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Confiança na economia pode não se sustentar, diz pesquisadora da FGV

Apesar da melhora na percepção sobre o Brasil, avaliação é que apenas expectativas não bastam para a recuperação

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2016 | 15h29

RIO - A confiança de especialistas econômicos se recuperou no Brasil no trimestre encerrado em julho, mas, se a melhoria das expectativas com o futuro não forem acompanhadas por avanços na percepção sobre a situação presente, o movimento pode não se sustentar. A avaliação é de Lia Valls, coordenadora de Estudos do Comércio Exterior do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), que compara o quadro atual com outros momentos da história e com a vizinha Argentina.

Mais cedo, a FGV informou que o Indicador de Clima Econômico (ICE) da América Latina subiu 5 pontos, passando de 74 pontos para 79 pontos na passagem do trimestre encerrado em abril para o trimestre encerrado em julho. No Brasil, o ICE subiu 27 pontos, avançando de 55 para 82 pontos, na mesma base de comparação.

Foi o terceiro avanço consecutivo registrado pelo indicador médio da América Latina. A alta de julho foi "exclusivamente" determinada pela melhora das expectativas, segundo a FGV. O Índice de Expectativas (IE) subiu 12 pontos, de 88 para 100 pontos, enquanto o Índice da Situação Atual (ISA) recuou 2 pontos, de 60 para 58 pontos.

No caso do Brasil, o IE saltou de 90 para 144 pontos, enquanto o ISA permaneceu no patamar mínimo de 20 pontos. Segundo Lia Valls, a diferença entre o IE e o ISA no Brasil está tão grande que remete ao quadro de 1989 a 1993 e de 1998 a 2002. Como o ICE é coordenado pelo instituto alemão Ifo, a série histórica começa em 1989.

"A gente sabe que a melhora das expectativas está muito associada ao impeachment da presidente Dilma Rousseff e à promessa de reformas na economia. Se tudo isso se frustrar, o ICE pode cair", disse Lia.

Na comparação com os períodos anteriores, é possível observar uma grande diferença entre IE e ISA, tanto na virada das décadas de 1980 para 1990 quanto na virada dos anos 1990 para os anos 2000. 

"A diferença entre IE e ISA era grande, mas a trajetória dos dois indicadores seguia a mesma tendência", afirmou Lia. Já no quadro atual, chama atenção o fato de o ISA estar estacionado em 20 pontos, menor nível possível no ICE. 

Um exemplo do que poderá acontecer com o ICE do Brasil está na Argentina. Na passagem do trimestre encerrado em outubro de 2015 para o encerrado em janeiro de 2016, o IE do país vizinho saltou de 94 para 166 pontos, após a eleição do presidente Mauricio Macri. Com isso, o ICE da Argentina foi a 109 pontos, mas na leitura de julho está em 100. A acomodação foi puxada pelo recuo no IE, que agora está em 150 pontos.

"A Argentina está conseguindo manter as expectativas em alta. O discurso do Macri é claro sobre o tempo que leva para as coisas melhorarem, mas somente as expectativas não puxam a mudança", disse Lia.

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