Gabriela Biló/Estadão
Walter Schalka: economia só terá retomada com vacinação. Gabriela Biló/Estadão

'Compra de vacinas por empresas é um absurdo', diz presidente da Suzano

Executivo, que faz parte do grupo Unidos pela Vacina, vê 'abuso de poder econômico' nessas iniciativas, que servem para 'privilegiar um grupo de pessoas e aumentar as diferenças'

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2021 | 05h00

Engajado no grupo Unidos pela Vacina, liderado pela empresária Luiza Trajano, do Magazine Luiza, o presidente da gigante de papel e celulose Suzano, Walter Schalka, está trabalhando diretamente no contato com os laboratórios globais para entender a disponibilidade de vacinas para acelerar a imunização contra a covid-19 no Brasil. Em um momento em que empresas tentam se mobilizar para imunizar funcionários, furando a fila de grupos prioritários, ele se coloca diretamente contra esse tipo de estratégia unilateral: “Isso é um absurdo, é utilizar o poder econômico para privilegiar um grupo seleto de pessoas. É uma forma de aumentar diferenças.”

Embora esteja preocupado com a proliferação da doença no Brasil – hoje, o País já passa da média de 3 mil mortes diárias, despertando preocupação mundial –, Schalka afirma que há chance de a vacinação ganhar velocidade, especialmente a partir de meados de maio. Ele vê o ritmo de imunização, que hoje está abaixo de 1 milhão de doses por dia, podendo crescer e se manter acima de 1,5 milhão de vacinações diárias em um período de 30 a 45 dias. À medida que a imunização dos Estados Unidos atinja toda a população adulta, a esperança é que sobrem vacinas para outros países, incluindo o Brasil. 

O executivo acredita que a imunização é a chave para a recuperação econômica do País. Por isso, propõe um esforço de toda a sociedade para trazer vacinas para o Sistema Único de Saúde (SUS), com respeito absoluto aos grupos prioritários. “O Brasil deveria fazer um esforço diplomático”, afirma. “É uma questão urgente do ponto de vista humanitário, sanitário e também biológico, pois o País, por causa do ritmo de proliferação, corre o risco de ser um multiplicador de cepas da covid-19.”

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista: 

Como o sr. vê a questão da  vacinação? Por que ela evolui de forma lenta no Brasil?

Vejo um conjunto de problemas que começou com a falta de vacinas. Na realidade, todo o sistema brasileiro de vacinação contra a covid-19 foi baseado inicialmente apenas na Fiocruz, que fechou o contrato com a AstraZeneca para a vacina de Oxford. E depois disso ficou claro que isso seria insuficiente e se recorreu também ao Butantan, com a Coronavac. Quando mesmo assim ficou claro que iríamos ter problemas de IFA (insumo necessário para a produção de vacinas) e com o envasamento, procuraram-se outras alternativas. Fechou-se o contrato de 100 milhões de vacinas com a Pfizer e depois mais 38 milhões de doses com a Janssen, da Johnson & Johnson, sendo que a maioria vai chegar principalmente no último trimestre. E ainda tem as discussões relativas à Sputnik e à Covax Facility. 

Mas ainda há falta de vacinas.

Sim. Fomos tomando ações para aumentar o número de vacinas compradas – agora, estamos tendo de nos agilizar para garantir a entrega dessas vacinas. A grande questão agora é a quantidade de doses, como é que a gente faz para acelerar a entrega das doses de Fiocruz, Butantan e, eventualmente, da Sputnik.

Qual é o papel do setor privado na agilização da vacinação?

O setor privado deve ajudar na aceleração da vacinação, mas auxiliando na redução dos gargalos para agilizar os processos do sistema de vacinação. O grupo Unidos pela Vacina trabalha em todos esses aspectos, incluindo a questão da comunicação. Uma das questões é gerar demanda pela vacina, fazer com que a população queira tomá-la, porque havia um processo de rejeição ao imunizante que foi diminuindo ao longo do tempo. É preciso ainda endereçar os problemas locais: isso porque a vacina sai do governo federal, vai para os Estados e é aplicada nos municípios. Estamos olhando mais de 5,3 mil municípios para resolver problemas das cidades. Isso porque falta geladeira, em outro caso um ar-condicionado, em outro o problema é a internet, o computador ou até a falta de sala adequada para aplicação da vacina. 

E qual é a sua função dentro do Unidos pela Vacina?

Eu faço parte do grupo de empresários e executivos que fica em contato tanto com o governo federal quanto com os laboratórios para garantir esse processo de aceleração do ritmo de vacinação. 

Conseguimos chegar a aplicar 1 milhão de doses em um só dia, mas geralmente estamos abaixo desse patamar. Qual é o ritmo ideal?

O ideal seria a gente aplicar 1,5 milhão de doses por dia – e eu acho que é para esse ritmo que temos de caminhar e que provavelmente vamos chegar a ele em maio. A limitação hoje é a escassez de vacinas, além de algumas questões locais, especialmente fora das capitais, que deixam esse ritmo de vacinação mais lento. Mas tanto a Coronavac quanto a AstraZeneca estão em produção contínua – então, não tem nenhum problema você aplicar a primeira dose sem guardar para a segunda dose.

Do que, em sua opinião, depende a recuperação da economia brasileira?

Eu não acho que o Brasil esteja atrasado na questão da vacina, está em um ritmo de vacinação adequado e até à frente de outros países de grande população. Mas o Brasil pode e deve aumentar seu ritmo porque tem condições para isso. Acho que, depois de meados ou do fim de maio, quando os Estados Unidos já tiverem boa parte de sua população vacinada, vamos começar a ter alguma disponibilidade de vacina no mundo. E o Brasil deveria fazer um esforço diplomático para conseguir trazer essas vacinas. É uma questão urgente do ponto de vista humanitário, sanitário e também biológico, pois o País, por causa do ritmo de proliferação, corre o risco de ser multiplicador de cepas da covid-19.

