Comunidades mais pobres do ranking ficam na Bahia

O serralheiro Elizeu Bitencourt sentiu no bolso a corrosão do poder de compra provocada pela alta inflação e a queda nas oportunidades de trabalho

Tiago Décimo, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2014 | 22h55

A notícia da gravidez da mulher, a auxiliar de serviços gerais Paula Pereira Dias, de 20 anos, trouxe, junto com a felicidade, apreensão à casa do serralheiro Elizeu dos Santos Bitencourt, de 25, no bairro de Narandiba, em Salvador. Sem trabalho fixo há dois anos e fazendo bicos para os vizinhos, ele acumulou uma série de dívidas nos últimos meses das quais vê pouca chance de sair no curto prazo. “Meus três cartões de crédito foram bloqueados”, reclama, mostrando as contas em aberto - uma delas com uma cobrança de mais de R$ 1,7 mil, o dobro do que ele tem conseguido ganhar por mês. “Não sei como fazer, mas fome meu filho não vai passar.”

Bitencourt representa uma realidade comum no bairro no qual mora, uma comunidade popular de cerca de 30 mil habitantes cercada por bairros que tiveram grande valorização imobiliária na última década. Ali, a pujança provocada pelo crescimento econômico de alguns anos atrás e pela expansão dos benefícios sociais oferecidos pelo governo federal está sendo corroída pela alta dos preços e pela queda das oportunidades de trabalho.

“Estou perdendo tudo o que consegui nos últimos anos”, lamenta o serralheiro, mostrando a moto de dez anos que recebeu há seis meses, como pagamento pela fabricação de um conjunto de grades para as janelas de um vizinho. “Eu tinha um carrinho, mas quebrou uma peça e, como não tinha dinheiro para trocar, passei para frente e fiquei com a moto”, lembra. “Agora, a documentação da moto já está toda atrasada.”

O pequeno imóvel no qual Bitencourt mora de aluguel com a mulher, uma casa com sala, quarto, cozinha e banheiro, em uma viela com saída para a Avenida Edgar Santos, a principal do bairro, também deve ter a luz cortada nos próximos dias - na semana passada, venceu a terceira conta consecutiva do serviço, todas de pouco mais de R$ 20. O aluguel, de R$ 350, é das poucas contas que ele tem conseguido manter em dia. “O mais importante é ter onde morar e o que comer.”

Como não tem mais cartão de crédito e o pouco dinheiro que recebe tem sido dirigido a pagar dívidas menores, o serralheiro tem recorrido à amizade dos vizinhos para manter a geladeira abastecida. “Não tenho mais como fazer compras lá no atacado onde eu ia”, conta. “Antes, fazia minha compra do mês com uns R$ 400. Agora, compro as coisas no mercado da esquina, de pouco em pouco, para pagar depois.”

Pais. Outra saída dos moradores da comunidade para driblar a recente redução do poder de consumo é voltar para a casa dos pais. Foi o que fez a estudante Raiane Silva de Andrade e o barbeiro João Carlos Ramos, após a descoberta de que ela estava grávida. “Estamos morando junto e dividindo as despesas.”

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