Conflito precipita saída de Badin do Cade

Decisão é forma honrosa de evitar resistências que marcaram seu mandato, alvo de críticas de outros conselheiros

Célia Froufe / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

A desistência do presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Arthur Badin, de concorrer a um novo mandato à frente do órgão antitruste foi uma saída honrosa para não enfrentar as resistências que marcam seu mandato desde que assumiu o cargo, há dois anos. As críticas persistem e se intensificaram no período.

Badin será o primeiro presidente que não será reconduzido no cargo depois de três antecessores. A notícia de que ele voltará ao setor privado a partir de novembro, quando acaba seu mandato, foi recebida por muitos como um "alívio". Quem trabalha próximo a ele reclama da atuação centralizadora e de dificuldades de relacionamento. Conselheiros que preferem manter o anonimato criticam a falta de trabalho de equipe.

Quando indicado ao cargo, Badin era considerado um "garoto prodígio", apesar de ter sido rejeitado por 16 senadores na sabatina do Senado e recebido 27 votos favoráveis. Chegou à presidência aos 32 anos, depois de ter passado pela Secretaria de Direito Econômico (SDE) e pela promotoria do Cade.

A versão de que o ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, o teria convidado para permanecer no cargo, mas que Badin teria recusado por questões pessoais, como ter um filho pequeno e a esposa em São Paulo, não convence a muitos. Em conversas informais, ele já vinha citando esse fato como um impedimento, o que era lido como "plano B", caso não fosse reconduzido.

Uma fonte da Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae) do Ministério da Fazenda garante que seu nome não teria apoio do órgão em uma possível recondução ao cargo. Houve muita insatisfação no ministério quando Badin criticou o governo por fazer os bancos públicos baixarem os juros. Ele alegou que isso poderia desequilibrar a concorrência do setor.

Há insatisfação no Cade, por exemplo, quando Badin pede vistas de algum dos processos que estão em julgamento, o que deixa o trâmite em suspenso, e tempos depois volta a ser julgado sem qualquer recomendação extra. Segundo as fontes, ele teria atuado de forma isolada durante praticamente toda sua gestão.

Em 2008, quem concorria com Badin à presidência era o conselheiro Fernando Furlan, que segue no cargo. Agora, com o anúncio da desistência, poderia se pensar que chegou a vez de Furlan assumir a presidência. Mas as coisas não são tão simples, como comentou uma fonte do Cade. A fotografia atual é diferente da de dois anos atrás por conta do processo eleitoral.

Exaustão. Badin avaliou como "especulação" a versão de que seu mandato não será prorrogado porque ainda persistem as resistências à sua atuação no Conselho. Além dos motivos familiares, ele alega cansaço. "Estou é com exaustão de ideias e de entusiasmo. Já era a hora."

Ele argumenta, inclusive, que a sua recondução no cargo seria a "solução mais fácil" para o governo. "As resistências políticas pelas quais passei no primeiro mandato não teriam razão para existir agora. Eu seria uma solução natural". Badin rejeita ser rotulado como alguém com perfil assertivo e de difícil relacionamento. ''Não sei de onde vem essa avaliação. Talvez tenha ficado a fama de quando eu era procurador do Cade", avaliou.

"Isso é muito especulativo. Após oito anos de vida pública, a avaliação é a de que é preciso voltar-se para a família. A situação familiar está difícil e é muito cruel com um bebê novinho", disse, relatando que sua esposa e a criança chegam a viajar tarde da noite para que a família possa se encontrar nos finais de semana. "Não digo que foi um sacrifício patriótico, mas também não foi fácil. Sofri muitas injustiças."

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