Competitividade e educação

Segundo o Relatório de Competitividade Global 2009-2010, publicado pelo World Economic Forum, o Brasil melhorou em relação ao ano passado - subiu da 64ª para a 56ª posição, num total de 133 países estudados. A notícia é animadora. Mas é uma daquelas histórias do copo meio cheio ou meio vazio.

José Pastore, O Estadao de S.Paulo

15 de setembro de 2009 | 00h00

Olhando da perspectiva do que falta ao Brasil para chegar ao nível da China (29ª posição), do Chile (30ª), da República Checa (31ª), da Tailândia (36ª), da África do Sul (45ª) ou da Índia (49ª), há que se examinar os indicadores que compõem o índice de competitividade.

No caso do Brasil, o obstáculo que salta aos olhos é a precária qualidade da educação fundamental - dentre os 133 países, ocupamos a 119ª posição. Na avaliação do ensino de matemática e ciências, descemos ainda mais, ocupando a 123ª posição. Não é à toa. Os dados revelados pelo Ministério da Educação (MEC) na última semana são desanimadores. Dentre 2 mil cursos de pedagogia avaliados, 588 (29%) foram considerados ruins, tendo obtido notas 1 e 2 numa escala que varia entre 0 a 5. É uma calamidade.

O pior é que esse número vem crescendo, inclusive entre as escolas que fazem parte de universidades. Nesse meio, o aumento das escolas ruins cresceu 65% entre 2007 e 2008. Andamos para trás.

As pesquisas mais recentes indicam que a principal causa da precária situação do ensino fundamental se liga à má qualidade dos professores, coordenadores e diretores das escolas, cuja grande maioria se forma nos cursos de pedagogia.

Entre 2002 e 2007 esses cursos proliferaram. O crescimento foi de 85%, tendo passado de 1.237 para 2.295. Que bom seria se a qualidade tivesse acompanhado a quantidade.

Segundo os dados do MEC, cerca de 30% dos professores, coordenadores e diretores do ensino fundamental se formam em cursos ruins, o que não quer dizer que 70% se formam em cursos ótimos. A qualidade da grande maioria dos cursos de pedagogia classificados em torno da média é também bastante precária. Só 9 cursos, dentre os 2 mil avaliados, obtiveram a nota máxima (5).

Um outro fator que pesa muito na competitividade do País é a capacidade de inovação da sociedade. Mas como inovar em ciência e tecnologia, se uma expressiva parcela das nossas crianças é "educada" por professores que passaram por escolas ruins? No nível universitário, o volume de pesquisas vem aumentando, mas o número das que chegam ao patenteamento e que afetam a competitividade é ainda irrisório.

Para o professor Eric Hanushek (Stanford University), que realiza estudos comparativos sobre a qualidade da educação, as chances de o Brasil crescer em ritmo chinês e se tornar mais competitivo são mínimas. Em outras palavras, a educação só é crucial quando é de boa qualidade.

A qualidade nunca foi tão relevante para o desenvolvimento como nos dias atuais. As novas tecnologias exigem mais destreza e, sobretudo, bons conhecimentos sobre a profissão e as profissões vizinhas, pois o mais frequente é o trabalho em grupo.

Numa comparação entre os países nos quais a população tem apenas o curso primário, o Brasil sai muito mal na foto. A Dinamarca, a Eslováquia e a Estônia têm apenas 1% das pessoas nessas condições; Hungria e Polônia, 2%; Rússia e Alemanha, 3%; Japão, Canadá e Estados Unidos, 5%; Brasil, 57%! E quando se inclui a dimensão da qualidade da educação, o problema assume proporções assustadoras.

Por isso, apesar de o índice de competitividade ter melhorado, precisamos ficar atentos ao que o está impedindo de melhorar mais e de chegar mais perto dos concorrentes do Brasil.

Além da educação, é claro, conspiram contra a competitividade a elevada carga tributária, a precária infraestrutura e a rigidez das nossas instituições. Em pesquisa realizada pelo Banco Mundial em 183 países, o Brasil está na 129ª posição - também na rabeira - e por causa, fundamentalmente, da ausência das reformas tributária, previdenciária, administrativa e trabalhista (Doing Business 2009, Washington: The World Bank, 2009).

São dados como esses que me levam a focar primordialmente a parte do copo que está vazia. Este governo não podia ter abandonado as reformas. O presente já está mostrando os prejuízos da inação. O futuro revelará as verdadeiras cores.

*José Pastore é professor de relações do trabalho da Universidade de São Paulo

Site: www.josepastore.com.br

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.