WERTHER SANTANA/ESTADÃO
Com a queda na taxa básica de juros, o empresário Leonardo Flores tirou recursos do CDB para comprar apartamentos WERTHER SANTANA/ESTADÃO

'Comprei quatro imóveis para alugar'

Empresário Leonardo Flores diz que prazo de entrega menor foi fundamental para a compra

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2019 | 09h48

Seguindo a tradição familiar, o empresário Leonardo Flores, de 34 anos, sempre investiu em imóveis. Mas, neste ano, por conta da forte queda na taxa básica de juros, ele decidiu ampliar ainda mais as aplicações em tijolo e cimento: comprou na planta quatro apartamentos pequenos, na faixa de 30 a 50 metros quadrados para alugar.

Eles serão entregues num curto espaço de tempo: dois deles em junho do ano que vem, 13 meses após o lançamento. Os outros dois apartamentos ficarão prontos em janeiro de 2021, 16 meses depois do lançamento. “O prazo de entrega mais curto foi fundamental: quanto mais rápido melhor, porque você põe no mercado para alugar e obtém o retorno rapidamente sobre o investimento”, diz o empresário, ressaltando que essa é uma exigência crescente dos investidores.

Flores quitou dois apartamentos à vista. Os outros dois, ele entrou no fluxo do pagamento da obra. Os quatro imóveis estão avaliados em R$ 2 milhões e o empresário já desembolsou a metade.

Ele conta que os recursos estavam aplicados em renda fixa, em Certificados de Depósito Bancário (CDB). A aplicação deixou de ser interessante com o recuo da taxa básica de juros para o nível mais baixo da história, hoje em 5% ao ano. “Atualmente, a renda fixa está praticamente com juros negativos, estamos falando de 0,5% real ao mês. É muito pouco quando se compara o risco com a oportunidade”, observa.

Além da taxa de juros estar muito baixa, a tendência de ela continuar caindo contribuiu para que o empresário comprasse quatro imóveis numa tacada só. “Se ela (taxa básica de juros) não estivesse tão baixa e com tendência de cair mais, talvez eu não tivesse comprado quatro apartamentos, mas menos unidades, duas ou três.” 

Distribuição

Com o corte nos juros, o empresário mudou ligeiramente o perfil da alocação dos seus recursos entre renda fixa e variável, mas manteve a maior parcela do dinheiro (60%) em imóveis. Três anos atrás, 20% do seu capital estava investido em renda fixa e outro tanto em renda variável. Agora, Flores ampliou a fatia da renda variável para 30% e concentrou a aplicação em Bolsa.

Mesmo assim, Flores diz que pretende comprar mais imóveis, especialmente os bem localizados. “Imóveis mal localizados não interessam para ninguém.”

O empresário observa que, nos últimos tempos, o mercado de locação residencial da cidade de São Paulo, fortemente castigado pela crise, começou a decolar. Um sinal dessa reversão apareceu na pesquisa de locação do Secovi-SP, o Sindicato da Habitação. Em setembro, o valor médio do aluguel acumulado em 12 meses variou 5,90%, acima do IGP-M, de 3,37%, que é o índice normalmente usado para o reajuste. 

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Com captações bilionárias e juro baixo, setor imobiliário inicia ciclo de expansão

Com aumento de 70% nas vendas de imóveis residenciais em SP até setembro e melhora no mercado corporativo, setor se prepara para aceleração maior em 2020

Mônica Scaramuzzo, Fernando Scheller e Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 04h00

O mercado imobiliário pode estar perto de uma retomada vigorosa. De julho para cá, seis construtoras e incorporadoras captaram R$ 3,8 bilhões em novas ofertas de ações para colocar o pé no acelerador em seus projetos residenciais e comerciais. Com a queda dos juros – a taxa Selic atingiu 5% ao ano na última semana – e o maior interesse de investidores no setor, a expectativa é de que as captações possam dobrar nos próximos meses, já que outros grupos se preparam para ir à Bolsa.

O ânimo do setor é uma boa notícia para a economia como um todo. “Tradicionalmente, esse segmento antecipa o cenário de crescimento econômico. Há expectativa de recuperação do PIB, a expansão deve ser menos intensa, mas sustentável no longo prazo”, diz Alessandro Farkuh, responsável pela área de banco de investimento do Bradesco BBI, que coordenou boa parte das operações das construtoras na Bolsa.

Com esses recursos, as construtoras pretendem abrir novos canteiros de obras, sobretudo em São Paulo. E isso já se reflete em outros setores da indústria. “Começamos a sentir nas últimas semanas maior demanda por aço vinda do setor imobiliário”, disse Gustavo Werneck, presidente da Gerdau. O mesmo movimento deve acontecer com o cimento e outras matérias-primas.

