Dida Sampaio/Estadão
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Conab vê 'tendência de queda' no preço do arroz nas próximas semanas

Segundo o órgão, decisão do governo de zerar a alíquota de importação do produto deve ter efeito a partir de outubro

Augusto Decker e André Borges, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2020 | 12h50
Atualizado 10 de setembro de 2020 | 19h33

BRASÍLIA - Depois de o arroz atingir um pico de inflação, a tendência é que, nas próximas semanas, o preço do principal alimento da mesa do brasileiro apresente queda. A avaliação é do presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Guilherme Bastos

Segundo a Conab, órgão do Ministério da Agricultura responsável pela gestão do estoque de alimentos em todo o País, a decisão do governo de zerar a alíquota de importação do arroz deve ter efeito a partir do próximo mês, reduzindo a instabilidade nos preços, que chegaram a subir mais de 100% nos últimos dias.

“Acreditamos que a isenção será precificada pelo mercado no curto prazo e as cotações seguirão tendência de estabilidade com tendência de queda nas próximas semanas”, disse Bastos nesta quinta-feira, 10, durante a apresentação do último levantamento da safra 2019/2020.

Na quarta-feira, 9, a Câmara de Comércio Exterior (Camex), do Ministério da Economia, anunciou a redução total da alíquota de importação para uma cota de 400 mil toneladas de arroz, até o fim do ano. "A Conab acompanha com muito empenho a evolução dos preços dos produtos da cesta básica e a evolução do índice de inflação dos produtos alimentícios", disse ele. "Acreditamos que preços estão no ponto de máxima e que no próximo levantamento o cenário já apresente menor instabilidade dos preços”, comentou o presidente da Conab.

Historicamente, as cotações do arroz costumam ser mais altas no segundo semestre, por causa da sazonalidade na entrega do produto. Atualmente, porém, explicou Guilherme Bastos, o preço do alimento no Brasil já ultrapassa o valor da importação dos principais mercados produtores. Por isso, é provável que essa situação perca sustentação no médio prazo, por causa do intenso movimento das indústrias de beneficiamento em busca do produto no mercado internacional.

Com aumento da oferta no Brasil, a tendência é que o preço se regule naturalmente, sem nenhuma interferência pelo governo, como disse a ministra da Agricultura, Tereza Cristina. O presidente da Conab afirmou que, mesmo com a queda nas cotações, os preços ainda devem se manter atraentes para o produtor e trazer margem de lucratividade.

"Mesmo com queda nas cotações, os preços ainda devem se manter remuneradores e trazer margem de lucratividade aos produtores de arroz. Com isso, expectativa é que se estimule aumento da área a ser colhida a partir do início de 2021, invertendo a tendência de queda nos últimos anos", afirmou.  

A Conab estima que a colheita do próximo ano fique no patamar das 12 milhões de toneladas, um aumento anual de 7,2%. A avaliação do órgão e que o chamado “estoque de passagem”, ou seja, o acúmulo de alimentos na entressafra, teve início em nível mais baixo, estimado em 534,2 mil toneladas.

De março a julho, o volume exportado de arroz foi 97% maior que o do mesmo período do ano passado. A maior parte foi para países da América Latina, como México, Costa Rica, Venezuela e Nicarágua. As exportações totais para o ano-safra corrente são de 1,5 milhão de toneladas, com previsão de queda de 6,7% desse volume no ano safra 2020/2021, para 1,4 milhão de toneladas.

Importação

A Conab prevê que, para o ano-safra corrente, seja feita a importação total de 1,1 milhão de toneladas, sendo que 630 mil toneladas desse total devem entrar no Brasil entre setembro e o fim de fevereiro de 2021. Para a safra 2020/21, iniciada em julho, a previsão é de uma redução de 18% nessas importações, chegando a 900 mil toneladas de arroz.

Os dados mostram que, no período de pandemia, o consumo tem aumentado, puxado pelos recursos do auxílio emergencial e também pelo aumento das refeições em casa. A estimativa da Conab é que o consumo do ano-safra corrente (março de 2020 a fevereiro de 2021), de 10,8 milhões de toneladas, tenha crescimento de 3,7% no período 2020/21, saltando para 11,2 milhões de toneladas. 

Estoques

A Conab é um órgão público que tem papel de atuar como um agente regulador do estoque de alimentos no País. Sua atuação, porém, no caso do arroz, só permite que a instituição compre os grãos quando estes estão com preço abaixo do preço mínimo estipulado pelo próprio governo.

Essa compra pode ocorrer via aquisições do governo federal ou por contratos de opção de venda lançados pela Conab. Para estabelecer o preço mínimo, a Conab faz a proposta, os ministérios da Agricultura e da Economia avaliam e o Conselho Monetário Nacional (órgão formado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, pelos secretário de Fazenda do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues, e pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto) aprova.

Em fevereiro deste ano, o preço mínimo do arroz da safra 2019/2020 cultivado no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina foi fixado em R$ 39,63 a saca (50 quilos), uma alta de 8,75% com relação ao valor anterior. Nas demais regiões do País e no Paraná, a correção foi de 10,04% e chegou a R$ 47,55 a saca.

Os Estoques Reguladores da Conab estão todos localizados no Rio Grande do Sul e somam, aproximadamente, 21,5 mil toneladas em estoque atualmente. Esse volume está reduzido porque, há tempos, os valores não ficam abaixo do preço mínimo estipulado, devido à alta demanda.

A última vez que a formação de estoques ocorreu foi em 2017, quando o preço do arroz ficou abaixo do preço estabelecido pelo governo federal. “Nessa ocasião, foram realizadas aquisições de estoques públicos, mas também foram utilizados outros instrumentos para a garantia de renda ao produtor”, afirmou a Conab.

O governo, ao formar estoques, precisa vendê-los posteriormente, e a espera para a venda implica um custo alto de manutenção desses estoques. Além disso, precisa atuar com cuidado na hora da venda, para não impactar significativamente o preço do arroz e ocasionar uma crise no setor produtivo em função das quedas de preços. O preço do arroz permaneceu muito próximo dos preços mínimos por alguns anos.

Segundo o órgão, “há uma tendência de longo prazo de redução do consumo de arroz pela população brasileira”, devido a mudanças nos hábitos alimentares e melhoria no padrão de renda. “Em geral, quanto maior a renda, menor o consumo de arroz. Diante disso, têm sido formados menos estoques públicos de arroz”, afirmou a Conab.

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