Jason Lee/Reuters
Em meio a uma guerra comercial com a China, EUA vem pressionando para que a Huawei seja banida do processo de licitação da rede 5G no País. Jason Lee/Reuters

Conselheiro de segurança dos EUA diz que Huawei terá acesso a dados do País se for escolhida para 5G

Robert O’Brien disse que a chinesa usa ataques cibernéticos para roubar propriedade intelectual em todo mundo e recomendou que Brasil adote fornecedores 'confiáveis'

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2020 | 18h39
Atualizado 20 de outubro de 2020 | 15h22

BRASÍLIA - O conselheiro de Segurança dos Estados Unidos, Robert O’Brien, disse que se o Brasil escolher a empresa chinesa Huawei para implantação da tecnologia 5G no País, os dados do governo e de empresas brasileiras poderão ser “decifrados” pelos chineses.

Em visita ao Brasil, o conselheiro fez a afirmação em reunião na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), à qual o Estadão/Broadcast teve acesso. No evento, que teve a participação virtual de cerca de 70 empresários, O’Brien recomendou “fortemente” que os parceiros dos norte-americanos adotem fornecedores “confiáveis”. 

“Se vocês terminarem com a Huawei na sua rede 5G, haverá ‘backdoors’ e a capacidade de decifrar quase todos os dados que são gerados em qualquer lugar do Brasil, seja pelo governo, na frente de segurança nacional, seja por empresas privadas em suas habilidades de inovar e desenvolver novos produtos”, afirmou. “Backdoors” ou “porta dos fundos”, em inglês, é o método usado para ter acesso às informações dos usuários contornando medidas de segurança. 

Espionagem

O conselheiro acusou a China de usar ataques cibernéticos para roubar propriedade intelectual em todo o mundo e disse que os Estados Unidos abrem um novo caso de espionagem contra a empresa a cada 10 horas. “Estamos preocupados que a China vá buscar alvos que não sejam tão difíceis como os dos EUA. Estamos preocupados que a China se volte cada vez mais para os países como o Brasil, especialmente se eles conseguirem sua rede 5G”, completou.

De acordo com O’Brien, os Estados Unidos podem trabalhar conjuntamente com o governo brasileiro para defender o país dos ataques cibernéticos. “Nós podemos trabalhar juntos contra países que irão roubar ao invés de comprar ou pagar pela nossa tecnologia. Acredito que vamos trabalhar próximo dos militares brasileiros e do governo brasileiro para defender o Brasil no mundo cibernético. 

Em meio a uma guerra comercial com a China, os Estados Unidos vêm fazendo forte campanha contra a Huawei e pressionam, desde o ano passado, para que ela seja banida da licitação para escolha de empresas para implantação da rede 5G no País.

Potencial

A tecnologia 5G é a quinta geração das redes de comunicação móveis. Ela promete velocidades até 20 vezes superiores ao 4G. Em ambiente controlado, as redes 5G podem ter velocidades de até 1 gigabit por segundo (Gbps). Assim, permite um consumo maior de vídeos, jogos e ambientes em realidade virtual. Além disso, promete reduzir para menos da metade a latência, tempo entre dar um comando em um site ou app e a sua execução – dos atuais 10 milissegundos (ms) para 4 ms. Em algumas situações, a latência poderá ser de 1 ms, importante, por exemplo, para o desenvolvimento de carros autônomos. 

Em visita ao Brasil, o conselheiro terá na próxima terça-feira, 20, uma reunião com o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, para tratar de segurança, e há expectativa de que a questão do 5G seja discutida. O’Brien encontrará na quarta-feira o presidente Jair Bolsonaro.

Em nota, a Huawei disse que, há 22 anos no País, "tem no Brasil um histórico de produtos de alta qualidade e segurança cibernética. Nunca tivemos nenhum grande incidente relacionado à segurança cibernética nos 170 países em que operamos nas últimas três décadas. Contamos com a confiança dos nossos clientes e parceiros, estamos totalmente comprometidos com a transformação digital do Brasil e abertos à comunicação com todos os stakeholders".