Qual é a sua opinião sobre a realização de lockdowns para conter o vírus?

O combate ao vírus se dá por uma combinação de estratégias. Temos de estimular o distanciamento social – quem pode ficar em casa deveria ficar. Tem uma parte da população sendo negligente, que não respeita o distanciamento e não usa a máscara na rua. E, mesmo com a vacina, essa questão do distanciamento social vai continuar a ser importante. E tem sempre o jeitinho brasileiro, que prejudica a todos. Tem sempre alguém querendo furar a fila. 

Como o sr. avalia o combate à pandemia pelo governo?

Deveríamos organizar a fila de forma única, com todos os secretários de Saúde dos Estados e dos municípios. Obviamente, seria bom ter uma orientação única do governo federal. Isso seria o melhor para toda a sociedade. Mas, neste momento, não temos de buscar culpados ou apontar o dedo, temos de achar a solução para o Brasil, para a gente ter a mitigação da crise e deixar de ser o epicentro global da covid-19. É preciso despolitizar essa situação.

Qual é sua opinião sobre a compra de vacinas por empresas, para imunizar funcionários?

Sou totalmente contra, diretamente contra. Isso é um absurdo, é utilizar o poder econômico para privilegiar um grupo seleto de pessoas. É uma forma de aumentar diferenças. Enquanto não tem vacina para covid-19 no mundo, não tem lógica você pegar o imunizante e aplicar em um grupo que não é prioritário para a sociedade. Temos de aplicar nos grupos prioritários. Como é que eu vou vacinar uma pessoa que tem 25 anos e nenhum problema de saúde e deixar alguém de 65 anos sem vacina? Não faz sentido algum.

Existem vacinas disponíveis para venda a empresas?

Eu já falei com todos os laboratórios, e não existe. Nos outros lugares do mundo, isso não é sequer um tema de discussão. 

Mas haverá vacinas para todos, via sistema público?

Eu tenho falado com todos os laboratórios e estamos buscando vacinas. E todos estão aumentando sua capacidade de produção. O mundo está vacinando entre 35 e 40 milhões de pessoas por dia. Em menos de 12 meses, creio que a totalidade da população global será vacinada. A questão será resolvida, mas precisamos ter resiliência neste momento.

O sr. ainda vê sentido na discussão que fala em priorizar o crescimento da economia, em vez do combate à pandemia?

Se no começo ainda existia essa discussão de saúde versus economia, agora ela não faz sentido. É a vacina que vai fazer a economia andar, que vai acelerar a recuperação. A vacinação é algo positivo para todo mundo, está muito claro que as duas coisas têm de andar em paralelo. Esse falso dilema não agrega nada. A vacinação vai acelerar a recuperação econômica, como já está acontecendo em lugares onde o número de óbitos já começou a cair, como Israel, Reino Unido e EUA. O Brasil está atrás nessa curva, mas vai chegar lá.

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'Não sobra alternativa a não ser lockdown', diz vice-presidente do conselho do Grupo Boticário

Artur Grynbaum acreditava em maior tranquilidade em 2021, mas agora vê ‘ano duro’; ele também aponta a importância da vacinação e diz que recuperação vai depender da transparência do processo de imunização

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2021 | 05h00

Vacina é a solução para a crise sanitária e econômica, diz o sócio e vice-presidente do conselho de administração do Grupo Boticário, Artur Grynbaum. Mas, enquanto a imunização não chega a todos, um lockdown pode ser a única saída, acrescenta. “Como não tivemos um acompanhamento correto e não conseguimos aprender ao longo do ano, não está sobrando outra alternativa neste momento a não ser fazer um lockdown.”

Para o empresário, o lockdown é importante não só por impedir aglomerações, mas também pela mensagem que passa à população sobre a gravidade da pandemia. Ele destaca, porém, que é preciso haver uma fiscalização séria para garantir que a população não se reúna em outros locais que não estabelecimentos comerciais. “Dado que não temos as vacinas (em larga escala), o lockdown pode ser uma saída? Sim, desde que ele seja feito de forma correta pelas pessoas. Não adianta fechar os estabelecimentos, e a população se aglomerar em outros locais para se divertir.”  Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Havia uma perspectiva de que seria mais fácil ter uma retomada neste ano, mas a segunda onda da pandemia deixou muita gente cética. O que vocês estão prevendo?

Vemos um ano bastante duro para o mundo e para o Brasil. Conseguimos fazer bastante coisa em 2020 e esperávamos que 2021 fosse um pouco mais tranquilo, apesar de que a gente tinha e continua tendo a consciência de que a solução só virá quando todo mundo estiver vacinado. Com essa nova frente acelerada do vírus, muda bastante o contexto. Neste momento, estamos com 45% das nossas lojas no Brasil fechadas. A outra parte está operando com alguma restrição. Não tem como dizer que isso não tem impacto. Tem também o impacto nas pessoas. A pessoa tem de estar no humor de comprar, precisa estar com alguma esperança. Então, acho que o ano vai ser bastante difícil e vai depender muito de quanto tempo a gente permanece sem ter uma visão clara do processo de vacinação.

Além da vacinação, o que pode ser feito para melhorar a situação da economia?

Eu diria, em primeiro lugar, vacina; em segundo lugar, vacina; e, em terceiro lugar, vacina. Mas também gostaria de ver as reformas, que precisam andar. Seria uma mostra de que estamos todos em busca de uma mesma direção, de um país que tem estabilidade de regras, preocupação com a questão fiscal e com o desenvolvimento de um ambiente com melhores condições de negócios. Um ambiente principalmente com confiança para que se possa voltar a investir. Participei de um encontro com o Paulo Guedes. Ele disse que via vacina e reformas (como saída para a crise). Concordo com ele. A gente tem de fazer isso não só pelos efeitos das reformas, mas pelo que elas podem representar. É uma questão de alinhamento da mensagem que temos de passar para a sociedade, de quão sério estamos tomando as coisas para ter um bom caminho para o Brasil.

