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Conflitos no combate à inflação

O fantasma da inflação ressurgiu nos países emergentes, mas seria um erro supor que no caso brasileiro assistimos apenas a uma inflação que vem "de fora", empurrada somente pelos preços internacionais das commodities. O aumento dos preços das commodities agrava o quadro inflacionário no Brasil, mas é muito claro que o aquecimento da economia tem um importante papel na explicação da nossa inflação recente. Vários indicadores atestam este quadro e o mais eloquente, na minha visão, é a elevação dos preços dos serviços e dos bens não transacionáveis no mercado internacional (que nada têm a ver com os preços das commodities), e que se elevaram perto de 8% nos últimos 12 meses enquanto que o IPCA cresceu 6%. Estes preços são impulsionados pela baixa taxa de desemprego que já atingiu o menor nível desde que começou a ser apurada pelo IBGE.

AFFONSO CELSO PASTORE, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

O surto inflacionário que vivemos atualmente começou com o "ciclo político" eleitoral de 2010. Naquele ano o governo exagerou na expansão fiscal em um período no qual não mais eram necessárias quaisquer medidas contra cíclicas, e o Banco Central teimou em manter a taxa Selic constante quando já era claro o aquecimento da economia, e os riscos inflacionários decorrentes da economia internacional. Politicamente o governo Lula atingiu o seu objetivo, gerando em 2010 uma euforia provocada pelo crescimento econômico excepcional de 7,5%, ajudando a eleger o seu sucessor. Mas agora a conta está sendo apresentada ao novo governo.

Se o Banco Central tentasse trazer a inflação de volta à meta de 4,5% já em 2011, teria que colher uma recessão profunda, motivo pelo qual essa velocidade de ajuste não é recomendável. Teremos, por isso, de conviver com inflações ainda elevadas em 2011, trazendo-as para próximo da meta apenas ao final de 2012, o que exige o aperto da política monetária. Se o Banco Central tiver sucesso na sua "aposta" quanto à eficácia das medidas macroprudenciais recentemente postas em ação, poderá economizar um pouco no ciclo de elevação da taxa Selic. Porém, quer use mais intensamente as medidas macroprudenciais, quer use mais intensamente a elevação da taxa básica de juros, terá que colher um desaquecimento da economia, sem o que a inflação não retornará à meta nem mesmo nesse horizonte mais longo. Significa que depois de assistirmos a um crescimento de 7,5% em 2011, teremos que conviver com taxas de crescimento bem menores, que serão próximas de 4% ao ano (ou menos) quer em 2011, quer em 2012.

Politicamente o governo Dilma estará melhor se desacelerar o crescimento agora, combatendo a inflação e criando condições para crescer mais aceleradamente nos dois anos finais do seu mandato. Foi isso o que o presidente Lula fez no seu primeiro mandato, quando desaqueceu a economia para livrar-se da alegada "herança maldita" de seu antecessor. Desacelerou o crescimento nos dois anos iniciais para acelerá-lo nos dois anos finais, conseguindo reeleger-se. Apesar de não poder usar a desculpa da "herança maldita", é este cálculo político que pode levar o atual governo a aceitar a desaceleração do crescimento nos próximos dois anos, "arrumando a casa" para entrar em um ciclo de expansão mais forte nos dois últimos anos.

Mas nesta alternativa o custo político será mais elevado em 2011 e 2012. Se se curvar a estes custos o atual governo poderá optar por aceitar uma inflação mais elevada e um crescimento mais acelerado em 2011 e 2012, mas estaria comprometendo o crescimento nos dois anos finais do seu mandato. A opção mais racional é "ajustar agora para crescer depois", mas nem sempre esta "racionalidade" é a que impera.

Se o governo fosse capaz de realizar um ajuste fiscal mais forte do que o anunciado com o contingenciamento de gastos de R$ 50 bilhões poderia usar menos intensamente as medidas macroprudenciais e realizar uma elevação menor da taxa Selic. Com isso evitaria uma valorização cambial maior, mas não evitaria a desaceleração do crescimento econômico, que decorreria mais do aperto fiscal do que do aperto monetário. Entretanto, as amarras que permeiam os gastos só permitem reduções adicionais em áreas como investimentos e gastos sociais, que são prioritários para o governo.

A tarefa mais importante no combate à inflação cabe ao Banco Central. A âncora no regime de metas de inflação é a taxa de inflação esperada, cuja elevação tem de ser interrompida. As expectativas de inflação dependem: da percepção da sociedade sobre o aquecimento da economia; e da confiança na reação do Banco Central. Se a sociedade perceber que o Banco Central usará os instrumentos disponíveis na intensidade suficiente para cumprir o compromisso de trazer a inflação de volta à meta, as expectativas captarão a melhora, facilitando o controle da inflação. Mas se predominar a percepção de que o Banco Central busca taxas de inflação mais elevadas, como 5,5% ou 6% ao ano, por exemplo, as expectativas se distanciarão progressivamente da meta de inflação, elevando os custos em termos de perda de crescimento econômico. Por isso o Banco Central não pode perder a âncora, o que requer uma sinalização clara dos objetivos, e o uso dos instrumentos na dosagem necessária.

Por isso é preciso tomar cuidado com uma "promoção" precipitada das medidas macroprudenciais ao status de medidas eficazes no controle da demanda. Essas medidas não surgiram no mundo com a finalidade de substituir o instrumento monetário tradicional - a taxa de juros -, e sim com o objetivo de impedir o crescimento de bolhas, que são frequentes em recuperações cíclicas aceleradas. Nessas fases os bancos são levados a um otimismo excessivo, que os expõe a descasamentos entre ativos e passivos tornando - os vulneráveis a crises sistêmicas. Se as medidas macroprudenciais tivessem sido aplicadas quando a bolha dos preços dos imóveis se inflava nos EUA e em alguns países da Europa, os respectivos sistemas bancários estariam mais sólidos, e talvez não tivéssemos enfrentado a crise bancária de 2008. Por isso são medidas bem-vindas. Mas a sua finalidade é prudencial, e não predominantemente o controle da demanda.

O Banco Central pode e deve usar limitadamente as medidas macroprudenciais, que serão aplaudidas por todos aqueles que estão atemorizados com a hipótese infundada, na minha visão, de que uma "bolha de crédito" está em construção no Brasil. O sistema bancário brasileiro ainda tem graus baixos de alavancagem, o que o deixa distante desse risco, embora a desaceleração da economia traga uma elevação temporária da taxa de inadimplência, o que é natural. Terá de restringir-se ao objetivo que pode ser atingido por esse instrumento, que é a saúde do sistema financeiro, e não passar a usá-lo abusivamente para outros objetivos para os quais ele é menos eficiente. O crescimento acelerado da inflação e das expectativas impõe que a taxa de juros seja ajustada para cima, e desde que não é possível evitar o custo da desaceleração do crescimento, o melhor é pagar esse custo logo, para evitar que seja maior no futuro.

ECONOMISTA E EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL

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