Comunicação e sustentabilidade

Nos dias de hoje as grandes disputas da sociedade têm sido decididas em batalhas de comunicação. Baseadas em fatos ou boatos, em dados objetivos ou puras suposições, em verdades ou mentiras, na guerra da comunicação o que parece valer é a capacidade de convencer as partes interessadas, de mobilizar os corações e as mentes a favor ou contra um candidato, uma causa, um ponto de vista. Exemplos recentes não faltam.

Antonio Márcio Buanain, O Estado de S.Paulo

24 Novembro 2016 | 05h00

A conquista não se dá apenas nas grandes campanhas, mas no dia a dia, pela imprensa, rede social, em salões de festa e conversas de botequim. Verdades e mentiras repetidas pela imprensa, tuitadas e postadas na rede social, com milhares de likes, acabam se convertendo em “mentiras” e em “verdades”. E, desta forma, correm o mundo, mobilizam movimentos sociais, interesses corporativos, ganham status nas agendas políticas, transformam-se em protocolos e acordos internacionais, amealham recursos, incorporam-se a projetos, arrecadam milhões e, assim, transformam o mundo. Para o bem e para o mal.

O Brasil tem sido um perdedor em batalhas de comunicação no cenário internacional. É certo que raramente fazemos bem feita a lição de casa, e damos margem às notícias negativas que vão compondo uma imagem desfavorável do País. O fato é que quase sempre aparecemos mal na fita, pior do que a realidade justificaria. Uma área na qual o País tem sido “vítima” é a ambiental. A agricultura brasileira talvez seja a que hoje utiliza as melhores práticas ambientais, no estado da arte. Nas últimas duas décadas, a produção de grãos se multiplicou por 3 e a área cultivada cresceu apenas 50%. O rebanho bovino quase dobrou e a área de pastagem caiu quase 30%. O desmatamento vem caindo e a legislação agroambiental, plasmada no Código Florestal, é uma das mais rigorosas do mundo. E não é para inglês ver! Apesar disso, dia sim, dia não surgem notícias negativas, muitas vezes generalizando casos isolados, exagerando os impactos ou até mesmo fantasiando. E assim o boi brasileiro acaba emitindo mais gases do que os automóveis; a soja, que se transforma em alimento para milhões de famílias, responsável pelo desmatamento; e a cana-de-açúcar, que produz combustível limpo, expropria as terras de pequenos agricultores. Como as versões já viraram “verdades”, pouco adianta contestá-las com as verdades de fato.

A nova vítima são as barragens das hidrelétricas. Com base em pesquisa da Washington State University (WSU), o prestigioso jornal inglês The Guardian publicou artigo apontando as hidrelétricas como grandes emissoras de gás de efeito estufa (GEE). Como o Brasil tem grandes hidrelétricas, não será surpresa se o príncipe virar sapo e nossa matriz energética, sempre apontada como limpa em razão da importância da hidreletricidade e dos biocombustíveis, se transformar na nova vilã do meio ambiente.

O estudo da WSU se baseia em critérios científicos duvidosos e ignora um detalhe fundamental para a estimativa de emissões pelos reservatórios de usinas: o tempo médio de renovação da água. Na maioria das usinas brasileiras, construídas nas últimas quatro décadas conforme projetos com rigoroso escrutínio ambiental, o tempo de renovação é baixo e estimativas cuidadosas indicam níveis de emissão negligenciáveis, ou até mesmo zero, como é o caso de Xingó. A exceção é a Usina de Balbina, com seus equívocos de projeto e execução, com tempo de renovação de dois anos e que emite tanto GEE quanto uma termoelétrica a carvão. Exceção que não justifica a conclusão do estudo, que no limite pode colocar os ambientalistas românticos contra uma alternativa que sabemos explorar e que é comprovadamente sustentável, garantindo-nos uma matriz energética das mais limpas do mundo. Vamos mudar para pior?

É PROFESSOR DE ECONOMIA NA UNICAMP

Mais conteúdo sobre:
Brasil The Guardian

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.