Como vê o ritmo de vacinação e as medidas do governo para lidar com a pandemia até agora?

Faltaram algumas coisas. O mais notório é que faltou uma união dos poderes federal, estaduais e municipais para fazer uma ampla frente, não só de combate, mas também desse processo de vacinação. O que tenho visto em outros países é que, por mais que haja divergências do ponto de vista político, neste momento essas divergências ficam de fora e a união se dá para resolver a questão da pandemia da melhor forma. Tivemos e continuamos tendo uma perda de tempo bastante importante. 

O País demorou a reagir?

Infelizmente, não fomos bem no planejamento, não fizemos a aquisição das vacinas no momento correto. Agora tem uma busca desenfreada para tentar comprá-las e todos temos esperança de que isso aconteça o mais rápido possível. Mas, com isso, tem todo um atropelo. Você vê uma diferença na velocidade de aplicação das vacinas entre os Estados. Tem também confusão porque tem gente dizendo que tem de guardar a segunda dose; outros dizem que não. Falta um alinhamento baseado em um critério único respaldado pela ciência.

Acha que um lockdown é necessário?

O primeiro ponto é que somos a favor da preservação das vidas. Em toda nossa atuação, desde o início da pandemia até agora, o primeiro item que trazemos é saúde e segurança das pessoas que estão conosco, dos nossos parceiros, dos nossos clientes e da sociedade como um todo. Essa é a primeira preocupação. Infelizmente, como não tivemos um acompanhamento correto e não conseguimos aprender ao longo do ano, não está sobrando outra alternativa neste momento a não ser fazer um lockdown. Impedir a circulação de pessoas é algo abrupto, mas funciona muito principalmente pela mensagem que passa. Infelizmente, tem pessoas que não estão nem aí em relação a tudo isso. É alarmante. Você anda por alguns locais e o pessoal não está preocupado com aglomeração. A gente continua vendo festas clandestinas. Isso é um absurdo, um egoísmo muito grande das pessoas, que não olham o papel que têm de desempenhar frente a uma crise desse tamanho. 

Ou seja: é preciso frear isso.

Com muita dor, tenho de olhar para o lockdown e dizer que é a mensagem forte que talvez a população entenda. Por outro lado, sinto muita pena porque várias empresas – e falo do varejo – se prepararam com todos os requisitos referentes ao código de saúde: limpeza, ordenação de fila, número de pessoas. Houve um investimento muito grande. Todos nós estávamos preparados para continuar as atividades com toda a questão da saúde muito bem assegurada. Acho que a alternativa era ter um lockdown com um respeito maior por aqueles que contribuem com os protocolos de saúde e, por outro lado, uma fiscalização mais intensa naqueles que não estão seguindo. Se eu pudesse eleger, poderíamos ter um lockdown e mais aplicação das vacinas. Isso seria o suprassumo, como alguns outros países fizeram. Israel, por exemplo, adotou também o lockdown, vacinou e agora começa o início de uma vida normal. Dado que nós não temos as vacinas, o lockdown pode ser uma saída? Sim, desde que ele seja feito de forma correta pelas pessoas. Não adianta fechar os estabelecimentos, e a população se aglomerar em outros locais, para se divertir. E ninguém está falando de cerceamento de liberdade, mas tem de ter responsabilidade.

O sr. comentou que 45% das lojas do grupo estão fechadas. Como contornar à atividade?

Sempre fomos um grupo muito voltado à inovação, a querer estar sempre na vanguarda das experiências, dos produtos e dos serviços. Então, já trabalhamos há bastante tempo com a ‘omnicalidade’ (estratégia que combina canais de venda offline e online). Por mais que as lojas estejam fechadas, tem o mundo digital, onde temos contato por WhatsApp com diversos consumidores, ofertamos os produtos e atendemos os pedidos. Criamos ‘drive-thrus’, nos quais as pessoas encomendam os produtos nas lojas e passam para recolher. Temos também nossas consultoras de lojas que dão cupons, para que elas possam continuar sendo remuneradas (por vendas online). Ou seja, ampliamos (os canais). Já tínhamos uma evolução bastante importante na digitalização. Com a pandemia, tudo isso foi colocado em prática. Isso deu possibilidade para que as lojas, mesmo fechadas, pudessem continuar atendendo nossos consumidores.

Qual o futuro do varejo depois da pandemia?

Vínhamos numa marcha (de digitalização) e houve uma aceleração grande. Antes, muitas pessoas tinham receio de fazer compras pelo e-commerce. Se perguntavam se era seguro ou se podiam colocar o número do cartão de crédito na internet. Como essas pessoas ficaram sem opção para realizar uma compra, testaram o e-commerce e viram que é um excelente canal. Essa aceleração foi muito grande, mas deve retroceder um pouco depois. As pessoas gostam de ter a oferta dos diversos canais para consumir. Vão continuar fazendo compra pelo e-commerce, mas vão querer também ir à loja ou comprar do catálogo da revendedora. O e-commerce vai ter uma parcela maior do que se imaginava, mas com os outros canais também ainda importantes. A gente sempre precisa colocar o consumidor no centro e ele escolhe a forma como quer ser atendido. Isso vai do humor dele. Às vezes ele não quer conversa. Em outro momento, quer uma explicação bem detalhada do produto. As lojas passarão a ter um papel mais robusto. Antigamente, era basicamente fornecer, fazer a entrega do produto. Hoje, além de fazer isso, têm um papel muito forte em ser a representação oficial da marca. A loja passa a ser um grande ponto de confiança e também um ‘warehouse’ (entreposto), onde é feita a expedição dos produtos para atender o e-commerce. Isso minimiza o custo do frete e o tempo de atendimento.

