Confiança do brasileiro cai pelo 6º trimestre seguido

Na América Latina, País só está à frente da Venezuela no indicador global de confiança do consumidor, apurado pela consultoria Nielsen

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2016 | 18h05

Conhecido pelo forte otimismo mesmo em situações adversas, a crise atual está apagando essa marca registrada do brasileiro. Entre janeiro e março deste ano, o índice de confiança do consumidor atingiu 74 pontos e recuou para o menor nível em onze anos, desde que a consultoria Nielsen começou a calcular o indicador em 63 países. Foi o sexto trimestre consecutivo de queda da confiança do brasileiro.

“Todas as questões que se agravaram no passado e continuam neste ano, como inflação, desemprego e o próprio cenário político, vem derrubando cada vez mais a confiança. A confiança no Brasil está em queda livre e só perde para a Venezuela, que é o país com o baixo nível de confiança na América Latina”, diz Domenico Filho, líder de indústria da consultoria Nielsen.

O fator que derrubou o índice em dois pontos porcentuais no primeiro trimestre em comparação com o último do ano passado foi a preocupação com a economia. Quase a totalidade dos entrevistados (94%) considera que o País está numa recessão neste momento e 55% acham que a situação se manterá nos próximos 12 meses. Também 46% dos consultados acreditam que as oportunidades de emprego não serão boas a médio prazo.

“A ausência de uma luz no fundo do túnel causa esse pessimismo, diz Filho. A enquete foi realizada entre os dias 1º e 23 de março e ouviu 30 mil pessoas online em 63 países. O fato de os respondentes terem sido consultados antes da aprovação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff não invalida, na opinião Filho, os resultados. “O que mudaria esse resultado seriam ações na própria economia que resultariam no recuo da inflação e do desemprego”, diz o executivo.

Com a economia andando para trás, aumento do desemprego e inflação em níveis elevados, a consultoria constatou que a confiança em baixa afetou as vendas no varejo. No trimestre encerrado em fevereiro, as vendas de itens de alto giro, como alimentos, bebidas, e artigos de higiene e limpeza, caíram 2,1% em relação ao trimestre anterior. E nas expectativas apuradas pelo índice de confiança esse cenário deve continuar: 47% dos entrevistados acreditam que não é um bom momento para gastar dinheiro.

A crise na economia mudou até as preocupações dos brasileiros para os próximos seis meses. Em anos anteriores, diz Filho, saúde e qualidade de vida lideravam o ranking de preocupações. No primeiro trimestre deste ano economia e saúde estão em primeiro lugar.

América Latina. O índice global de confiança do consumidor, apurado em 63 países, subiu apenas um ponto no primeiro trimestre em relação ao último do ano passado, e ficou em 98 pontos. Segundo a consultoria, a persistência de crescimentos irregulares em muitas economias avançadas e desenvolvidas levou a esse resultado.

Na América Latina, a confiança do consumidor caiu em seis de sete países da região avaliados pelo estudo por causa do recuo dos preços das matérias primas e instabilidades políticas. As maiores retrações ocorreram na Argentina e Colômbia, com 13 e 11 pontos, respectivamente.

Domenico Filho explica que as medidas tomadas pelo novo governo argentino, com aumento de imposto e tarifas que não favorecem a inflação e o desemprego, minaram a confiança, o que já fez o consumo recuar. Na Colômbia, preocupações com o ambiente político e macroeconômico puxaram para baixo a confiança, mas, segundo ele, ainda não foi sentida uma retração no consumo.

O único país da América Latina que registrou alta na confiança foi o Chile. O indicador subiu apenas um ponto no primeiro trimestre em relação ao último do ano passado e atingiu 80. “O Chile é o único país da região que está mais organizado”, observa Filho. 

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