Consulting Group no ano passado.

"É mais difícil ficar na crista da onda hoje em dia. Empresas pequenas sem departamentos de pesquisa e desenvolvimento agora podem contar com as multidões", afirmou Rob Hoehn, executivo-chefe da IdeaScale.

Sua empresa, com sede em Berkeley, Califórnia, oferece um software que ajuda as empresas a realizar campanhas de crowdsourcing. A empresa, criada na garagem de um de seus fundadores, já tem sete anos e 25 funcionários.

A IdeaScale, cuja lista de clientes inclui empresas como a Xerox e a Ikea, criou campanhas até mesmo para a Casa Branca, gerando ideias que poupam recursos, como uma biblioteca de ferramentas de alta tecnologia para a NASA.

Lee, que afirma ser uma verdadeira nerd dos dados, recorreu ao crowdsourcing inúmeras vezes nos dois últimos anos. Um dos principais diferenciais virtuais da Havenly é uma pesquisa de estilo, utilizando dados gerados pelo público, que é submetido a um questionário rápido e divertido para definir seus gostos. A Havenly também estabeleceu os preços dos produtos com a ajuda do público. O valor de US$79 pareceu ideal para o "mini-design" de um cômodo, com base em pesquisas feitas com usuários e não usuários do site.

Na hora de consultar a multidão, as perguntas não podem ser muito amplas. Focar as escolhas entre diferentes opções é crucial. É preciso usar a intuição para determinar que tipo de pergunta fazer, de acordo com Lee, e o máximo de pessoas deve responder.

Hicken sugere que 500 pessoas respondam aos questionários. "Essa é a amostragem ideal. Se 75 por cento disser sim para um produto, você pode ter certeza que as pessoas querem aquilo."

Outras empresas já utilizaram a análise de dados para chegar a conclusões a partir de um grande conjunto de informações. Orit Hashay, fundadora da Brayola, que vende sutiãs, afirmou que analisou o feedback de milhões de mulheres.

Esses dados de usuários ajudaram a criar um algoritmo que permite que as consumidoras escolham sutiãs que vestem melhor e também são estilosos. Um formulário on-line ajuda as usuárias a encontrarem os sutiãs comprados por pessoas com preferências similares, diminuindo a necessidade de trocas, afirmou Orit.

"Comprar sutiãs pela internet é parecido com comprar sapatos", afirmou Orit, cuja empresa registrou um faturamento de US$6 milhões no ano passado e planeja triplicar o resultado este ano. Agora as clientes falam sobre seus sutiãs no Instagram e no Pinterest, afirmou, o que ajuda o mercado a se expandir por meio das mídias sociais. Na página da empresa no Facebook, que conta com mais de 360 mil curtidas, as mulheres falam sobre suas preferências em termos de cores e marcas.

Porém, o crowdsourcing também tem seus riscos. Por exemplo, segredos comerciais podem ser revelados por acidente, de acordo com Elizabeth Gerber, da Northwestern. Para se proteger contra isso, os empreendedores podem fazer poucas perguntas de cada vez, para evitar revelar sua estratégia completa.

Outro benefício para as empresas é que o público geralmente não é pago para responder às perguntas, o que ajuda a poupar custos com pesquisas de mercado.

Entretanto, as pessoas do público podem "se gabar. O ganho é em reputação".

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