Conflito de objetivos entre o governo e o Banco Central

O governo parece não ter a mesma dose de preocupação do Banco Central (BC) com a inflação. Enquanto o governo quer mais crescimento do PIB - e para isso até renunciou à meta fiscal -, o BC, que sabe que terá de apresentar boas razões para uma inflação que ultrapassa os limites estabelecidos pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), mostra-se preocupado com os efeitos da desvalorização cambial sobre a alta dos preços. Foi por isso que recentemente tomou nova medida para conter a desvalorização da moeda nacional.

O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2012 | 02h06

Não se trata da primeira medida, assim como também esta não parece muito eficaz para o que se deseja. Até agora, o BC utilizou diversos meios para conter a desvalorização do real. A intervenção tomou a forma, basicamente, de swap cambial, que na realidade é a venda de dólar no mercado futuro. No fundo, uma volta ao sistema de venda de dólares com promessa de recompra. Outras medidas foram o aumento para cinco anos da autorização para os exportadores repatriarem suas receitas em divisas estrangeiras e a redução, de três anos para um ano, da incidência do IOF nas entradas de capitais.

Todas essas medidas tiveram um efeito muito reduzido para estimular as entradas de dólares no País, como indica o resultado das transações cambiais até 14 de dezembro. Por isso o BC acaba de tomar nova medida: o recolhimento de compulsório de 60% sobre a posição vendida dos bancos passou a valer para US$ 1 bilhão, em vez de US$ 3 bilhões, a título de estímulo para que os bancos mantenham caixa em dólares.

Na realidade, uma posição comprada é mantida pelos bancos quando eles acreditam que a desvalorização cambial continuará ou quando têm compromisso de reembolso e veem uma valorização. Ora, a medida do BC visa a valorizar mais o real, além de favorecer um clima de maior liquidez, que as autoridades monetárias estão condenando.

Para um efeito maior seria desejável que o BC atuasse como comprador de maneira mais constante no mercado cambial, conseguindo, assim, reduzir a desvalorização. Mas trata-se de uma operação custosa, embora o montante de nossas reservas internacionais a justifique.

Alguns consideram que a suspensão do IOF sobre os derivados seria a maneira mais eficaz de conseguir derrubar a desvalorização, mas hoje derivados é uma palavra feia nos meios bancários. E essa medida ainda exigiria um exame cuidadoso de cada operação que pudesse representar risco elevado.

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