Evan Vucci/AP
Evan Vucci/AP

Conhecendo o novo chefe

Ainda não dá para saber se as empresas americanas terão motivos para se alegrar ou se apavorar com Donald Trump

The Economist

14 Novembro 2016 | 06h00

Apesar de ter se apresentado para os eleitores como um empresário capaz de pôr os Estados Unidos nos eixos, Donald Trump é um outsider no setor privado americano. Para os padrões ciclópicos das corporações do país, o magnata comanda uma operação comercial pouco mais que raquítica: até hoje, eram poucos os grandes executivos que o viam como um igual ou aliado. Ele “não tem amigos” na elite empresarial, disse há poucas semanas, sem esconder o desdém, um barão do seguimento de private equity, que agora provavelmente estará entre os executivos que ficarão se acotovelando em frente à Trump Tower, na Quinta Avenida, caprichando nos salamaleques para tentar cair nas graças do novo chefe e sondar suas prioridades enquanto ele não se muda para a Casa Branca.

Os mendicantes de terno e gravata logo perceberão que a visão de Trump sobre o setor corporativo se caracteriza por três traços contraditórios. O presidente eleito quer eliminar os entraves que tolhem a força bruta do empresariado americano, impedindo-os de pôr a economia em marcha forçada. Por outro lado, o republicano também é um populista que acha que a economia vem sendo manipulada em favor de grandes grupos e apaniguados de Washington. E o protecionismo é uma de suas principais bandeiras. Nos próximos meses, essas três características levarão os empresários americanos a vibrar de entusiasmo, ficar com o pé atrás e tremer nas bases, respectivamente.

Comecemos pelas coisas que farão a alegria dos executivos. As propostas tributárias de Trump foram ridicularizadas por economistas, mas, em termos gerais, serão muito bem aceitas pelas empresas. O presidente eleito disse que pretende reduzir a carga tributária do setor privado, atualmente em cerca de 40%, para 15%, eliminando, ao mesmo tempo, uma série de isenções que permitem a algumas empresas não pagar impostos. Trump também quer criar condições para viabilizar a repatriação de aproximadamente US$ 2 trilhões em lucros que as companhias americanas mantêm no exterior, sem que isso pese no bolso delas. Uma anistia tributária ou uma grande redução na alíquota a ser recolhida estimularia as empresas a repatriar uma montanha de recursos.

A ideia de promover uma guerra à burocracia também fará sucesso entre os executivos. Em setembro, Trump foi ovacionado ao falar sobre o assunto para uma plateia formada por grandes empresários nova-iorquinos. A revogação da lei que instituiu o Obamacare pode ajudar as pequenas empresas, que se queixam de serem sufocadas pelas exigências burocráticas impostas pelo dispositivo. E, se o republicano for bem-sucedido em sua intenção de garrotear as autoridades ambientais do país, setores de atividade que são grandes emissores de carbono, incluindo os de petróleo, gás e carvão, devem passar a receber tratamento mais indulgente. É possível que o secretário de Energia de Trump seja Harold Hamm, pioneiro na produção de petróleo e gás natural, na Dakota do Norte e em outros Estados, por meio da controversa técnica de fraturamento hidráulico. A realização de obras de infraestrutura também proporcionará grande satisfação ao empresariado. Não há executivo que não reclame das condições precárias das estradas e aeroportos americanos.

Se a redução da carga tributária, a desregulamentação e os investimentos em infraestrutura são coisas que agradarão tanto as menores empresas, como as maiores, estas últimas devem estar preocupadas com o segundo elemento que marca a visão de Trump sobre o setor privado: a ideia de que a economia americana está sujeita a manipulações e distorções que resultam em prejuízos para consumidores e trabalhadores. Muitos acreditavam que, se tivesse vencido a eleição, Hillary Clinton tentaria reforçar o aparato antitruste dos EUA, a fim de combater a queda na concorrência.

Durante a campanha, Trump foi ambíguo em relação à questão. Em outubro, o republicano se manifestou contrariamente à compra da Time Warner pela AT&T, uma vez que o negócio de US$ 109 bilhões produzirá, em sua opinião, concentração excessiva no setor de mídia. Por outro lado, não se mostrou tão preocupado com os preços elevados praticados pela indústria farmacêutica.

Políticas que estimulem a competição e combatam privilégios fazem todo o sentido. O risco, porém, é que Trump transforme isso num enfrentamento populista com as grandes corporações, coisa que deve preocupar, em especial, dois grandes centros de poder na economia americana: Wall Street e Vale do Silício. Trump quer revogar a intrincada lei Dodd-Frank, que foi aprovada depois da crise financeira de 2008 para reforçar a regulamentação dos bancos. Os executivos do setor a detestam. Mas o republicano também propôs que os bancos de investimento sejam separados dos bancos comerciais e de varejo, coisa que seria um pesadelo para instituições como o JPMorgan Chase, que penaram para se adaptar às novas regras.

O Vale do Silício é outro potencial foco de tensão. Gigantes como Facebook e Google, que muitas vezes adotam posições que beiram a arrogância, durante a campanha se mostraram abertamente hostis a Trump. Até o momento, os ataques do presidente eleito se concentraram no que ele chama de “tendências monopolistas” da Amazon. Mas não é difícil imaginá-lo obrigando a Apple a desbloquear os iPhones de seus consumidores por motivos de segurança nacional. Isso para não falar que a visão liberal e disruptiva que o setor de tecnologia tem da economia americana provavelmente entrará em rota de colisão com as tendências mais xenófobas de Trump.

Apesar disso, é o terceiro aspecto da atitude do presidente eleito em relação ao setor privado, seu protecionismo, que mais prejuízo pode causar. De meados da década de 70, quando Trump fechou seu primeiro grande negócio – a construção do Hyatt Hotel no coração de Manhattan –? para cá, as corporações americanas só fizeram intensificar suas aventuras em terras estrangeiras: atualmente, 44% do faturamento das companhias incluídas no índice S&P 500 é gerado no exterior. Empresas globais serão pressionadas a aumentar a produção fabril no país. Durante a campanha, Trump criticou duramente a Ford e a fabricante de alimentos Mondelez por gerarem poucos empregos nos EUA. Eventuais guerras comerciais e aumentos nas tarifas de importação podem produzir gargalos nas cadeias de suprimento: a indústria automobilística americana depende sobremaneira de fornecedoras mexicanas de autopeças. Além disso, se Trump impuser tarifas às importações de produtos chineses, como disse que faria, é de se esperar que a China reaja com restrições às atividades das multinacionais americanas que atuam em seu território, com vendas que chegam a US$ 300 bilhões por ano.

Muitos executivos americanos tentarão se convencer de que, por maiores que sejam os defeitos de Trump em outras áreas, ele pelo menos tem intimidade com o mundo dos negócios. De fato, o presidente eleito é alguém naturalmente mais aberto aos interesses e necessidades das empresas do que Obama ou Hillary. Em contrapartida, também tem impulsos mais intervencionistas: pretende usar as corporações americanas para alavancar seu projeto de “renascimento nacional”. Em sua primeira carreira, como autointitulado magnata da construção civil, Trump não deixou grandes marcas na América corporativa. Na segunda, como político, pode causar impacto profundo.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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