Quem se movimenta pela capital paulista percebe que guindastes voltaram a fazer parte do cenário. Dados do Secovi-SP, obtidos pelo Estado, mostram que, de janeiro a setembro, foram comercializadas 30,5 mil unidades residenciais só na capital, número 70% maior do que o do mesmo período do ano passado. “Isso é mais do que as 29,9 mil vendidas em 2018 inteiro”, diz Celso Petrucci, economista-chefe do Secovi-SP. Só em setembro foram comercializados 4.055 imóveis – a maior marca para o mês e cerca de 50% acima da média histórica.

A retomada do setor, que usa mão de obra intensiva, poderá ser um alento para um indicador que se recusa a apresentar melhora significativa nos últimos anos: o desemprego. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) da semana passada mostraram que a taxa ainda é de 11,8% no País, com 12,5 milhões de pessoas sem trabalho. Dos empregos gerados, a maioria é de vagas informais.

Concentração

As obras, contudo, ainda estão concentradas em edifícios residenciais e comerciais de médio e alto padrão, diz Ana Maria Castelo, analista da FGV/Ibre. “Não vejo um boom generalizado como em 2007, quando muitas companhias foram à Bolsa. A recuperação mais robusta da construção civil virá com a retomada das obras de infraestrutura.”

Diversas fontes de mercado ponderaram ao Estado que a expansão do setor imobiliário ainda se resume a São Paulo, cujo mercado se descolou do resto do País. De olho nessa oportunidade, a MPD Engenharia, líder em apartamentos de alto padrão em Alphaville, vai investir até R$ 2 bilhões em empreendimentos nos próximos três anos. Segundo o presidente da empresa, Mauro Dottori, entre 70% e 80% dos recursos serão direcionados para a capital paulista. “São Paulo tem maior dinamismo e retoma primeiro do que outros mercados.”

Além das ofertas subsequentes em Bolsa, que são uma importante fonte de financiamento para construtoras, os proprietários de edifícios têm sido assediados por fundos de investimento imobiliário de bancos. Para garantir retorno a seus cotistas, as instituições financeiras estão comprando edifícios corporativos “maduros”, que já estão alugados para empresas. 

A Tishman Speyer, que desenvolve prédios residenciais e corporativos, vendeu por R$ 1,2 bilhão a torre que abriga a sede corporativa do BB, em Brasília, a um desses fundos. A empresa já tem R$ 1 bilhão captado para investimento adicional no mercado brasileiro. “Além desse dinheiro captado, está mais fácil conseguir crédito nos bancos para viabilizar projetos”, afirma Daniel Cherman, presidente da Tishman Speyer no Brasil.

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Construtoras reduzem tempo de obra

Com uso de tecnologia e graças a maior oferta de crédito, empresas erguem edifícios em prazo até 8 meses menor de olho em investidores

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 04h00

Com a ajuda de novas tecnologias e do aumento de crédito para o setor, construtoras têm conseguido reduzir em até oito meses o tempo de obra para erguer edifícios. A intenção é aproveitar o bom momento do setor para atrair, especialmente, investidores que desistiram de aplicar dinheiro em renda fixa por causa do ganho menor.

A trajetória de queda da taxa básica da economia (Selic), que na semana passada renovou um piso histórico, de 5% ao ano, tem levado os investidores a enxergar na compra de imóvel para locação um negócio mais rentável. Além da renda do aluguel, podem embolsar a valorização dos imóveis, que ainda estão com preços defasados. 

A sinalização do Banco Central de que deve haver nova redução nos juros ainda este ano reforça o interesse pelos imóveis e a corrida do setor para poupar tempo. Até 2014, os prazos oscilavam entre 24 e 30 meses. “Hoje, estão mais para 16 ou 18 meses do que para 24”, diz Odair Senra, presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil em São Paulo. 

Na sua avaliação, a maior oferta de crédito está permitindo concluir edifícios num tempo menor. Com mais recursos disponíveis, construtoras dependem menos da receita de vendas e podem acelerar a produção. Com isso, terminam o empreendimento mais cedo, acertam as contas com quem emprestou o dinheiro, embolsam o lucro e partem para a construção de outro empreendimento.

“O banco quer isso porque fica com um devedor seguro, que dá o imóvel como garantia”, diz Senra. Ele observa que o risco de calote para o banco fica pulverizado, pois são vários devedores, não só a construtora. O banco também ganha potenciais clientes (devedores) para vender outros produtos.

Risco

A construtora Urbic, do empresário Marco Parizotto, por exemplo, tem dois empreendimentos com prazo de execução reduzido. “Achamos que encurtando o ciclo de produção reduziríamos o risco para incorporadora e cliente.” 