Quanto tempo deve levar para o varejo voltar ao patamar pré-crise e como o ritmo da vacinação pode alterar isso?

Quando começou a pandemia, em março do ano passado, me perguntaram quando eu achava que íamos começar a sair disso, eu falei que seria na metade de 2021. As pessoas disseram que eu era muito pessimista. Infelizmente, acertei mais do que errei. Agora é muito difícil a gente precisar, vai depender da velocidade que ofereçam as vacinas. No ritmo em que estamos indo, esse processo deve ir até o fim do ano. É difícil prever o impacto, porque, passando por esse período crítico, vamos experimentar a reabertura e vamos ter de encontrar o ponto de equilíbrio. Tudo o que a gente não quer é que esse processo de abre e fecha se perpetue até o fim do ano. Se a gente conseguir fazer alguns movimentos, ter uma conscientização melhor, se as pessoas entenderem de fato o caos e passarem a se cuidar mais, acho que, com regras de funcionamento bastante disciplinadas, será possível que todos fiquem abertos. Será preciso pensar em um escalonamento das aberturas por regiões e como colocar o transporte público de uma maneira que não tenha tanto acúmulo. Vamos ter de ser bastante criativos na busca de soluções para não ficarmos restritos nos próximos meses.

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'Sensação é que falta gestão. Brasil está entre os que sofrem mais com crise', diz Jerome Cadier

Governo precisa ampliar atendimento, criar medidas de isolamento e de ajuda econômica, diz presidente da companhia aérea no Brasil; caso contrário, crescimento do País será postergado, pontua

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2021 | 05h00

Além da crise econômica e sanitária, o setor aéreo pena com o aumento do preço do combustível, com a desvalorização do real e com restrições impostas por outros países que impedem brasileiros de viajar para o exterior. Três medidas podem solucionar todos esses problemas, segundo o presidente da Latam no Brasil, Jerome Cadier: ampliação da capacidade de atendimento aos doentes, distanciamento social e ajuda econômica para empresas e pessoas que perderam renda. Por enquanto, porém, ele vê uma certa desorganização no governo que prejudica a recuperação do País e a do setor. “A sensação é a de que falta gestão. Todo mundo está lidando com a crise. Alguns países estão lidando melhor; outros não. O Brasil está no grupo que claramente sofre mais com a crise”, afirma.

O executivo destaca também que, além de conter a pandemia, o governo e o Congresso precisam, paralelamente, tocar as reformas administrativa e tributária. “Sei que é difícil falar de reformas quando você está no meio de uma pandemia, mas continuamos com uma necessidade tremenda de reformar o Estado. Se postergarmos isso, também vamos postergar o crescimento que o Brasil precisa.” A seguir, os principais trechos da entrevista.

A economia se deteriorou mais do que era esperado neste início de ano. Que impacto você prevê para o setor aéreo e o que precisaria mudar para haver uma recuperação?

Tínhamos um cenário um pouco diferente para 2021. Estávamos mais otimistas na segunda metade de 2020, mas essa segunda onda está mais profunda e nos fazendo repensar a retomada. Acho difícil a gente separar economia de saúde. Vamos conseguir recuperar a economia mais rapidamente quanto mais rápido lidarmos com o problema da saúde. A gente precisa crescer a capacidade de atendimento de doentes, construir medidas de distanciamento social para reduzir a pressão sobre o sistema de saúde e de ajuda na retomada da economia. Para mim, são essas três coisas. Alguma coisa a gente viu nos últimos 12 meses nessas frentes. Sempre podemos achar que poderia ser melhor ou pior, mas de alguma forma avançamos. 

Onde avançamos?

No ano passado, construíram capacidade de atendimento, hospital de campanha. Mas não vimos tanta coisa em 2021. Os hospitais de campanha foram desmobilizados e, de alguma forma, aquilo se perdeu um pouco. Em relação às medidas de distanciamento, vou pegar o exemplo das companhias aéreas. A Latam foi a primeira no Brasil a anunciar que só transportaria passageiros com máscara. E sobre a ajuda econômica para a retomada, também falando do nosso setor, o Ministério da Infraestrutura trabalhou nas medidas emergenciais que foram absolutamente necessárias: espaço de estacionamento (para aviões) nos aeroportos, postergação de recolhimento de taxas aeroportuárias, que são pesadas, e postergação da devolução (do dinheiro de passagens) para clientes. Então, houve um trabalho para preservar o setor durante a fase mais aguda da crise.

É preciso um lockdown?

Pode chegar a um extremo de lockdown, mas falhamos em coisas mais básicas. O uso de máscara, por exemplo. Até pouco tempo atrás, muitos do governo não eram vistos com máscara em ambientes públicos. Havia eventos juntando muita gente, o que é preciso evitar. A mensagem não foi consistente. Nas últimas duas semanas, vi mais gente do governo com máscara do que vi nos últimos 12 meses. Tem de ser assim. Tinha de ser assim desde o começo. Então, pode chegar ao extremo de ter de fazer restrição ao movimento, fechar o comércio, dependendo da capacidade de atendimento dos hospitais, mas tem mais coisa a fazer, tanto na capacidade de atendimento quanto nas medidas de distanciamento, na clareza da comunicação, na transparência. Na rua, metade das pessoas que vejo não está de máscara. Esse tipo de mensagem (para usar máscara) tinha de ter sido repetida desde o começo para as pessoas entenderem que é necessário. Eventualmente, você não chegaria à situação de que precisa fechar a cidade. Sobre a ajuda na economia, acho que a ajuda emergencial foi fundamental. Está sendo reeditada agora e é necessária. Temos uma quantidade enorme de gente sem renda que precisa da ajuda do Estado. E, eventualmente, as empresas talvez precisem de medidas que ajudem o capital de giro delas. Não estou falando das aéreas, mas talvez hotéis, restaurantes, negócios pequenos e médios. Esses estão sem acesso a crédito.

