Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Comprador dá calote e mansão de ex-dono do Banco Santos voltará a ser leiloada

‘Micado’, imóvel consome R$ 50 mil por mês em manutenção; em maio, casa de Edemar Cid Ferreira havia sido arrematada por R$ 23,3 milhões

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2019 | 08h30

A “saga” da mansão do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, do finado Banco Santos, parecia ter chegado ao fim em maio, quando foi finalmente arrematada em um leilão judicial – por um comprador não revelado – por R$ 23,3 milhões. O preço poderia ser considerado uma pechincha, uma vez que o valor original pedido era de mais de R$ 76 milhões.

Mesmo assim, o arrematante acabou não honrando o pagamento, que deveria ter sido depositado sete dias úteis após a aquisição. “Ele nos justificou que tinha de trazer dinheiro de fora e que demoraria um pouco mais por causa disso, mas a regra do leilão era clara”, disse ao Estado Vânio Aguiar, administrador da massa falida do Banco Santos.

Aguiar explicou que, mais uma vez, o imóvel concluído no início dos anos 2000, pouco antes da quebra do Banco Santos, voltou para a tutela da Justiça. Agora, deverá ser definida uma nova data para a operação e nomeado um novo leiloeiro para a mansão. A tendência, disse Aguiar, é que a casa já chegue ao próximo leilão com um gordo desconto, por cerca de R$ 28 milhões.

Estilo nababesco

Desde 2011, quando a família de Edemar Cid Ferreira foi obrigada a desocupar o imóvel pela Justiça, a mansão foi a leilão várias vezes. Às vezes a casa não era vendida por causa de uma liminar, em outras pela absoluta falta de interessados. Na véspera de um desses muitos certames, em 2017, a reportagem do Estado visitou a casa no Morumbi. À época, a maioria dos móveis e muitas obras de arte ainda decoravam a mansão.

A curiosidade pelo imóvel é justificada pelo estilo superlativo. Instalada em terreno de 12 mil m², a residência tem 4,5 mil m² de área construída e inclui facilidades como duas piscinas – uma coberta e outra ao ar livre –, uma adega que pode abrigar 5 mil garrafas de vinho, duas bibliotecas e uma vista panorâmica da cidade, com os páreos de domingo do Jockey Club de São Paulo em primeiro plano.

O idílio do banqueiro, da mulher e de seus filhos na casa, no entanto, foi curto. Depois de anos de obras, a mansão ficou pronta poucos meses antes da falência do Banco Santos ser decretada, em 2005. Com isso, Cid Ferreira foi obrigado a repensar o uso de certas alas de seu palácio. Conhecida pelo fascínio por arte, a família reservara uma ala da mansão para suítes que abrigariam artistas importantes de passagem por São Paulo.

Logo, porém, esses quartos tiveram sua função modificada: viraram um bunker da defesa do ex-banqueiro, com pilhas de processos tomando todo o espaço. Depois de os Cid Ferreira terem sido obrigados a deixar a casa, todos os cômodos foram esvaziados, embora alguns objetos pessoais dos ex-bilionários, incluindo camas e aparelhos de ginástica, tenham sido deixados para trás.

Ao longo desta década, a residência – que contabilizava quatro moradores e 54 empregados –, custou milhões à massa falida. Isso porque o projeto do arquiteto Ruy Ohtake já incluía, 15 anos atrás, a automação de persianas e um sistema completo de ar-condicionado – luxos que elevaram a conta de luz para R$ 100 mil por mês.

Além dos gastos fixos salgados, um eventual novo dono também terá de arcar com uma reforma, já que os problemas se proliferam entre corredores de mármore e escadarias suntuosas: há pisos de madeira podres, lâmpadas caídas e portas que já não abrem nem fecham.

Distribuição

Apesar de a mansão não ter sido arrematada, Vânio Aguiar esclarece que o dinheiro relativo à venda do imóvel que abrigava a sede do Banco Santos, na Marginal do Pinheiros, e da coleção de obras de arte de Edemar Cid Ferreira, chegará às mãos dos credores. Parte dos quadros e objetos teve de ser repatriada, pois se encontrava nos Estados Unidos.

O valor a ser distribuído aos credores com essas vendas, segundo o administrador judicial, é de R$ 300 milhões. O valor é equivalente a 22% do total dos débitos e seria suficiente para pagar todos os que têm até R$ 3 mil a receber, segundo documento publicado no site do Banco Santos.

O destino da mansão do Morumbi, no entanto, segue indefinido quase 14 anos depois da decretação da falência do Banco Santos.

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