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Os próximos anos serão muito importantes para o Brasil; será preciso uma liderança exemplar

Alberto Fishlow, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2018 | 05h00

Os eleitores brasileiros, ao que parece, elegerão Jair Bolsonaro (PSL) como presidente no fim do mês. Um milagre ainda pode ocorrer e Haddad vencer, mas pesquisas recentes sugerem o oposto. Agora, o Brasil vai se igualar a outros países que agiram do mesmo modo: Hungria, Egito, Rússia, Filipinas, Turquia e outros. Por que a democracia está sob ataque?

Uma razão clara é a globalização exigindo cooperação e compartilhamento de benefícios para exclusão de uma aparente vantagem nacional. A livre movimentação de pessoas, capital e ideias são um anátema para muitos que se lembram de um passado mais feliz quando tarifas, taxas de câmbio, oferta de moeda, juros, etc. eram manipulados em favor de ganhos reais, mesmo que temporários.

Outro fator é o ressentimento contra a liberdade individual que se ampliou de várias maneiras nos últimos anos: direito ao aborto, opção sexual, igualdade racial, liberdade pessoal, limitações do poder político, restrições do poder militar, e outros. Regimes que restringem a decisão aos ricos e socialmente poderosos são preferíveis à igualdade. John Locke domina Jean Jacques Rousseau.

E temos também a ascensão das redes sociais. Hoje notícias falsas se tornam verdades e são disseminadas e se tornam determinantes. Dados pessoais são distorcidos, mas reportados. Líderes não hesitam em limitar o acesso à informação. Facebook, WhatsApp, Google, Twitter são veículos de propaganda. A vantagem financeira diminui nas campanhas eleitorais. Não há unidade, mas ao contrário, a discórdia.

A concentração de poder nas mãos do Executivo altera e distorce os papéis do Legislativo e do Judiciário. Nesse aspecto há evidentes diferenças nacionais. O excesso de partidos políticos no Brasil atingiu um nível recorde, ao passo que em outros casos as eleições são nominais e não reais. A população, obcecada pelos medos, prefere a estabilidade. Os Executivos quase sempre têm pouca experiência ou fé no povo. Os legisladores cedem, preferindo o poder aos princípios. Os juízes cedem, ou substituições adequadas são encontradas. 

O Poder Executivo com frequência é conduzido por pequenos grupos. Líderes têm suas famílias como base de apoio ou dependem de um número limitado de conselheiros. 

Os próximos anos serão muito importantes para o Brasil. Somente uma liderança exemplar produzirá aumento das poupanças domésticas – significando menos consumo – e subsídios para mais investimento. 

O comércio internacional precisa se expandir, não apenas por meio das manufaturas, mas beneficiado também pela vantagem comparativa na área agrícola já alcançada. A inflação, tendo declinado, tem de continuar a ser uma prioridade política. E, sobretudo, os esforços imediatos não serão suficientes. Será necessário um trabalho contínuo nos próximos anos para reduzir o nível da dívida bruta em relação à renda e ao déficit fiscal.

Um novo boom das commodities é improvável. Os juros estão subindo. O preço do petróleo cairá com o avanço do gás de xisto e os investimentos na exploração, embora necessários, não resultarão no grande superávit planejado pelo Brasil. Existe a probabilidade de um crescimento mais lento na China, como também em países desenvolvidos.

Nessas circunstâncias haverá pressão para inovar politicamente. São enormes as possibilidades de encontrar maneiras para resolver os problemas usando soluções imaginativas que não funcionam nem mesmo no médio prazo. 

A América Latina é constantemente tentada, e fracassou muitas vezes, a fazer previsões de eventuais resultados. Sempre existe a esperança de que a economia política envolva muitos níveis de liberdade e opções. Infelizmente, não é este o caso. 

Indo direto ao ponto, a maneira de sair da intolerável situação atual é clara. O novo presidente terá de explicar publicamente o que pretende. Deve opor resistência a um cerceamento da liberdade do Judiciário para prosseguir com as investigações no âmbito da Lava Jato. Igualmente, o Brasil precisa se tornar uma única nação novamente. Juntos, a crise pode ser vencida. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

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