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Complexidade

Alguns observadores da economia vêm repetindo que esta é a maior crise da economia brasileira em todos os tempos.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2015 | 05h00

É uma afirmação que pode prestar-se a objetivos de todo tipo. Quando, por exemplo, alguém do governo insiste nessa tese, em geral quer justificar as falhas e omissões da política econômica. Outros economistas pretendem com isso desculpar-se pelos erros de previsão sobre o comportamento da economia. E outros ainda querem com isso dizer, como os médicos diante do avanço da doença, que não há o que fazer senão rezar.

Como não existe crisômetro, independentemente da finalidade a que se propõe sua qualificação, é discutível a afirmação em si de que esta é a maior crise da história do Brasil. Em certo grau, as crises não são comparáveis. Já ficou dito algumas vezes nesta Coluna que uma das diferenças, para melhor, em relação às crises da década de 80 é a de que não temos agora uma corrida ao dólar nem a ameaça ao esgotamento das reservas. Hoje não há nem crise cambial, nem a intervenção e a patrulha explícita do Fundo Monetário Internacional (FMI) conduzida pela economista Teresa Ter-Minassian, nem o sufoco diário das negociações da dívida externa com os credores em Nova York.

Por esse lado, esta crise é bem mais mansa do que a que existia nos anos 80. Mas o que nisso ganha em mansidão, esta crise também aumenta em complexidade, porque nunca se viu tanta mistura de âmbitos que, em geral, não se misturam.

Já houve no passado encalacradas políticas mais graves do que esta. Tivemos presidente da República que enfrentou pressões insuportáveis com suicídio (Getúlio Vargas), outro que foi deposto (João Goulart) e outro, ainda, que foi submetido a processo de impeachment seguido de renúncia (Fernando Collor). Todos esses casos tiveram sua contrapartida de crise econômica, mas nenhum deles, as complicações de hoje.

Outro foco de crise e de desestabilização está localizado no Judiciário, mas desta vez para melhor. Nunca o País enfrentou processos de corrupção tão extensos como os da Operação Lava Jato e seus desdobramentos. Estão presos o maior empreiteiro do País, o maior banqueiro de investimentos (em prisão domiciliar), o líder do governo no Senado, ex-tesoureiros do principal partido do governo, ex-ministros de Estado, ex-diretores da maior estatal do País... a lista é enorme.

Juntando tudo isso: queda inédita do PIB, inflação de dois dígitos, o tombo do investimento, a desidratação da indústria, esse rombo fiscal que, com pedalada e tudo, supera os R$ 100 bilhões, uma dívida interna que ameaça saltar para o nível de 80% no ano, um País prostrado na falta de confiança e o atual pandemônio no governo - essa é de fato uma crise de alta complexidade.

Mas este não é um nó górdio que um guerreiro poderia desfazer com um só golpe de espada. Esta crise multicomplexa apenas será resolvida nó por nó, cada um em seu próprio âmbito. E, por isso, deixa tanta coisa imprevisível.

CONFIRA

Terra arrasada

O governo Kirchner deixou um cenário de terra arrasada para o governo do seu sucessor, Mauricio Macri. As primeiras notícias foram de sumiço de coisas e de documentos da Casa Rosada, a sede do executivo, e dos ministérios. O que se pode dizer é que não há nem levantamento do material desaparecido, pela inexistência de listas sobre o que antes havia.

Por onde recomeçar?

Na área das relações internacionais, os antigos ocupantes de cargos-chave, quase todos fora da carreira diplomática nomeados por critérios políticos, destruíram ou levaram tudo embora. Os novos têm de recompor até mesmo a agenda de contatos e de eventos já programados. A saída é buscar ajuda nas embaixadas e instituições de países vizinhos. 

Confusão de interesses 

A atitude dos administradores do governo Kirchner mostra enorme confusão. Não faziam distinção entre interesses de governo e interesses de Estado. Esse tipo de calamidade não aconteceria no Brasil.

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