José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

'Conseguimos entregar em dois anos o plano para cinco', diz presidente do conselho do Grupo Big

Executivo, que também é sócio-diretor da Advent International, multiplicou por quatro o investimento inicial que fez no Big - cerca de R$ 1,6 bilhão

Entrevista com

Patrice Etlin, sócio-diretor do Advent na América Latina e presidente do conselho do Big

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 05h00

Um dos maiores investidores financeiros no Brasil, o fundo de private equity (que são aqueles que compram participações em companhias) Advent International fez uma breve passagem pelo Grupo Big, que durou três anos. O período, contudo, foi intenso e marcado pela reestruturação da rede de supermercados até então controlada pelo gigante norte-americano Walmart. Depois de mudar o nome, a direção, fazer conversão de lojas e implementar a digitalização, a empresa voltou aos holofotes do mercado quando abriu seus números ao tornar público seus planos de abertura de capital, comenta o sócio-diretor do Advent na América Latina e presidente do conselho do Grupo Big, Patrice Etlin. Segundo ele, o desinvestimento veio mais rápido do que o de costume porque o resultado também foi célere. “Conseguimos entregar em dois anos o plano para cinco”, comenta. 

Em um prazo meteórico, o fundo norte-americano fez multiplicar em cerca de quatro vezes seu investimento inicial da ordem de R$ 1,6 bilhão, de acordo com os dados públicos que constam no prospecto da oferta inicial de ações (IPO, pela sigla em inglês) do Big, transação que com a venda foi cancelada. 

O Advent, que captou ano passado um fundo de cerca de R$ 11 bilhões para investir na América Latina, ingressou recentemente no Brasil no grupo dono da Kopenhagen. Por aqui, possui ainda na carteira empresas como a companhia de tecnologia CI&T e a Fortbrás, rede de varejo de autopeças por atacado.

O Advent comprou o controle do Walmart em 2018 e a venda veio apenas três anos depois, algo que chamou atenção. O que aconteceu de diferente?

A gente vem olhando esse setor desde 2014, porque naquele ano estávamos em um início de recessão e começamos a olhar setores mais defensivos. Chegamos a olhar uns 60 ativos. A conversa com o Walmart começou em 2016 e quando compramos, em 2018, já tínhamos um plano bem claro do que gostaríamos de fazer. Fizemos um turnaround (reestruturação) operacional bastante relevante, mas quando entramos já estávamos com o time, estratégia e um plano meticuloso prontos. Já sabíamos, inclusive, que iríamos abandonar o nome (Walmart). Os resultados vieram muito mais rápido do que a gente esperava e, no final de 2020, já podíamos levar a empresa para o mercado. Conseguimos entregar em dois anos um plano de cinco. Nossos números se tornaram públicos e surpreendemos o mercado com o tamanho que a empresa estava.

E como foram as negociações com o Carrefour?

Quando os números se tornaram públicos, o turnaround obviamente abriu os olhos do Carrefour, que não estava enxergando anteriormente o que a gente vinha entregando. As conversas com o Carrefour começaram no início do ano, quando ainda estávamos conduzindo o IPO, e aceleraram a partir do Carnaval. Acreditamos que bastante já foi feito, mas que ainda há muito para fazer. Nós mostramos o potencial, mas a margem está aquém até mesmo olhando o Carrefour, que era nosso benchmark. E ainda temos posição e agora seremos o terceiro maior acionista do Carrefour, atrás da Península (grupo de investimentos do empresário Abílio Diniz). Acabamos tendo uma realização mais cedo do que a gente esperava, mas ainda quero estar nesse jogo.

E como o Advent vem olhando oportunidades de investimento no Brasil?

Tecnologia é um tema importante. Quando vendemos a Easynvest, tivermos mais interessados, mas escolhemos o Nubank para ter uma posição no banco digital(parte dos recursos recebidos foi em ações). Temos desde 2019 um investimento na CI&T, que é uma empresa que assessora a transformação digital das companhias, que está explodindo e que é um candidato a um IPO na Nasdaq (bolsa de valores nos Estados Unidos, conhecida por abrigar empresas de tecnologia). E tem a Kopenhagen, que mesmo com lojas fechadas, tem marcas fortes, que vai muito bem no digital, e, mesmo na pandemia, está apresentando resultados muito bons. Em tecnologia temos um pipeline bem ativo.

E o varejo, que é um setor que o Advent sempre investiu?

A agenda do varejo é super relevante para nós e continua sendo. Acabamos de captar um fundo que ainda não começamos a investir.

E como está hoje investir no Brasil?

O investidor que está conosco está acostumado à volatilidade. Uma das coisas que tenho certeza é que vai ter volatilidade. São investidores acostumados e confiam na gente. Hoje os fundos são cobrados para entregar resultados absolutos. Existe ainda uma preocupação grande do investidor europeu com as questões ESG (ambiental, social e de governança), mas isso sempre foi algo que endereçamos na carteira. 

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