Comprando Brasil

Círculo virtuoso na economia foi deflagrado com a nomeação da equipe econômica, liderada pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e pelo presidente do BC, Ilan Goldfajn

Fábio Alves, O Estado de S. Paulo

14 Julho 2016 | 06h45

A Bovespa atingiu seu nível máximo em 2016 na terça-feira passada, superando 54 mil pontos, enquanto o dólar voltou a cair abaixo de R$ 3,30 e só não cedeu mais porque o Banco Central interveio. O principal índice do mercado acionário brasileiro acumula neste ano alta ao redor de 25%, mas o ganho supera 50% se medido em dólar, um dos maiores entre países emergentes. Já a moeda americana perdeu mais de 17% do seu valor ante o real brasileiro em 2016. Quanto desse movimento é reflexo do otimismo com a conjuntura econômica e política do País? Quanto se deve aos ventos favoráveis vindos do ambiente externo? A valorização das ações de empresas brasileiras e do real é uma combinação do cenário doméstico e internacional. Todavia, a contribuição maior para esse bom desempenho vem mesmo do otimismo de investidores com a perspectiva de correção dos desajustes na economia observados na gestão de Dilma Rousseff.

De fato, os ganhos da Bovespa e do real foram acelerados pela onda de apetite a risco nos mercados globais e pela perspectiva de estímulos monetários por parte de vários bancos centrais no mundo, sem contar com a expectativa de que o Federal Reserve (o BC americano) já não irá subir os juros com o mesmo ímpeto que se esperava há algumas semanas. A sinalização de estímulos monetários - via corte de juros ou injeção de recursos - ficou mais forte desde que o Reino Unido votou a favor de deixar a União Europeia, realçando o temor de que essa decisão possa afetar o crescimento das economias desenvolvidas. 

Muitos países já praticam taxas de juros negativas. E o afrouxamento adicional da política monetária pelos países ricos incentivou os investidores a sair em busca de ativos de risco com taxas de retorno mais elevadas, beneficiando, por exemplo, o Brasil, onde os juros básicos são de 14,25% ao ano. 

Os contratos de 5 anos de Credit Default Swap (CDS), que servem como um seguro contra possível calote da dívida, desabaram. Em dezembro de 2015, a taxa desses contratos estava em 509 pontos básicos. Na terça-feira, havia caído para abaixo de 300 pontos. Parte desse movimento deve-se ao otimismo com a nova gestão da Petrobrás, cuja dívida soma R$ 450 bilhões - 72% atrelados ao dólar. Sob o comando de Pedro Parente, a Petrobrás representa uma ameaça menor de calote, na visão dos investidores. A queda da taxa do CDS, e consequentemente a percepção de risco do Brasil, acaba afetando positivamente o real, e vice-versa. 

Esse círculo virtuoso foi deflagrado com a nomeação da equipe econômica, liderada pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e pelo presidente do BC, Ilan Goldfajn. O discurso mais duro de Goldfajn, de trazer a inflação para a meta de 4,5% ao fim de 2017, ganhou pontos ao restaurar a credibilidade da política monetária. O mercado crê que Temer conseguirá fazer um ajuste fiscal e aprovar reformas, como a da Previdência. O mercado aposta que, no mínimo, o Congresso aprovará neste ano a regra que limita o crescimento de gastos públicos à variação da inflação do ano anterior. 

“Parece mais provável que o governo interino consiga aprovar reformas fiscais cruciais para combater o alarmante crescimento da dívida pública do País”, escreveram ontem os estrategistas do banco HSBC ao recomendar a compra de títulos públicos brasileiros. 

A animação não é só na renda fixa: o saldo líquido do investimento estrangeiro na Bovespa soma R$ 14,4 bilhões desde o início do ano. Esse é um dinheiro especulativo. A prova dos nove é o investimento direto, a aposta no longo prazo. Se a liquidez internacional seguir elevada e o apetite a risco não arrefecer, o bom humor com o Brasil dependerá apenas de Temer.

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