Conheça estratégias diferentes para investir em ações

Atividade de recorrer ao mercado financeiro para buscar lucros tem ficado mais popular; conheça os tipos de 'trader' para operar na Bolsa, com estratégias que vão de curtíssimo a longo prazo

Gabriel Roca, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2019 | 05h00

Ainda que a profissão tenha perdido muito de seu apelo estético – dos infindáveis operadores pendurados em linhas telefônicas para o silêncio dos gráficos despontando nas telas –, a atividade de recorrer ao mercado financeiro para buscar lucros tem ficado mais popular. Atualmente, qualquer pessoa com uma conta em corretora pode comprar e vender ações do conforto da sua casa e há quem faça disso seu ganha-pão. E o que soa como uma oportunidade de ficar rico de maneira rápida requer também estudo e cautela, já que os riscos são elevados.

 

Day-trade

A grosso modo, há três diferentes perfis de investidor para o mercado de ações, segundo a classificação de analistas. Aquele que compra e vende os papéis para obter um lucro no curto prazo e faz, por vezes, mais de uma operação no mesmo dia é o chamado day-trader. Ele baseia suas decisões principalmente na análise técnica, que consiste na observação de gráficos para tentar antecipar as variações de curto prazo do mercado.

Segundo Rafael Panonko, chefe de análise da Toro Investimentos, esse investidor é aquele que não está muito preocupado com os fundamentos de uma empresa, mas sim com a oportunidade de ganhos. Segundo ele, o perfil demanda mais engajamento por parte do investidor, já que exige acompanhar o mercado bem mais de perto.

“É preciso muita estratégia e disciplina. Não é uma receita de bolo, fácil de seguir para ganhar dinheiro”. Ele acredita que o investidor que queira ter sucesso nesse tipo de atividade precisa iniciar aos poucos, para ir assimilando cada estágio de evolução em seu processo de aprendizagem e se adaptar ao mercado.

Cleber Rocha, ex-operador de Bolsa, hoje dá aula para pessoas que desejam viver de day-trade. Ele afirma que há, entre seus alunos, bons exemplos de que é possível viver disso. Segundo ele, a disciplina é a palavra chave para qualquer investidor, que precisa, antes de correr riscos maiores, muito autoconhecimento e iniciar com quantias compatíveis às tolerâncias de perdas.

“Precisa ter uma postura profissional. É uma profissão, e como qualquer outra, requer estudo, dedicação e muito preparo”, afirma.

Ele percebeu um forte aumento na demanda por seus cursos de 2017 para cá. “Quando a Bolsa estava em 41 mil pontos, em 2016, pouca gente se interessava. Hoje, a procura aumentou muito”, conta.

Swing trade

Outro tipo de investidor é aquele que não necessariamente faz operações diárias, mas busca uma valorização de suas alocações em alguns dias. A modalidade é conhecida no jargão dos investidores como swing trade. Neste tipo de operação, quem compra os papéis mantém uma posição de até 10 dias e também se utiliza de análises gráficas para tomar decisões.

É o caso de Bruno Alves de Almeida, formado em marketing. Como possui outras atividades profissionais, ele não precisa acompanhar o mercado com tanta frequência. No entanto, conta que monitora o suficiente para ‘não levar grandes sustos’. Ele possui uma carteira de dividendos, focada no longo prazo e outra composta de mais quatro empresas, que utiliza para obter lucros em um prazo menor.

Vale lembrar que há vantagens e desvantagens e diferentes riscos em cada tipo de atividade e, segundo os especialistas, faz parte da tarefa de quem quer entrar no mercado entender qual é a estratégia que faz o investidor se sentir mais confortável.

Position trade | Buy and hold

Também há estratégias de mais longo prazo. São elas o position trade, na qual o investidor fica por semanas, ou até meses, esperando que suas operações terminem em lucros.

