Jeff Overs/Reuters
Jeff Overs/Reuters

Compra de jornal inglês é investigada

Aquisição de 30% do 'Evening Standard' por família real saudita, suspeita de assassinato de jornalista, está sob análise

The Economist, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2019 | 05h00

O Evening Standard é um jornal de notícias do cotidiano, de moda e sem muito informação séria. Mas uma pesquisa extraoficial dos leitores revelou um descontentamento com o fato de um sultão saudita ter adquirido participação de 30% na empresa, dona da publicação por US$ 31 milhões. Para Jesse Pemberton, artista de Cromwell, jornais representam a liberdade de expressão “de modo que é uma hipocrisia que o Standard seja patrocinado pela Arábia Saudita”, afirmou. “O que realmente me incomoda é que não sabia sobre o novo proprietário”, queixou-se outro passageiro.

Essas opiniões respaldam a decisão tomada em 27 de junho por Jeremy Wright, secretário de Cultura, de abrir investigação sobre a aquisição feita pelo sultão Muhammad Abuljadayel, banqueiro pouco conhecido, que estaria ligado ao governo saudita. O departamento de Jeremy Wright descreveu a compra como possível aquisição de participação “por Estado estrangeiro”.

O Standard não é o único investimento do sultão em um órgão de imprensa. Em 2017, ele adquiriu 30% do Independent Digital News and Media, proprietário do jornal digital Independent, mais sério que o Standard. No ano seguinte, o Independent lançou quatro novos sites em árabe, urdu, farsi e turco, em parceria com o Saudi Research and Marketing Group, empresa de mídia ligada à família real saudita, vista como órgão de poder brando no país.

Naquela ocasião, o príncipe saudita, Muhammad bin Salman, ainda desfrutava da reputação de reformador da economia. Mas o investimento no Standard foi concluído não muito tempo depois do assassinato de Jamal Khashoggi (em outubro), jornalista saudita e colunista do The Washington Post. Acredita-se que seu assassinato foi ordenado pelo príncipe Muhammad. O atual proprietário do Standard e do Independent, Evgeny Lebedev, filho de um oligarca russo e antigo agente da KGB, não revelou a identidade do novo investidor, identificado pelo Financial Times em fevereiro.

Tempestade no deserto

O clima de segredo em torno das duas aquisições levou à investigação pelo Department for Digital, Culture, Media & Sports (DCMS), segundo Des Freedman, professor de Mídia na Goldsmiths, Universidade de Londres. As compras foram concluídas por meio de empresas nas Ilhas Cayman. O departamento considera as transações realizadas entre duas companhias de Abuljadayel nasIilhas Cayman e as duas empresas de mídia britânicas equivalem a uma “condição de fusão relevante”, o que justifica a intervenção. O departamento se queixou de que precisou quatro meses de troca de correspondência com a empresa de Levedev para obter as informações.

Cabe agora ao OFCOM, órgão regulador da mídia, e à Competition and Markets Authority (CMA), examinarem se as aquisições comprometem a apresentação acurada das notícias pelos jornais e refletem a livre expressão de opinião. Importante para isto será a elucidação de algum relacionamento entre Abuljadayel e o Estado saudita.

Vários órgãos e pessoas da mídia britânica entraram na discussão defendendo os argumentos das duas empresas e afirmando que os jornais necessitam de qualquer dinheiro que consigam obter. Segundo as empresas de mídia, os investimentos sauditas oferecem “uma fonte de recursos vital e necessária” para manter vivo o Standard, que só tem registrado prejuízos, um jornal editado por George Osborne, que já foi ministro das Finanças.

O dinheiro permitirá também ao Independent investir na sua equipe editorial. Levedev, que teria injetado mais de 100 milhões de libras (cerca de US$ 125 milhões), nos dois órgãos de mídia britânicos poderá não estar em posição de continuar a investir tão generosamente no futuro, admitem observadores de mídia.

Quanto às investigações da OFCOM e da CMA, que serão reportados em agosto, a ESI Media, empresa que detém os dois jornais, informou que “a apresentação acurada das notícias e a liberdade de expressão estão na essência dos nossos veículos de mídia e continuaremos a defender vigorosamente nossa integridade editorial quando cooperarmos nesse processo”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

© 2019 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.