Dida Sampaio/Estadão - 23/7/2021
Dida Sampaio/Estadão - 23/7/2021

Congresso deveria ser a casa da procura da solução, mas se tornou o locus do atraso

Se antes a corrupção era concentrada nas grandes empreiteiras, hoje o financiamento de campanha se dá à luz do dia através do Orçamento, onde os parlamentares lutam por migalhas na forma de verbas para uma miríade de pequenas obras

Fabio Giambiagi*, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2021 | 04h00

“Em um país pobre e sem poupança, o dinheiro não pode ser usado em porcaria”, dizia Eliezer Batista, um dos grandes homens do País na segunda metade do século 20. Peço ao leitor que relacione a frase com o que iremos discutir a seguir.

O investimento em infraestrutura é uma das peças centrais do desenvolvimento de um país. Ele representa demanda agregada, ou seja, ativa o Produto Interno Bruto (PIB) quando é realizado, mas ao mesmo tempo amplia a capacidade de crescimento da economia. O gasto na construção de um porto ou de uma estrada hoje redundará numa maior capacidade de exportação ou de movimentação de cargas amanhã. É tudo de bom.

Há anos nós, os economistas, debatemos como fazer para aumentar o investimento e, como parte deste, o investimento público. E o que o Congresso Nacional fez neste contexto? Ampliou o espaço das emendas parlamentares. Meu amigo Marcos Mendes tem ressaltado este ponto nos últimos meses, tendo escrito recentemente que tais emendas “vieram para ficar e vão gerar problemas (...) Teremos cada vez mais pulverização de recursos em emendas paroquiais, falta de dinheiro para investimentos de grande porte definidos pelo Executivo e pressão por mais gastos” (Estrago duradouro, Folha de S.Paulo, 8/5/2021). Que fique claro: essas emendas são uma conspiração contra o futuro. O Congresso, que deveria ser a casa da procura da solução para as grandes questões nacionais, tornou-se assim, nos últimos tempos, o locus do atraso. Curiosamente, a justa revolta nacional contra a corrupção das grandes obras como forma de financiamento de campanhas eleitorais terá produzido, na prática, um monstrengo. Se antes tínhamos a corrupção concentrada nas grandes empreiteiras, hoje o financiamento de campanha se dá à luz do dia através do Orçamento, onde os parlamentares, transmutados em vereadores lotados em Brasília, lutam por migalhas (multiplicadas por 513!) na forma de verbas para uma miríade de pequenas obras, sem nenhum sentido global. No fim, ficamos com os mesmos parlamentares – e sem as grandes obras.

O dinheiro, então, se perde. Para que o leitor entenda o drama, é como se, num prédio que sofre por falta de luz porque tem um gerador de 1967 que precisaria ser renovado, o síndico e o conselho decidissem “torrar” o dinheiro na instalação de mais 20 interruptores por apartamento – dos quais 3 ou 4 podem fazer sentido, mas que no conjunto não servem para nada. Somos um país gigante, conduzido por anões. Os anões do Orçamento. 

*ECONOMISTA

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