Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Confiança, artigo em falta

O presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, abandonou sua posição inicial de esperar pacientemente a hora de governar e vai girando sua colher de pau no caldeirão da crise.Ainda anteontem, o presidente Lula observava que o vácuo de poder nos Estados Unidos poderia ser muito perigoso. Mas, informalmente, Obama, que só tomará posse dentro de 55 dias, vai preenchendo esse vazio à medida que o desacreditado presidente Bush perde relevância e quase não é mais levado a sério.Ontem, por exemplo, Obama aproveitou o anúncio do futuro presidente do Conselho Consultivo de Recuperação Econômica para insuflar confiança nos mercados. Esse conselho terá como principal objetivo coordenar a ação do Estado no combate à crise. E, para liderá-lo, Obama conduziu um dos maiores capitais em credibilidade hoje disponíveis nos Estados Unidos, o ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central) Paul Volcker, hoje com 81 anos. Volcker foi indicado para a presidência do Fed em agosto de 1979 pelo então presidente Jimmy Carter. Na ocasião, o grande problema da economia era a violenta inflação que se espraiava depois que o cartel da Opep impôs o segundo choque do petróleo, quando os preços do barril saltaram de US$ 12 para US$ 30. Volcker não vacilou ao assumir o comando. Puxou os juros para a altura dos 20% ao ano, produziu uma dramática recessão que durou quase sete anos, mas consertou a economia. Paradoxalmente, está sendo convocado agora para montar os mecanismos que deverão evitar não a inflação, mas a recessão.Ontem os mercados começaram a operar sob uma chuva de novas informações decepcionantes sobre o desempenho da economia americana. Mas reagiram com força depois que Obama apresentou Volcker e declarou que o pacote de ajuda começa a destravar o crédito e que o governo "fará o necessário para estabilizar o sistema financeiro".Uma das novidades dessa grande crise é a ação decisiva dos governos. As estimativas ainda incompletas puxam o despejo dos recursos públicos com o objetivo de combater a crise para a vizinhança dos US$ 3 trilhões. Ainda ontem, a União Européia anunciou a injeção de mais US$ 260 bilhões, deixando claro que, em caráter extraordinário, os governos nacionais podem flexibilizar temporariamente sua meta fiscal, que hoje impede um déficit superior a 3% do PIB.Grande número de pessoas se pergunta se a forte emissão de moeda pelos bancos centrais nos países ricos não vai produzir inflação. E a resposta é: não, por ora.O crédito é um dos principais canais pelos quais o dinheiro funciona na economia. Se essa correia de transmissão (o crédito) está bloqueada, o fator multiplicador da moeda cai substancialmente. Nessas horas, o dinheiro não gira e não produz os mesmos efeitos que produziria numa situação normal. Isso abre espaço para emissão de mais moeda sem com isso criar inflação. No entanto, assim que a situação voltar ao normal, os bancos centrais terão de enxugar os mercados para evitar que dinheiro demais, circulando mais rapidamente, puxe os preços para cima. Mas o artigo mais em falta hoje não é propriamente moeda; é confiança. E essa necessidade o presidente eleito Barack Obama está tratando de suprir.CONFIRAMergulhou - No início deste ano, o governo contava com a redução da dívida líquida do setor público em relação ao PIB para alguma coisa abaixo dos 40%. Seria um feito histórico.Mas a boa notícia chegou antes do esperado. Os números ontem divulgados apontam redução da dívida líquida em outubro para 36,6% do PIB.Isso não aconteceu apenas porque o superávit primário reduziu a dívida. Aconteceu, também, porque a valorização do real baixou o PIB em dólares e, ao mesmo tempo, baixou em reais o pedaço da dívida lastreado em moeda estrangeira. Em todo caso, valeu.

O Estadao de S.Paulo

27 de novembro de 2008 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.