Mas, na prática, o que se vê é que os projetos mudaram para atender o comprador que pretende ter o imóvel pronto o mais rápido possível para alugar. Um dos empreendimentos da construtora no Ibirapuera (SP) foi lançado em maio e será entregue em 13 meses.

Do prazo total, nove meses serão para erguer o prédio, que vai usar tecnologia de estruturas metálicas para acelerar a construção.

“Já vendemos 60% (dos apartamentos) e 30% dos que compraram são investidores.” São apartamentos na faixa de R$ 900 mil. Outro empreendimento, na Vila Mariana (SP), é de pequenos estúdios na faixa de R$ 250 mil, voltados a investidores.

À vista

“Temos buscado redução de prazo para diminuir os custos do empreendimento e, com isso, obter uma rentabilidade maior”, afirma Vladimir Alves da Silva, diretor financeiro da construtora Tarjab. Ele conta que tem conseguido reduzir em três meses o prazo da obra. Num projeto recente, de apartamentos na faixa de R$ 350 mil lançado em abril, ele conta que percebeu que existe demanda de investidores que não são só pessoas físicas, mas também fundos imobiliários. “Para unidades menores houve compradores que pagaram à vista”, diz, lembrando que esse pode ser um sinal do apetite do investidor pela renda de locação.

De olho nessa demanda, Frederico Azevedo, diretor-presidente da construtora Altana, conta que negocia parceria com uma empresa francesa para reduzir, a partir de 2021, prazos de construção de três empreendimentos. A locação será gerenciada pela própria empresa.

“A possibilidade de fazer ativos imobiliários para renda foi viabilizada por causa dos juros mais baixos e isso casa com a tecnologia de construir de forma industrial e mais rápida porque, assim, é possível gerar um retorno mais rápido para o capital”, diz.

Desde 2014, a Trisul, que tem capital aberto, vem reduzindo prazos de obra, diz Lucas Araújo, superintendente. Ele explica que as concorrentes perceberam agora que diminuir o ciclo de produção é muito melhor, pois garante o retorno mais rápido, com reconhecimento de receitas. “Todas (as concorrentes) estão precisando disso para ajudar na recuperação financeira.”

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Aplicação em imóveis exige cuidado, dizem consultores

Investidor conservador tem de buscar outras alternativas, além da renda fixa, para ganhar dinheiro

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 04h00

A renda obtida com aluguéis de imóveis comprados por pessoas físicas ou com a aquisição de cotas de fundos imobiliários passou a ser, nos últimos meses, alvo de interesse dos investidores com perfil conservador.

Até pouco tempo atrás, esse investidor conservador aplicava suas economias em renda fixa. Mas com a queda na taxa básica de juros, a Selic, que baliza essas aplicações e hoje está em 5% ao ano, a menor marca da história, o cenário mudou. E esse investidor conservador tem de buscar outras alternativas para ganhar dinheiro.

Nas contas do gestor de investimentos, Mauro Halfeld, no cenário atual uma aplicação de renda fixa de baixo risco deve render, depois de descontado o Imposto de Renda (IR), cerca de 4% ao ano, dependendo das taxas cobradas pelos fundos de investimentos, corretoras e bancos. “Levando-se em conta que a inflação costuma voltar no Brasil, o brilho da renda fixa acabou”, diz Halfeld.

Já os fundos imobiliários diversificados devem proporcionar ganhos perto de 5% ao ano acima da inflação, calcula ele. E imóveis residenciais pequenos alugados devem gerar renda real de 6% ao ano. Esse rendimento, observa o administrador de investimentos, Fabio Colombo, não leva em conta a valorização do próprio imóvel. Depois de três anos de vacas magras, neste momento, os preços dos imóveis ainda estão defasados, lembra o administrador.

Apesar de os números indicarem que a renda obtida com a locação direta de imóveis e com fundos imobiliários ser maior do que a proporcionada por aplicações em renda fixa, consultores dizem que o investidor deve ficar atento a alguns detalhes.

No caso dos fundos imobiliários, Colombo ressalta que o investidor tem de levar em consideração o preço da cota. Com a forte demanda por fundos imobiliários, o valor da cota deve subir, o que pode reduzir a rentabilidade. Além disso, quando o investidor compra uma cota de um fundo imobiliário, ele não sabe exatamente em qual projeto o seu dinheiro está sendo aplicado. “No longo prazo, há empreendimentos muito grandes que podem se depreciar e isso é um risco”, alerta.

Quanto à compra de imóvel para locação direta, Colombo lembra que o rendimento líquido pode variar, dependendo de como é pago o IR. Isto é, como pessoa física ou jurídica. 

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