Conglomerados são administrados como reinos

"Chaebol" é o termo coreano que define conglomerados como Samsung e Hyundai. São o coração da economia da Coreia do Sul e foram um dos pilares da política industrial que permitiu ao país sair da pobreza. Mas, apesar de estarem na vanguarda tecnológica, a maioria é administrada como um reino, com o patriarca ou seu sucessor no comando do grupo e seus filhos e genros como CEOs das filiadas.

O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2012 | 03h06

Na década de 50, os ditadores coreanos escolheram 30 famílias para capitanear o desenvolvimento do país. Essas famílias receberam maciço apoio financeiro, por meio de financiamentos, subsídios e reservas de mercado. Tornaram-se riquíssimas e algumas desviaram dinheiro público para a especulação financeira, mas geraram empregos e garantiram o crescimento econômico.

Segundo os críticos, a política industrial da Coreia do Sul, voltada para a indústria pesada, beneficiou desproporcionalmente os grandes grupos. Na década de 70, os dez maiores "chaebols" do país cresciam impressionantes 27,7% ao ano - 3,5 vezes mais rápido que o país, que avançava a uma média anual de 7,9%, uma das mais altas do mundo.

A mudança nesses grupos é espantosa. O Hyundai Group - que foi durante muitas décadas o maior "chaebol" da Coreia do Sul até ser desmembrado por seu gigantismo - surgiu em 1937 como uma pequena loja de arroz. Nos anos 70, o grupo crescia 38% ao ano. O Samsung Group, que hoje conta com 81 empresas afiliadas, foi fundado em 1938 como uma pequena loja.

Hoje existem 63 grandes "chaebols" na Correia do Sul. Esse tipo de organização não tem similar no Ocidente. A estrutura é baseada nos valores tradicionais do confucionismo, no amor filial e na lealdade, o que não impede disputas acirradas pelo poder. Ju Yung Chung, o poderoso fundador da Hyundai que morreu em 2001, obrigava seus filhos, que presidiam suas empresas, a chegarem às 4h50 da manhã.

A administração também é muito diferente da maneira como empresas americanas e europeias funcionam. Mesmo após as reformas promovidas por causa da crise asiática em 1997, ainda há grande flexibilidade para troca de capital e tecnologia entre as empresas do grupo e a diversificação horizontal dos conglomerados seria considerada por especialistas uma loucura.

Dia a dia. Na Coreia, empresas como Hyundai, LG e Samsung vão muito além dos produtos pelos quais são conhecidas em outros países e estão entranhadas no dia a dia das pessoas. Um coreano típico pode acordar com um despertador da Daewoo, escovar os dentes com uma pasta LG, assistir uma TV da LG, comer pão de uma padaria filial a Samsung, vestir um terno feito pela Samsung, dirigir um carro da Hyundai e trabalhar em um computador Daewoo.

Ou, se preferir, pode comprar tudo de uma mesma empresa, já que todas produzem de tudo. E é o que costuma acontecer com os funcionários dos conglomerados. O conceito de fidelidade filial que dita os rumos no topo da organização também atinge as bases. Um funcionário da Hyundai não pede emprego na Daewoo e vice-versa. Até mesmo no ônibus, cada um se senta do lado do seu "time".

Ao mesmo tempo em que garantiram empregos e desenvolvimento econômico para o país, os "chaebols" cobraram seu preço da população coreana.

A mobilidade entre as empresas é reduzida até pela questão cultural, as jornada são longas e durante muito tempo houve casos de condições precárias de trabalho. / R.L.

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