O governo está na velocidade adequada nessa frente?

É difícil generalizar. Vou pegar o exemplo das aéreas. Vi o Ministério da Infraestrutura ligado nos 220 e absolutamente consciente de quão profunda era a crise desde o primeiro dia. Já do lado (do Ministério) da Economia, a gente, durante meses, discutiu uma eventual ajuda de crédito que não se materializou. Então, quando você fala do governo, no caso das aéreas, teve uma velocidade muito mais adequada no Ministério da Infraestrutura e talvez um desejo de que a gente tivesse avançado mais rápido com o Ministério da Economia. Mas também acho que não dá para a gente ficar só na emergência. A gente tem uma crise brutal que precisa ser enfrentada com a liderança do governo. Há uma necessidade de reformas estruturais, que não deveriam ser adiadas. Sei que é difícil falar de reforma administrativa e tributária quando você está no meio de uma pandemia, mas continuamos com uma necessidade tremenda de reformar o Estado. As reformas são fundamentais para a recuperação econômica quando todo mundo estiver vacinado. Se postergarmos isso, também vamos postergar o crescimento que o Brasil precisa.

O desempenho da economia e do setor aéreo em 2020 foram ruins. Podemos ter algo semelhante neste ano?

É muito difícil a gente comparar os dois anos. No ano passado, até quase o fim de março, o setor estava em uma tendência bastante positiva. Depois teve uma freada gigante em abril, maio e junho e uma retomada gradual no segundo semestre. Este ano, a gente vinha na retomada, mas o freio já veio em janeiro. Fevereiro e março foram muito ruins, com vendas 80% abaixo do que eram antes da pandemia. Talvez o freio dure mais do que no ano passado e a reaceleração seja mais lenta, mas, quando ela realmente vier, deve ser mais forte. Em mercados em que a vacinação avançou mais rapidamente, nos Estados Unidos, por exemplo, você já vê um desejo bastante grande para programar viagens para junho, julho e agosto. As vendas no último (penúltimo) fim de semana nos EUA foram as melhores desde o começo da pandemia. Então, você tem uma aceleração rápida a partir do momento em que um volume maior de pessoas estão vacinadas. Aqui, acho que a gente partiu tarde na obtenção da vacina. Deixamos muito tempo passar no início da pandemia e, agora, estamos tentando correr atrás. O problema é que perdemos o momento inicial das negociações. As empresas farmacêuticas já assumiram compromissos de volume (com outros países). É difícil neste momento compensar um atraso inicial. Por outro lado, uma vez tendo a vacina, o Brasil é extremamente eficaz para aplicá-la. Então, a partir do momento em que tivermos realmente a vacina, nossa curva de imunização pode ser mais rápida. 

Outros fatores não estão ajudando o setor, como o real. Parte dos economistas credita a desvalorização da moeda a uma crise de credibilidade no governo. Qual o impacto da desvalorização no setor e como aliviar essa pressão?

60% dos gastos de uma aérea são dolarizados. Então, o aumento do dólar nos torna menos competitivos. O combustível, que também vem subindo acima das previsões que tínhamos, é outro complicador. Além disso, o Brasil está ficando mais isolado dos outros países no tráfego internacional de passageiros. As restrições para brasileiros hoje são maiores do que praticamente para qualquer outro país devido ao descontrole da pandemia. Hoje, ninguém quer receber brasileiro. Esses três fatores são ruins neste momento e fazem com que a recuperação seja mais difícil. A solução para isso também é maior capacidade de atendimento, distanciamento social e ajuda econômica. Mas a sensação é a de que falta gestão. Todo mundo está lidando com a crise. Alguns países estão lidando melhor; outros não. O Brasil está no grupo que claramente sofre mais com a crise. Assim como uma empresa, um governo lida com a realidade e com a percepção. E, hoje, o País está sofrendo pelos dois. A gente sofre pela realidade, porque os números (de casos e mortes) estão muito ruins, mas a gente também sofre com a percepção de que existe uma politização do tema da saúde e um desalinhamento entre municípios, Estados e federação.

A crise da Petrobrás foi um dos fatores que desencadearam essa crise de confiança. Como está interferindo nos negócios?

Não ajuda. Quando você tem o que aconteceu na Petrobrás, embora isso já tenha acontecido em outros momentos, a forma como foi comunicada (a demissão do presidente Roberto Castello Branco) não ajuda. Isso não colabora para termos um dólar mais baixo. Agora, talvez estejamos sentindo o momento mais agudo do dólar. Se o Brasil conseguir acelerar a vacinação e passar uma mensagem mais alinhada entre os três Poderes, entre governos municipais, estaduais e federal, o nível de agressividade com que o mercado internacional está olhando para a gente pode diminuir. 

A nova onda da pandemia muda a expectativa de recuperação do setor?

Provavelmente em 2023 estaremos transportando o mesmo nível de passageiros de 2019, mas o faturamento vai demorar mais. O passageiro corporativo, que paga mais pelo voo, vai demorar para voltar. Estamos usando uma tecnologia que antes era menos utilizada e que vai substituir parte das viagens a trabalho. As empresas vão buscar reduzir seus custos, e é óbvio que uma reunião pela internet é mais barata do que uma viagem. Isso deve fazer com que o faturamento demore para voltar. Se será em 2024, 2025 ou 2026, é difícil precisar.

