Comprar carro usado exige cuidado em dobro

Com a desaceleração da economia e o conseqüente achatamento do poder de compra da população, o mercado de carros usados tem atraído principalmente os consumidores que não querem perder dinheiro com a acentuada desvalorização no preço dos veículos novos - aproximadamente 30% no primeiro ano de uso. No entanto, o consultor do mercado automobilístico José Eduardo Favaretto diz que, ao adquirir um veículo usado, corre-se risco também de transformar a conquista em problema. "A economia feita na hora da compra pode sair cara, caso o consumidor não faça boa escolha e o carro apresente problemas após determinado período." Por isso, dependendo do estado do bem, pode ser mais interessante comprar um carro popular zero-quilômetro e ter um ano de garantia, por exemplo, do que adquirir um usado mais potente que precise de alguns reparos, analisa Favaretto. Advogados e órgãos de defesa do consumidor deixam claro, porém, que se o defeito ou vício de qualidade do automóvel aparecer em até 90 dias, contados da data da compra, o adquirente tem o direito de fazer a reclamação na loja ou concessionária que vendeu o bem e exigir que o problema seja solucionado em até 30 dias.Consumidor tem direito à garantia total do veículoA técnica de Produtos do Procon-SP - órgão de defesa do consumidor ligado ao governo estadual - Márcia Cristina de Almeida afirma ainda que, pelo Código de Defesa do Consumidor (CDC), o proprietário tem direito à garantia total do veículo, e não somente de motor e câmbio como algumas revendas insistem em defender. Além disso, o Artigo 18 do Código prevê que, caso a empresa não resolva a questão dentro do prazo estabelecido pela lei, o consumidor poderá exigir a substituição do produto e a devolução do valor pago ou, ainda, um abatimento proporcional ao prejuízo", explica Márcia.Se a negociação for feita entre particulares ou em feiras livres, o cuidado e a atenção devem ser redobrados. Nesses casos, diz o presidente da Associação dos Proprietários de Veículos Automotores do Estado de São Paulo (Aprovesp), Jair Vieira Leal, é mais díficil conseguir a devolução de valores, pois as regras do CDC não podem ser aplicadas quando não há relação de consumo, ou seja, o envolvimento de uma empresa no negócio.O advogado especializado em defesa do consumidor, José Eduardo Tavolieri de Oliveira, esclarece que a saída para quem comprar um carro com defeito e enfrentar dificuldade na hora de firmar um acordo com a pessoa física é o Judiciário. Por esse caminho, o prejudicado deverá ter tempo disponível para aguardar a decisão da Justiça, que é morosa.Antes da compra, verificar problemas técnicos e burocráticosOs especialistas do setor acreditam que, para fechar um bom negócio, é importante verificar, primeiramente, o preço médio do carro desejado para ter uma referência na hora da escolha. Segundo o proprietário da loja de automóveis Green Car, Cezar Batista, a avaliação da mecânica e da funilaria do veículo também é importantíssima. "Se o interessado em comprar um automóvel usado não tiver conhecimento para avaliar o estado do carro, ele deve, antes de fechar o negócio, ir até a loja acompanhado de um profissional que possa auxiliá-lo", orienta.Leal, da Aprovesp, lembra também da necessidade de verificar se não existem multas pendentes. "Para isso, exija uma certidão atualizada dos dados do carro. Esse documento é emitido gratuitamente pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran). "O cliente não pode esquecer que todas as autuações feitas até a data da venda devem ser pagas pelo antigo proprietário." Esse cuidado deve ser tomado porque, segundo Leal, é muito comum encontrar carros cujo valor das multas chega a ser superior ao do próprio bem. Outra orientação para evitar dor de cabeça futuramente é a elaboração de um termo em que o vendedor se responsabiliza pelo pagamento de multas que ainda possam ser emitidas.Pelo Disque Detran (900-0160) ou pelo site www.detran.sp.gov.br, é possível também, com o número do Renavam do veículo, verificar o histórico do carro, o número da placa, ano, categoria, se há bloqueio de furto ou de guincho, restrição administrativa, tributária e judicial, além de restrição financeira ou arrendamento.Bancário compra carro batidoEm maio, o bancário Edson Luiz da Silva comprou um Monza 1996 na Viamar. Após um mês, Silva levou o carro a um funileiro e foi comunicado de que o veículo sofrera uma batida na traseira e, por isso, estava com uma série de defeitos. Silva está tentando fazer um acordo, sem sucesso, com a loja. Segundo a Viamar, antes da venda, o veículo fora revisado na parte mecânica, que não apresenta nenhum risco ao cliente. Mas de acordo com Oliveira, advogado de defesa do consumidor, o cliente deve ser ressarcido porque, mesmo que sua segurança não esteja sendo colocada em risco, ele está tendo prejuízo financeiro.

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