Toru Hanai/Reuters
Toru Hanai/Reuters

Complexo de expropriação

Por toda parte, ganha força a queixa de que o emprego nos países avançados está sumindo, sendo tomado por chineses, coreanos, indianos, tailandeses e, até mesmo, brasileiros, que aceitam receber menos

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2016 | 21h00

O jornal inglês The Guardian explicou nesse domingo a decisão da Inglaterra de abandonar a União Europeia como “rejeição da globalização”.

Aceitos tais termos, esse não é fenômeno exclusivamente inglês. Se é mesmo reação impulsiva contra a globalização, é o que ainda está para se ver. O fato é que se espraia pelo mundo, entre as classes médias, a percepção de que estão sendo expropriadas “pelo sistema” ou pelos estrangeiros. Ou, simplesmente, acham que estão tirando delas muito mais do que estão entregando.

O argumento central dos catalães, que fundamenta o movimento pela sua independência da Espanha, tamborila o mesmo pandeiro: o de que o governo central devolve apenas fração do que contribuem. E o mesmo pode-se dizer do pleito separatista dos escoceses em relação à Grã-Bretanha.

Por toda parte, ganha força a queixa de que o emprego nos países avançados está sumindo, de que está sendo tomado por chineses, coreanos, indianos, tailandeses e, até mesmo, brasileiros, que aceitam receber menos. 

É a percepção que se avoluma, não só porque cada vez mais produtos de consumo provêm do exterior: camisetas, calçados, aparelhos eletrônicos, remédios e até veículos de luxo. Mas também porque o próprio mercado interno de trabalho está sendo tomado por imigrantes do Oriente Médio, da América Latina e, principalmente, do Leste Europeu. Daí também a rejeição à entrada de refugiados e o crescimento dos movimentos da direita nacionalista xenófoba.

No rastro do envelhecimento da população global, os segmentos mais idosos, coincidentemente os que, na Inglaterra, também mais apoiaram o Brexit, cresce outro foco de insegurança: o de que as aposentadorias correm grave risco. Não são apenas os sistemas oficiais de aposentadoria e pensão que estão se debilitando com a redução do emprego e da contribuição das novas gerações. Também os sistemas complementares destinados a reforçar a renda dos mais velhos estão sendo esvaziados. Na maioria dos países avançados, os juros hoje são negativos. Para aplicar dinheiro no banco - coisa nunca antes vista - é preciso entregar mais dinheiro do que se recebe. O rendimento real dos fundos de investimento está em queda. Esta é uma situação que também reflete o esgotamento das políticas monetárias dos grandes bancos centrais, nos seus esforços para tirar suas economias da recessão.

É parte do mesmo fenômeno a exaustão dos esquemas de financiamento dos benefícios proporcionados pelo estado do bem-estar social (welfare state). Os tesouros nacionais já não dão mais conta do pagamento do seguro-desemprego, dos planos universais de saúde pública e de educação. Os partidos de direita alegam que isso acontece em consequência da invasão de estrangeiros.

A decisão tomada pelos ingleses foi impulsiva. Aparentemente, não se deram conta de que a saída lhes custará muito mais do que a permanência na União Europeia. Falta saber se o acontecido servirá de lição, não apenas para os ingleses, mas também para tanta gente pelo mundo que se sente espoliada, seja pelo sistema, seja pelos outros.

CONFIRA:

Esta é a evolução da cotação da libra esterlina em relação ao dólar.

Terrorismo retórico

Ainda será preciso ver em que nível se acomoda a desvalorização da moeda inglesa em razão do Brexit. Além do aumento do custo de vida (pelo encarecimento dos importados), será inevitável a perda de renda e a desvalorização do patrimônio dos ingleses, especialmente o imobiliário. Nenhum desses efeitos deixou de ser denunciado pelos defensores da permanência. Mas, aparentemente, foram tomados como manifestações de terrorismo retórico.

 

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