Comportamento 'light' por trás de discurso duro

Em 1974, pouco antes de morrer, o então presidente Juan Domingo Perón, fundador do Partido Justicialista (Peronista), aconselhou um grupo de discípulos como se estivesse dirigindo um automóvel de forma peculiar: "Dê o pisca-pisca pra esquerda, mas vire o volante pra direita!".

Ariel Palácios, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2014 | 02h01

A irônica recomendação de Perón foi seguida pela presidente Cristina Kirchner, que costuma pronunciar discursos com tom épico em defesa da indústria nacional e da expropriação de empresas de "interesse" da "pátria", além de disparar críticas aos organismos financeiros internacionais e aos bancos de Wall Street. O mesmo tom foi aplicado pelo ministro da Economia, Axel Kicillof, ao criticar os holdouts.

Mas, enquanto o governo tenta agradar o eleitorado, simultaneamente adota medidas aplaudidas pelo mercado, entre as quais a desvalorização da moeda e a redução dos subsídios.

Esse também foi o caso da indenização à espanhola Repsol pela expropriação da petrolífera YPF. O mesmo governo que indicava em 2012 que não pagaria nem um centavo sequer a Madri (já que "pagar seria coisa de tontos", segundo Kicillof), fechou em março uma indenização de US$ 10 bilhões.

Em maio, depois de adiar durante sete anos as negociações, foi a vez de fechar um acordo para pagar a dívida ainda em estado de calote com o Clube de Paris. Graças ao fechamento de um acordo na reta final do governo de Cristina, do total de US$ 9,7 bilhões a pagar, apenas US$ 1,1 bilhão sairá do caixa de seu governo. O restante será uma conta que o próximo governo herdará.

Nos últimos anos, os 'holdouts' foram encarados pela Casa Rosada como um dos principais inimigos externos. O governo afirmava que não negociaria com esses credores que haviam rejeitado as duas reestruturações da dívida pública, feitas em 2005 e 2010. Segundo o analista Federico González, da consultoria Gonzálvez-Valladares, "após exaltadas declarações prévias que sugeriam o contrário, a presidente Cristina afirmou que o país está disposto a pagar suas dívidas. Ora, para que cacarejar tanto se no fim das contas vai pagar?".

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