Rick Wilking/Reuters
Rick Wilking/Reuters

Conheça a consultoria que gerencia bilhões de dólares em caridade

Hoje é norma que os filantropos tratem doações como investimentos, monitorando por meio de consultorias os projetos que criam

The Economist, O Estado de S. Paulo

01 de janeiro de 2022 | 05h00

Nos últimos 18 meses, muito se ouviu sobre MacKenzie Scott, a filantropa bilionária e ex-mulher de Jeff Bezos, da Amazon. Ela doou generosamente a instituições de caridade na linha de frente da pandemia, incluindo bancos de alimentos, escolas e programas de saúde infantil. Pouco conhecida, porém, é a consultoria que ajudou a distribuir quase US$ 9 bilhões em nome dela: o grupo Bridgespan.

Uma consultoria sem fins lucrativos, a Bridgespan surgiu há cerca de 20 anos, a partir da Bain & Company, consultoria de gestão, por iniciativa de três pessoas, incluindo um ex-sócio. O que começou como um punhado de pessoas inteligentes trabalhando em um pequeno escritório em Boston é agora uma operação global de 329 pessoas com US$ 59 milhões em receitas operacionais em 2020. 

Eles aconselharam alguns dos maiores doadores do mundo, incluindo a Fundação Bill & Melinda Gates, a Fundação Ford e a Bloomberg Philanthropies. A lista de grupos sem fins lucrativos com os quais trabalha não é menos impressionante, incluindo centros de pesquisa de ponta, como a Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health e instituições de caridade de renome como a YMCA.

A Bridgespan tem duas linhas principais de negócios. Aconselha doadores ricos, estudando seus interesses e ajudando-os a criar uma estratégia de doação, pesquisando e fazendo a devida diligência em organizações em potencial para as quais possam doar. Também ajuda grupos sem fins lucrativos a operar com mais eficiência. Além disso, está envolta em mistério. As únicas informações públicas sobre a empresa estão contidas em formulários fiscais e comentários estranhos de antigos clientes. 

Em dezembro, MacKenzie Scott anunciou planos para um novo site, com um “banco de dados que se possa pesquisar” detalhes sobre seu processo de decisão. Mas muitas pessoas ricas gostam de sua privacidade – e os “Bridgespanners” sabem ficar calados.

Trajetória

A história da Bridgespan é, em parte, a história do filantrocapitalismo, movimento que começou por volta da virada do milênio, quando bilionários começaram a aplicar princípios de negócios às suas doações. Agora é norma os filantropos tratarem doações como investimentos, criando fundações, monitorando os projetos e quantificando o retorno de seu dinheiro. Toda uma indústria surgiu para apoiar esta “filantropia de risco”, incluindo consultorias, como Bridgespan, Rockefeller Philanthropy Advisors e Arabella Advisors, assim como pesquisadores, redes de doadores e provedores de dados, como o Candid e o National Center for Family Philanthropy (NCFP).

MacKenzie Scott transformou esse modelo. Ela adiou a criação de uma fundação, terceirizando o processo de seleção de beneficiários, o modo de contatá-los e a distribuição do dinheiro. “Isso sinaliza algo novo, que está empregando bilhões de dólares por meio de intermediários”, disse Nick Tedesco, chefe do NCFP. A Bridgespan, com muito poder e grandes contratos, tem grande responsabilidade.

O primeiro desafio para qualquer organização tentando decidir quem merece uma doação multimilionária é ter certeza de que ela tem o quadro completo fazendo um bom trabalho em comunidades pobres. A Bridgespan alardeia seus escritórios na Índia e na África do Sul, cheios de funcionários locais. Contrata quase duas vezes mais mulheres do que homens e menos da metade de sua equipe é branca. Nidhi Sahni, que dirige a consultoria americana da Bridgespan, diz que a empresa se certifica de não se limitar aos “suspeitos de sempre”. Ela é inflexível, por exemplo, ao considerar que a proficiência em inglês não deve determinar se um potencial beneficiário chega ao radar da empresa.

O próximo obstáculo é lidar com potenciais conflitos de interesse. Consultores que aconselham pessoas ricas sobre como doar seu dinheiro geralmente também trabalham com grupos sem fins lucrativos que lutam por fundos. William Schambra, do centro de estudos Hudson Institute, teme que os líderes dessas organizações possam se sentir compelidos a contratar a Bridgespan para obter conselhos, de modo que possam vir à mente deles quando a consultoria recomendar possíveis beneficiários. 

A notícia de que o grupo está aconselhando Scott, que diz que planeja doar sua fortuna de quase US$ 60 bilhões “até que o cofre esteja vazio”, só aumenta a pressão. “Se eu tivesse uma organização sem fins lucrativos, estaria batendo na porta deles”, diz Schambra.

A resposta da Bridgespan é simples: “Considerando as organizações incríveis com as quais trabalhamos, algumas com nomes familiares, seria surpreendente não ter algumas delas chamando a atenção de doadores.” William Foster, sócio-gerente do grupo, deixa claro que não pode conseguir um almoço para um líder sem fins lucrativos com um doador de renome. 

Em sua política de conflito de interesses, a Bridgespan diz que “não faz apresentações a clientes doadores ou compartilha informações confidenciais sobre suas prioridades ou estratégias”. Nem promove organizações sem fins lucrativos para doadores em potencial. Mesmo assim, um em cada 20 grupos que recebeu financiamento de um filantropo que assessora também foi cliente nos cinco anos anteriores. A lista de organizações para as quais Scott doou dinheiro inclui vários clientes da Bridgespan.

Lucro?

Existe outro grande conflito. A Bridgespan, como muitos intermediários no mundo da filantropia, é uma organização sem fins lucrativos. De certa forma, isso é surpreendente. Embora a Bridgespan não divulgue seu modelo de preços, pesquisadores que cobrem o setor filantrópico dizem que suas taxas podem ser pesadas. E ela compete por projetos com consultorias com fins lucrativos, como a McKinsey.

No entanto, as taxas da Bridgespan cobrem cerca de 75% dos custos e, como muitas organizações sem fins lucrativos, depende de doações para financiar seu trabalho. As consequências podem ser complicadas. Junto com grupos que trabalham com educação, saúde, igualdade de gênero e direitos dos homossexuais, a lista de donatários de Scott inclui uma série de intermediários no setor filantrópico – incluindo o próprio grupo Bridgespan. TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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