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Compasso de espera

Na mesa, alianças e vices. Mas persistem dúvidas sobre os rumos da economia

Cida Damasco, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2018 | 05h00

Pode ser que, em cima da hora, esse enorme exército de indecisos captado pelas pesquisas eleitorais acabe comparecendo aos locais de votação e escolhendo um candidato. Pode ser que consumidores e empresários, no momento de partir para uma compra ou para um investimento, também acabem superando a hesitação e resolvam assumir riscos. Mas é inegável que, nos dois universos, a tendência das pessoas, no momento, é adiar decisões. O quadro político e econômico induz o cidadão, esteja ele no papel de eleitor, consumidor ou empresário, a simplesmente esperar.

Segundo as pesquisas eleitorais mais recentes, cerca de um terço dos eleitores se diz sem candidato, ameaçando reproduzir mais ou menos o que aconteceu nas eleições suplementares para o governo do Tocantins, no mês passado, em que abstenções, votos nulos e em branco somaram mais de 50% dos números totais do Estado. No front econômico, sondagens sobre o astral de empresários, executivos e consumidores, relativas ao período junho/julho, também indicam incertezas e uma certa paralisia -- com base em indicadores elaborados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Confiança empresarial baixa, tanto na indústria como no comércio, intenção de investimentos idem, incerteza de economia alta, sob efeito da desordem provocada pela parada dos caminhoneiros e principalmente do confuso cenário eleitoral. Em resumo tudo convergindo para deixar empresas e cidadãos em compasso de espera.

Se no curto prazo essa atitude é compreensível, torna-se perigosa quando persiste por mais tempo. E é exatamente o que se teme, nesse momento. O que os cidadãos aguardam, tanto para definir seus votos como para pôr em marcha seus projetos, é que o cenário político fique mais claro. Aliás, não sem tempo, já que estamos a apenas dois meses das eleições e os partidos ainda movem suas peças no tabuleiro eleitoral. E, quando se fala em cenário claro, não se trata apenas da montagem de alianças/chapas, de escolha de vices, mas da indicação dos caminhos a seguir, depois da vitória.

É verdade que, na semana passada, alguns candidatos começaram a dar as pistas dos seus programas eleitorais -- entre eles, o PT, que contraditoriamente evita dar pistas sobre quem será o ungido, caso Lula se confirmado como inelegível. Mesmo assim, permanecem sem resposta ou com respostas insatisfatórias algumas perguntas fundamentais para quem está traçando planos pessoais ou empresariais para um futuro próximo. Vamos a quatro perguntas básicas que deveriam ser respondidas imediatamente pelos candidatos, à moda daquelas enquetes rapidinhas que povoam a internet -- exemplares para indicar para que lado pende a balança.

A primeira diz respeito ao problema central da população hoje, ou seja, o desemprego. Objetivamente, haverá um plano específico para recuperar o emprego a curto prazo ou tudo vai depender do fôlego da retomada, e esta dos ajustes na área fiscal? A segunda grande dúvida está no circuito da inflação. Os candidatos pretendem adotar medidas para "domar" reajustes de preços de alguns itens que pesam principalmente nos orçamentos da classe média, como combustíveis, energia elétrica e planos de saúde? Em terceiro lugar, vem a pergunta que não quer calar sobre juros -- sempre eles. Como os pretendentes ao Planalto deverão atuar para estimular a baixa dos spreads bancários e, em consequência, derrubar os juros na ponta, ou seja, nos negócios do dia a dia? Uma quarta e última pergunta, de interesse direto de empresários e executivos, que remete à permanência dos investimentos no fundo do poço. Haverá medidas próprias para esse resgate e qual o papel reservado ao BNDES?

Em todos esses quatro casos – e em muitos outros – a opção parece ser entre "deixar que o mercado funcione", mesmo que leve algum tempo até que os resultados apareçam, ou dar "uma mãozinha" para apressar o processo. A tentação de cair no intervencionismo, com todos os malefícios já conhecidos, é grande, Afinal, esperar que o encaminhamento das grandes questões de longo prazo se encarregue de desatar os nós de curto prazo exige doses extras de paciência para enfrentar a soma das emergências que estão por aí. Haja sangue frio.

* CIDA DAMASCO É JORNALISTA

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