Confiança e câmbio
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Confiança e câmbio

Se a economia interna estiver equilibrada, eventuais guerras cambiais não terão tanto impacto

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2016 | 21h00

Sempre que melhoram as condições da economia, o real tende a valorizar-se, ou seja, o dólar perde preço no câmbio interno.

É o que está acontecendo de março para cá, para aflição de dirigentes da indústria, de exportadores e de analistas econômicos. Valorização do real implica perda de competitividade do produto brasileiro, tanto no exterior como aqui dentro, na medida em que receitas com exportações ficam mais baixas em reais e os importados, mais baratos também em reais.

É quando ganham força velhas teorias ou até mesmo avaliações mais simples que tentam explicar o que passa a ser considerado excessiva valorização do real.

O ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira sempre saca seu ponto de vista de que a principal causa da queda do dólar é a doença holandesa. Trata-se da força do setor de matérias-primas cujas exportações trazem grande volume de moeda estrangeira, o qual o efeito crônico é a derrubada do dólar em reais. Para neutralizar essa consequência, Bresser recomenda a criação de um imposto (confisco) sobre exportações de commodities. O calcanhar de aquiles dessa explicação está em que as exportações de produtos básicos pesam pouco no PIB, menos que 6,5%, e por isso não têm a capacidade de derrubar o câmbio.

A outra explicação contumaz para a forte entrada de dólares são os juros altos demais, que trazem capitais especulativos destinados a produzir lucro fácil com os juros. Desta vez, não há evidências disso, já que o fluxo de recursos para aplicações em carteira vem sendo negativo, ou seja, tem saído mais moeda estrangeira do que entrado.

Há a terceira explicação, aquela a que se aferrou em 2013 o então ministro da Fazenda Guido Mantega. É o impacto sobre a economia do que ele chamou  de guerra cambial, o enorme despejo de moeda pelos grandes bancos centrais que acaba por inundar os mercados, especialmente o dos países emergentes. Essa tese acabou refluindo a partir de 2014 quando a economia brasileira entrou em crise e, ao contrário do que antes acontecia, passou a afugentar capitais. Essa explicação contém o equívoco de apelar para um ato de hostilidade externa (guerra cambial). O principal objetivo dos bancos centrais não foi bombardear mercados emergentes, mas tirar as grandes economias do buraco e, por aí, resgatar a economia global. Em todo o caso, o mercado global continua inundado de moeda forte. Basta pequena recuperação da economia brasileira e da confiança no futuro para que os dólares afluam para cá. Nessas condições, as intervenções do Banco Central tendem a não dar conta do mergulho do câmbio.

Estivessem os fundamentos da economia equilibrados, não haveria essas distorções. A indústria não baqueia porque o câmbio não ajuda, mas porque não é competitiva. Quando for competitiva, deixará de depender tanto do câmbio. Se as contas públicas estiverem em ordem, a inflação também estará lá embaixo e os juros poderão cair. E se a economia interna estiver equilibrada, eventuais guerras cambiais não terão tanto impacto aqui dentro. E uma vez estabilizada a economia, a indústria não precisará de uma crise para desvalorizar a moeda.

CONFIRA:

Esta é a evolução dos preços das commodities aferidas pelo Banco Central.

Afrouxamento

Por mais que o ministro Henrique Meirelles tente dourar a pílula, há um inegável afrouxamento das condições da renegociação da dívida dos Estados com o governo federal. O problema é que isso pode estar acontecendo porque o presidente Temer não quer criar má vontade entre os senadores, que representam os Estados, diante da iminência da votação do processo do impeachment. Se for isso, o risco de perda da autoridade do governo Temer pode estar aumentando.

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