SERGIO NEVES|Estadão
SERGIO NEVES|Estadão

Confiança e atividade recuam no início do ano

Incertezas quanto a reformas e lenta recuperação da economia provocaram virada em indicadores de confiança, tanto empresarial quanto do consumidor

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2019 | 04h00

O período de lua de mel com o novo governo está sofrendo abalos. O sinal de alerta soou no mês passado. De cinco índices de confiança, empresariais e do consumidor apurados pela Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), quatro caíram em fevereiro ante janeiro. O IBC-Br, espécie de prévia do Produto Interno Bruto (PIB), veio negativo em janeiro, após duas altas seguidas. Também as projeções de crescimento do PIB para 2019 já rondam 2%, segundo o Boletim Focus, do Banco Central, ante 2,28% na semana passada e 2,48% há um mês.

As incertezas quanto à aprovação das reformas e a frustração com a lenta recuperação da economia reduziram a euforia de empresários que houve após as eleições. Do lado do consumidor, o desemprego, que pesa nas decisões de compra, voltou a subir para 12% em janeiro.

Depois de seis meses seguidos de alta, a confiança dos empresários da construção caiu em fevereiro, aponta a FGV. No caso da confiança dos empresários do setor de serviços e do consumidor, a retração ocorreu no mês passado após quatro altas consecutivas. Já no comércio, o sinal de que a euforia do setor estava terminando começou mais cedo: houve queda na confiança dos empresários em janeiro e fevereiro.

Só a indústria destoou dos demais setores. A confiança dos industriais subiu em fevereiro pelo segundo mês seguido porque, escaldados com a greve dos caminhoneiros e a crise argentina, os empresários já tinham ajustado para baixo as expectativas. Essa alta da indústria não é porque o setor esteja a mil maravilhas. Aliás, mesmo com subida da confiança, o índice está abaixo da neutralidade e continua no terreno pessimista.

“Fevereiro foi um mês de calibragem”, diz o superintendente de Estatísticas Públicas e responsável pelo índices de confiança da FGV, Aloisio Campelo. Ele explica que a queda nos índices de confiança foi determinada por um ajuste nas expectativas para os próximos meses. Na análise do economista, passado o segundo turno das eleições, o aumento das expectativas dos empresários e consumidores foi além do que a economia conseguiu entregar. Talvez, diz ele, empresários achassem que seria mais fácil encaminhar as reformas ou teriam outros impulsos para levar a economia para frente. “Mas, na prática, não está havendo esse impulso”, observa. 

Freio de arrumação

Para Nicola Tingas, consultor econômico da Acrefi, entidade que reúne as financeiras, houve, no mês passado, um “freio de arrumação nas expectativas” dos agentes econômicos provocado pela piora do lado real da economia: a lentidão na recuperação do PIB, as dificuldades na negociação da reforma da Previdência e as trapalhadas do governo. Por outro lado, o economista ressalta que, no âmbito financeiro da economia, cujo desempenho da Bolsa procura antecipar as expectativas dos agentes no longo prazo, o cenário continua positivo. Na última segunda-feira, o Ibovespa fechou acima de 99 mil pontos, após ter atingido marca recorde de 100 mil pontos. “Houve um freio de arrumação em fevereiro, mas o ônibus não perdeu o freio”, diz Tingas.

Campelo também não acredita que a queda que houve em fevereiro na confiança dos empresários e do consumidor seja uma nova tendência. “Não acho que a confiança vá despenca.” Mas ele pondera que essa calibragem pode continuar este mês.

Comparado a outros períodos pós-eleitoral, o economista do Ibre observa que o período a lua de mel com o novo governo, que para os índices de confiança começa depois do segundo turno, foi mais intenso desta vez. O motivo é que a confiança estava muito baixa e, quando a situação está muito ruim, qualquer fato novo amplia as expectativas de melhora.

Montanha russa

Empresários confirmam a oscilação no ritmo dos negócios, o que tem levado à queda nas expectativas que eram mais favoráveis na virada do ano. Mauro Teixeira, sócio-diretor da TPA Empreendimentos, incorporadora e construtora do setor imobiliário residencial da Grande São Paulo, diz que o desempenho da sua empresa na venda de imóveis se assemelha ao comportamento de maníaco depressivo: um mês é eufórico e no outro é baixo-astral.

Após as eleições, outubro e novembro do ano passado foram meses muito bons de vendas para a companhia, que fatura, em média, R$ 100 milhões por ano. Já em dezembro, as vendas perderam o fôlego e em janeiro, elas voltaram para nível muito bom. Mas em fevereiro, houve uma freada: a empresa vendeu um quarto das unidades comercializadas em janeiro e, este mês, começou bem. “Tenho 25 anos de atuação no mercado e o normal é termos tendências mais claras do que estamos tendo agora”, diz Teixeira.

Diante dessa montanha russa nas vendas, Teixeira conta que decidiu colocar os novos empreendimentos em banho-maria. “A área de novos negócios da empresa está acionada, mas não está pressionada.” A ordem, segundo ele, é continuar a prospecção, mas não acelerar o andamento de novos projetos. Com a nova lei dos distratos, a demanda reprimida e contando com a aprovação da reforma da Previdência, o empresário diz que está otimista do segundo semestre em diante.

Andre Cutait, sócio-diretor da rede lojas Spicy, é outro empresário que sentiu a perda de ritmo nas vendas este ano. A rede varejista com 33 lojas encerrou 2018 com crescimento real de 4% nas vendas e em janeiro a taxa de crescimento caiu pela metade.  “Achávamos que a reforma da Previdência estaria mais adiantada nesta altura e esperávamos um crescimento maior”, diz Cutait. Ele pondera que a reforma da Previdência não é salvadora da pátria e que existem outras ações que devem ser tomadas para que ocorra um crescimento mais robusto da economia. No entanto, ele considera a reforma fundamental e se ela não passar, provavelmente parte dos investimento será adiado.

A história se repete no setor de serviços, setor cujo ritmo de crescimento do consumo depende do emprego e da renda. Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) diz que os planos de investimentos de redes de fast-food anunciados no ano passado agora estão sendo tocados com mais cautela.

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