Concessão e superávit são mal recebidos por estrangeiros

Analistas de bancos estrangeiros não digeriram bem a decisão do governo de revisar o programa de concessões rodoviárias ao setor privado e os crescentes sinais emitidos nos bastidores pela equipe econômica de que a meta de superávit primário em 2007 poderá ser reduzida em 0,5 ponto percentual, com a diferença sendo direcionada para investimentos em infra-estrutura. A avaliação predominante é de que esses passos do governo servem para acentuar o ceticismo com o protelado pacote para se tentar acelerar de forma sustentável o crescimento econômico do País, pois colidem com o objetivo de melhora do ambiente de negócios e lançam mais sombras no aspecto fiscal. "A notícia de que o governo pode retroceder na questão das concessões rodoviárias para o setor privado surgiu num momento infeliz, justamente quando o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, anunciava planos de nacionalização", disse Flavia Cattan-Naslausky, estrategista do Royal Bank of Scotland. "E os recentes comentários da imprensa de que o governo vai reduzir de fato a meta de superávit primário de 4,25% para 3,75% do PIB (Produto Interno Bruto) eleva o ceticismo com o compromisso do governo com uma política fiscal sólida." Além disso, observou a analista, a "quase certa" eleição do candidato petista à presidência da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, "mostra com clareza a pressão sobre Lula da coalizão liderada pelo PMDB a crescente alienação dos partidos de oposição." Paulo Leme, analista do Goldman Sachs, disse que, se confirmada, a redução do superávit primário é uma notícia "extremamente" negativa. "A política macroeconômica mudou, e não para melhor", disse Leme. Segundo ele, para os mercados isso significaria, entre outras coisas, menos espaço para se cortar os juros. "E o gasto adicional irá ´vazar´ no balanço de pagamentos, através da elevação das importações e redução do superávit comercial", disse. "Ou seja, a redução do superávit subiria o ponto de equilíbrio da taxa de juro real e enfraqueceria a taxa de câmbio efetiva."´Intrigante´Pedro Jobim, economista-chefe do banco ING no Brasil, considerou a decisão de se reavaliar as concessões rodoviárias "particularmente intrigante", por ter sido anunciada num momento que o governo está tentando acelerar o crescimento do PIB. "Embora seja possível que as concessões acabem sendo leiloadas em breve, o anúncio é uma notícia negativa para o ambiente de negócios e representa um sinal preocupante para os setores regulados", disse Jobim. "Além disso, o orçamento federal deste ano inclui R$ 2 bilhões de arrecadações provenientes das concessões, sendo que uma boa parte desse dinheiro presumivelmente vem das estradas."

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