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Frederico Trajano: 'Só o que funciona são isolamento social e vacina, por mais que se proteste'

Para o presidente do Magazine Luiza, sem o controle da pandemia, é impossível recuperar a economia; apesar das dificuldades, ele também aponta bolsões de oportunidades a serem explorados, como a digitalização do varejo e de outros setores

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2021 | 05h00

Frederico Trajano, presidente do Magazine Luiza, uma das principais redes de varejo do País e que conseguiu se destacar em meio à crise sanitária por conta das vendas online, diz que o Brasil não decola por incompetência no controle da pandemia. Ele não vê uma saída para a retomada consistente da atividade sem uma vacinação em massa. “O erro na questão sanitária foi grave”, afirma o executivo, que considera o Brasil um dos piores no combate ao novo coronavírus. Não fosse a pandemia, Trajano acredita que 2020 e 2021 seriam espetaculares para a economia, em razão dos juros baixos e de várias mudanças feitas nos últimos quatro anos em pilares importantes, como a Previdência, a questão trabalhista e o teto de gastos, por exemplo.

Apesar das dificuldades do momento e da falta de horizonte para a saída da crise, o empresário prefere enxergar o copo como “meio cheio” e ressalta que existem bolsões de oportunidades a serem exploradas na economia, como a digitalização do varejo e de outros setores, tendência que, na sua opinião, deve continuar no pós-pandemia. A conversa com Trajano abre a série de entrevistas com presidentes de grandes empresas que vão tentar apontar caminhos para o Brasil retomar o crescimento econômico.

O que precisa ser feito para que a economia brasileira volte a crescer?

Hoje o Brasil não decola por uma incompetência no controle da pandemia. O País não é o único com dificuldade de controlar a crise sanitária, mas, na minha opinião, está sendo um dos piores. A gente se planejou muito mal para a vacina, o nosso sistema de saúde está sobrecarregado. Poderíamos estar numa posição muito melhor. O erro na questão sanitária foi grave. Sem o controle da pandemia é impossível recuperar a economia. Também houve casos, como a troca do presidente da Petrobrás, que minaram a confiança dos investidores. No mercado financeiro, seja no mercado de capitais, seja no mercado mais abrangente, transmitir confiança numa agenda é superimportante. Acredito que nós teríamos todas as condições, no ano passado e neste ano, para estarmos numa situação econômica espetacular.

Que condições são essas?

Se voltássemos quatro anos e disséssemos para um brasileiro que a reforma trabalhista e previdenciária seriam feitas, que o Banco Central teria autonomia, que teríamos o marco do saneamento, teto de gastos, marco civil da internet, open banking, Pix e os juros mais baixos da história, ele duvidaria. As pessoas iriam achar uma agenda impossível. Evoluímos significativamente nesses quatro anos. Do ponto de vista de reformas estruturais, o grosso já foi feito. Na prática, o que está faltando fazer são duas reformas importantes, a administrativa e a tributária. Acho que a reforma tributária vai reorganizar e simplificar, mas ela não terá como reduzir a carga tributária. Ela é importante, mas relativamente menos do que as outras. Não acho que esteja faltando uma grande agenda de reforma no Congresso, fora essas que estou falando.

O juro baixo é apontado pelo sr. como um ponto positivo, mas ele deve voltar a subir para conter a alta da inflação. Como fica essa questão?

Mesmo que o juro suba, ainda vai continuar baixo em relação aos últimos anos. E juro tão baixo como o atual é uma realidade muito nova que, quando estávamos começando a colher os frutos dela, entramos na pandemia. Quando se faz política econômica com juros baixos, o crescimento demora um pouco para aparecer, mas quando vem, vem com consistência. E depende-se menos do governo. As captações estão batendo recorde este ano e em algum momento isso vai se refletir na economia como um todo. Já uma política econômica que usa dinheiro do governo, o crescimento vem muito rápido, mas é voo de galinha. Em algum momento tem de se pagar a conta com a dívida. 

E como se resolve a pandemia?

A vacina é a única solução. Estou pessimista com o cronograma de vacinação. A gente deveria ter se preparado, entrado na fila e apostado no maior número de vacinas, não apenas em duas. Isso gera um risco muito grande: se alguém não entrega, vai ter ruptura. É muito difícil reverter essa situação no curtíssimo prazo. As medidas de restrição, os lockdowns, devem perdurar por muito mais tempo do que a gente imaginava no início do ano. Ao longo do ano todo, imagino que vamos ter situações de abre/fecha da economia até se ter uma parcela significativa da população imunizada.

Como a iniciativa privada está atuando na crise sanitária?

Acho que há movimentos civis organizados, como, por exemplo, o “Todos pela Saúde”, que o Itaú começou o ano passado, o “Unidos pela Vacina”, lançado pelo Mulheres do Brasil, Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV) e outros empresários, que são bons movimentos no sentido de a sociedade mostrar que está apoiando, fazendo o seu papel de maneira organizada. Não é uma empresa só, específica, mas é a união de empresários, executivos, de líderes da sociedade civil no sentido de apoiar, de se colocar à disposição e criar soluções construtivas para tentar ajudar o governo. São iniciativas muito bem-vindas e fico feliz de ver que elas estejam acontecendo. Mas acho que o controle da pandemia, sobretudo, é uma função dos governos, federal, estadual, municipal. Esse controle depende das autoridades e não tem nada a ver com a iniciativa privada

Como o sr. vê o fato de a sua mãe, Luiza Trajano, que é presidente do conselho de administração do Magazine Luiza, estar sendo cortejada para ingressar na política?

Prefiro não comentar.

Quantas lojas físicas do Magalu estão fechadas por causa da quarentena?

Hoje estou com 600 lojas fechadas (a empresa tem 1,3 mil lojas), mas a minha previsão é que esse número aumente. Essa discussão é política até o sistema de saúde colapsar. Quando colapsa, como aconteceu em Manaus (AM), todo mundo percebe que está no mesmo barco. Por mais que as pessoas protestem contra as medidas de isolamento social, ela é a única coisa que funciona, além da vacina. Mas joga contra a economia.