E há também o buy and hold. Nessa modalidade, o investidor acredita que uma determinada empresa vá crescer e apresentar bons resultados no futuro, e não se preocupa com prazos ou com possíveis variações negativas nos papéis durante o percurso.

A estratégia é mais baseada em um outro tipo de análise – a fundamentalista –, na qual é realizado um estudo minucioso sobre o balanço da empresa e suas projeções de lucros futuros.

Para quem prefere deixar para os profissionais

O poupador que deseja surfar na maré de expectativas positivas na Bolsa sem tomar decisões ativas de compra e venda de ações também possui alternativas. Segundo Macedo, da Easynvest, uma opção interessante é buscar um bom fundo de ações. Assim, a gestão da carteira será feita por um profissional com amplo conhecimento de mercado.

Outra sugestão do especialista são os fundos que replicam o desempenho de índices, ou ETFs (Exchange Traded Funds). O investidor pode, por exemplo, comprar um fundo que replique o desempenho do Ibovespa. Com isso, há uma diluição de riscos, já que, com apenas uma ação e com uma aplicação inicial baixa – abaixo de R$ 100 –, o investidor tem acesso a uma carteira bastante diversificada.

Como era ser trader antigamente?

Paulo Machado Ayres, que trabalha como autônomo, está no mercado financeiro há 40 anos. Trabalhou nos pregões da Bovespa e passou por todas as etapas da carreira de um operador profissional. Ele lembra que a palavra pregão, como é até hoje denominado o dia de negociações no mercado financeiro, vem da palavra apregoar, ou seja, "anunciar em voz alta ou tornar de conhecimento público".

Ele lembra de pregões na Bolsa de Valores em que havia mais de mil pessoas trabalhando em inúmeras linhas telefônicas ao mesmo tempo. Ayres explica que, para comprar uma ação, o cliente ligava para sua corretora e entrava em contato com o operador de mesa. Ao ouvir o pedido, o funcionário ligava para o operador do pregão, que se encontrava dentro da Bolsa.

Ali o operador do pregão informava ao operador da mesa como estavam os preços. “R$ 23,30 compra, R$ 23,40 venda, por exemplo”. Era o livro de ofertas, que você pode encontrar atualmente na tela da qualquer plataforma de investimentos, o home broker.

Segundo Ayres, o pregão era dividido em setores. Ao receber a ordem para comprar ou vender um determinado papel, ele ia até a roda e via o que os outros operadores estavam oferecendo. “Por exemplo, em uma roda tinha um operador comprando papel e três vendendo. A estratégia era o comprador ficar quieto ou somente apregoar a venda, assim, os preços acabavam caindo, pela demanda menor”.

Assim que a negociação era acordada – o vendedor e o comprador acertavam o preço – um gesto, como o de fechar uma porta com uma chave era feito, ou era anunciado em alto e bom som. “Se você gritou ali, o negócio estava fechado. Não tinha como voltar atrás”, conta.

Segundo ele, em casos de discórdia, havia ali o diretor do pregão, um funcionário da Bolsa. Acompanhado de uma testemunha, o reclamante ia ali e o negócio precisava ser honrado. “Palavra de operador é assim. Se eu falo que compro seu carro e pago amanhã, amanhã o dinheiro vai estar na sua conta”.

Após a boleta ser assinada, era depositada em um recipiente, que acabava alimentando o sistema da Bolsa. No meio do dia e pelas tardes, eram conferidas as ordens das corretoras com o mapa geral do pregão.

Apesar da operação parecer difícil, Ayres conta que a velocidade de todo o processo era bem satisfatória. Ele ainda acredita que o investidor, por estar sempre conectado ao pregão pelo operador de mesa, possuía uma assessoria para seus investimentos mais detalhada.

Ele crê que, atualmente, por possuir altos custos e uma política de regras mais restritiva, o cliente não possui tanta facilidade de entrar em contato com seu assessor para tomar uma decisão de investimento.

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