Como contornar esse ponto?

As empresas que não tiverem uma agenda digital muito forte vão sofrer, porque a digitalização é uma forma de atenuar os impactos das restrições (lockdown). Mas vejo uma enorme oportunidade de digitalização do varejo em vários segmentos, moda, beleza, alimentos, restaurantes, setor financeiro, por exemplo.

Como assim?

A pandemia catalisou o processo de digitalização e esse processo vai continuar por muitos anos. Há vários bolsões de oportunidades dentro da economia brasileira. O Brasil é um país continental com uma economia multidimensional. É difícil fazer uma única análise para todos os segmentos. Mas, dando uma visão geral, há setores da indústria que estão indo bem, a agricultura tem alcançado safras recordes e o comércio, que sofre com as lojas físicas, está no melhor momento da história no mundo online. No entanto, há setores muito relevantes, como o de serviços, que inclui turismo, bares, restaurantes, que estão muito ruins. Na média, sabemos que não estamos num momento positivo por conta da pandemia. Nesse contexto, é possível encontrar bolsões de prosperidade. A minha forma de raciocinar é enxergar as oportunidades, enxergar o copo meio cheio. Não consigo extrair muito valor lamentando as coisas que não funcionam no País. A empresa tem 63 anos. Passamos por hiperinflação, sequestro da poupança, moratória, várias crises internacionais, situação de juro real mais alto do mundo e estamos aqui. Por quê? Porque nos concentramos naquilo que poderíamos fazer e nas oportunidades que existem mesmo em situações de turbulência da economia brasileira.

Quais seriam essas oportunidades?

Vemos oportunidade na digitalização do varejo brasileiro. Queremos ser um fator de inclusão digital, tanto de pequenos e médios varejistas, que são analógicos, quanto de clientes que ainda não fizeram a primeira compra digital.

A fatia do comércio online no varejo total do País ainda é pequena. Como virar esse jogo?

A participação do e-commerce no varejo da China era de 1% dez anos atrás e hoje está em 30%. Essa participação não está escrita em pedra. Depende dos empresários fazerem investimentos para mudar isso. Hoje, a participação do online no varejo brasileiro é de 10% e um ano atrás estava em 5%. Aumentou muito com investimentos de empresas como Magalu e outros players do comércio eletrônico que apostaram em logística, meios de pagamentos, em canais digitais para tentar atender a demanda da população que está em casa. Isso depende também da capacidade do empresário de investir e inovar. Começamos 60 anos atrás como uma empresa analógica. Toda a nossa capacidade digital foi construída com muito suor, trabalho e dedicação. Não foi uma coisa que caiu do céu. Talvez o varejo teria sentido menos se mais investimentos de maneira consistente tivessem no passado sido implementados no setor. O empresário brasileiro tem de fazer essa situação caminhar: a fatia do e-commerce continuar aumentando.

Como será o varejo pós-pandemia?

Vai sair fortalecido, se conseguirmos manter a expectativa de conter gastos e, consequentemente, prolongar os juros baixos. Se os governos forem bem sucedidos no controle da pandemia, vejo um potencial enorme que está para ser destravado.

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'É preciso credibilidade para reacender os investimentos', diz presidente da Telefônica

Para Christian Gebara, vacinação é fundamental, mas País também precisa que investidor acredite nas reformas e na preocupação do governo em criar um ambiente saudável para os investimentos

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2021 | 05h00

O Brasil precisa executar uma série de reformas estruturais, como a tributária e administrativa, para pavimentar um caminho para o crescimento econômico e atração de investimentos. No entanto, dado o contexto vivido hoje no País, com a piora drástica da pandemia, neste momento a vacinação da população se torna a grande prioridade, deixando o resto como secundário, afirma o presidente da Telefônica Brasil, dona da marca Vivo, Christian Gebara.

“Esse deveria ser o foco”, afirma. Para o executivo, o Brasil é um foco natural de investimentos para empresas de todo o mundo, mas é necessário criar condições para isso. “E isso é credibilidade fiscal, credibilidade de realização de reformas, credibilidade de vacinação”, diz. 

O Brasil atravessa um período de grande dificuldade econômica. O que pode ser feito neste momento para garantir o crescimento do País?

A reforma tributária é fundamental. No nosso caso específico, é preciso considerar que o País precisa de digitalização, para ser acessível para as pessoas e para que as empresas tenham fôlego para seguir investindo em um País de dimensões continentais. Para isso, é preciso uma visão de que não se pode tributar excessivamente as telecomunicações e também enxergar o setor como um veículo de infraestrutura essencial para o desenvolvimento do Brasil. Esse é o primeiro passo. Mas também são importantes todos os tipos de reformas que possam ajudar a ativar a economia, que depende do consumo. No momento em que as pessoas perdem o poder aquisitivo, quando o desemprego sobe, o impacto é imediato no consumo de serviços. Todas as iniciativas para reativar a economia são essenciais para o nosso setor. Nosso setor, por um lado, é o viabilizador desse desenvolvimento econômico, por meio da digitalização, mas ele precisa do consumo para continuar investindo... Além da reforma tributária, a reforma administrativa é um vetor de dinamização da economia que também é necessário. Todo tema de crescimento econômico que venha através de privatizações e outros estímulos que possam ser feitos pelo governo com certeza nós apoiamos e somos otimistas sobre o que isso pode trazer. 

Além das reformas, o que mais pode ser feito para uma retomada mais rápida?

A vacinação é o ponto principal. Todo o resto começa a ficar secundário, tendo em vista o problema que estamos enfrentando agora. Deveria ser o foco. Acredito que temos agora boas notícias de novos laboratórios e fornecedores de vacinas. O Brasil tem uma capacidade reconhecida de logística para a vacinação. Acho que esse é o principal caminho para nossa volta. Essas notícias recentes de lockdown têm um impacto direto em nosso negócio, impacto direto na segurança dos nossos colaboradores, impacto direto no ânimo de todo mundo. A vacinação é a única saída que temos neste momento frente à pandemia. Acreditamos que temos de trabalhar nesse sentido. Estamos acompanhando a evolução de outros países com avanços da vacinação, e a resposta está aí. Os Estados Unidos estão evoluindo, com uma queda mais acentuada dos contágios e das mortes e um início de reativação mais rápida da economia deles. Esse movimento de fechamento do comércio, das escolas, não é benéfico para nossos serviços. Não temos o interesse que as pessoas fiquem em casa para se conectar mais. Quanto mais a economia volta, mais o ânimo de investimento das empresas reacende, os empregos crescem e o consumo cresce na mesma proporção.

Como o sr. avalia a condução do governo no combate à pandemia?

A saída da pandemia e da crise sanitária passa pela vacinação em um curso acelerado em todo o país. Há esforços nesse sentido, mas temos enorme senso de urgência e somos milhões de brasileiros. Além disso, todas as medidas de proteção e prevenção requerem uma política única, de total alinhamento entre os níveis federal, estadual e municipal

Qual foi o impacto da pandemia nos planos da empresa?

Tivemos uma aceleração de trajetos. Temos um pilar que chamamos “Tem tudo na Vivo”, para que o cliente enxergue a Vivo como uma parceira tecnológica que vai além das telecomunicações. Queremos que, por meio da empresa, o cliente resolva toda a sua vida tecnológica. E isso se relaciona com nosso propósito. Digitalizar para aproximar significa criar conexão, criar digitalização, mas também distribuir serviços digitais, se relacionar digitalmente com esse cliente. Essas duas vertentes a pandemia nos fez acelerar. Distribuir serviços digitais, temos os de entretenimento, como o Netflix, Amazon Prime, Disney Plus e vários outros, aceleramos várias parcerias. Em serviços financeiros, lançamos o Vivo Money, que é uma plataforma de empréstimos para as pessoas. Estamos agora, com estudos bem avançados, de ter o serviço de saúde. A telemedicina a gente já acreditava que era o futuro, mas a pandemia fez as pessoas enxergarem a telemedicina como algo mais real, concreto e necessário. Então, estamos trabalhando, por causa da pandemia, de maneira mais acelerada para criar alguns serviços em saúde.

Isso seria por meio de uma parceria?

Sim, mas não temos nada fechado.

O que está por trás dessa estratégia?

É a ideia de que você tem tudo na Vivo. Aproveitando a capilaridade que temos, no canal físico e no online. A base de clientes, o relacionamento que eles têm com a Vivo, eles estão constantemente em contato com a nossa empresa. A força da marca. E, finalmente, o poder de cobrar esses clientes. Temos clientes que não têm cartão de crédito, então a fatura da Vivo é um meio de pagamento que temos de explorar. Nos serviços financeiros, estamos estudando criar uma carteira Vivo. Os clientes já colocam dinheiro para usarem em serviços de celular pré-pago. Por que não colocariam para comprar outras coisas, já que eles já têm esse relacionamento? Essa é outra área que estamos acelerando depois da pandemia. Havia os planos, mas eles vão acelerando. E educação, a gente gostaria de criar parcerias em educação. Fizemos muitas coisas com universidades, com planos para os estudantes que iriam estudar remotamente, mas será que não deveríamos avançar também numa junção de um plano com conteúdo educativo?

A tecnologia 5G tem sido apontada como fundamental para acelerar os serviços digitais no País. Quão próximo estamos de implantar essa tecnologia? 

O edital saiu da Anatel e vai passar para o TCU. Ainda não sabemos os valores das obrigações que vão estar relacionadas com o leilão. O volume das frequências que vão ser leiloadas, na experiência que temos, é o adequado, vão usar frequências propícias para o 5G. O ecossistema do 5G ainda é muito limitado de aparelhos - não é que o 5G esteja ocorrendo em todos os lugares do mundo... A grande mudança que o 5G vai trazer á uma diminuição da latência, as respostas serão imediatas ao comando, o que gera uma nova gama de serviços, de internet das coisas, que é a grande mudança que vai existir, de as coisas poderem ser conectadas. Isso ainda está evoluindo. Considerando que teremos um leilão nos próximos meses, espero que esse leilão não seja arrecadatório, mas que se tenha obrigações que ajudem na digitalização do País, que os preços sejam razoáveis e permitam que as empresas invistam no Brasil. Mas, para isso, não podemos ter uma carga tributária tão alta. E a regulamentação do setor precisa ser mais favorável para que possamos avançar na digitalização. 

Há interesse de investimento estrangeiro no Brasil?

Nós acabamos de assinar a constituição de uma empresa de fibra, como um parceiro internacional, um dos maiores fundos de infraestrutura do mundo, o CDPQ (canadense). Isso vai permitir que a Vivo construa uma rede de fibra neutra, independente, que vai permitir chegar em mais cidades, e também que outras operadoras utilizem essa via. Isso vai permitir criar concorrência, a digitalização de mais cidades e essas cidades digitalizadas incrementam também a atividade econômica. Como o CDPQ, há vários grupos que querem entrar em um País como o Brasil, tamanho continental, carência de infraestrutura, mercado consumidor tão grande. São condições que temos de criar no Brasil, para que empresas como essa, ou mesmo empresários locais, tenham vontade de investir. Mas é importante que a vontade de investir no País das empresas que aqui estão, e as que ainda não estão, seja reacendida. E isso é credibilidade fiscal, credibilidade de realização de reformas, credibilidade de vacinação. O Brasil é um destino natural de investimentos. 

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