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Brasil e EUA fecham primeiro passo para futuro acordo de livre-comércio

Pacote comercial trará medidas para facilitar o comércio entre os países, desburocratizar a regulação e reduzir a corrupção; organizações veem benefícios no acordo

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2020 | 19h48

BRASÍLIA - A 15 dias das eleições presidenciais norte-americanas, Brasil e Estados Unidos fecharam um pacote comercial com medidas para facilitar o comércio entre os países, desburocratizar a regulação e reduzir a corrupção. O entendimento, antecipado pelo Estadão/Broadcast na semana passada, foi bem recebido pelo setor privado e é considerado pelos dois governos o primeiro passo para um futuro acordo de livre-comércio.

“É um sinal muito positivo para um acordo mais amplo entre EUA e Brasil e que, em última instância, pode levar a acordo de livre-comércio entre os dois países. Queremos fazer isso passo a passo, ter certeza de que o acordo é ótimo para o Brasil e ótimo para os estados unidos”, disse nesta segunda-feira o conselheiro de Segurança dos Estados Unidos, Robert O’Brien, após encontro na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

O Acordo de Comércio e Cooperação Econômica vinha sendo negociado pelos dois países desde 2011, mas estava em hibernação até a eleição do presidente Jair Bolsonaro. O alinhamento do presidente com o colega norte-americano Donald Trump reaqueceu o processo, que foi acelerado nos últimos meses na medida em que Trump caía nas pesquisas de intenção de voto para reeleição.

Em março do ano passado, após um encontro nos Estados Unidos, os dois presidentes anunciaram a retomada das negociações. As conversas técnicas começaram apenas em agosto do ano passado e a cooperação e rapidez do trabalho dos brasileiros para chegar a um entendimento impressionou negociadores norte-americanos.

Apesar de os brasileiros almejarem o livre-comércio, pelas regras do Mercosul, isso só poderá ser feito em acordo com todos os países do bloco. Por isso, o pacote comercial anunciado nesta segunda-feira foca em questões não-tarifárias, que podem ser negociadas bilateralmente, sem a anuência dos outros integrantes do bloco sul-americano.

O anúncio faz parte da visita da delegação norte-americana ao Brasil, liderada por O’Brien com autoridades do Escritório do Representante de Comércio (UTSR), da Agência de Crédito a Exportação do governo dos Estados Unidos (Eximbank) e da Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (DFC, na sigla inglês).

O banco de desenvolvimento anunciou nesta segunda-feira, 19, o aporte de US$ 984 milhões em investimentos e projetos brasileiros. A maior parte dos recursos será utilizada pelos bancos Itaú BTG Pactual para empréstimos a pequenas e médias empresas atingidas pela pandemia do coronavírus.

“A primeira etapa do acordo traz temas que implicam em um benefício efetivo. Ao reduzir prazos e obrigações, você reduz os custos sem criar polêmica. Não depende desse governo ou do outro”, afirmou a presidente da Câmara Americana de Comércio (Amcham), Debora Vieitas.

Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o acordo é “pedra fundamental” nas negociações para o livre-comércio. “Há grande expectativa no setor privado para iniciarmos as negociações dos acordos de livre-comércio e para evitar a dupla tributação”, completa o diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI, Carlos Eduardo Abijaodi.

Pacote

O principal acordo é o de facilitação do comércio, que pretende reduzir burocracias administrativas e aduaneiras na exportação e importação de bens e diminuir prazo e custos das operações. Uma das medidas é o compromisso dos dois países em reconhecer programas de Operador Econômico Autorizado (OEA), que são empresas importadoras e exportadoras com uma espécie de selo do governo. Com esse "carimbo", elas conseguem desembaraçar suas mercadorias de maneira quase automática nas fronteiras. Esse reconhecimento não será imediato e ainda depende de uma visita de autoridades dos EUA às aduanas brasileiras, que foi adiada por conta da pandemia.

O entendimento prevê ainda o uso de tecnologias no processamento das exportações e importações, como adoção de documentos eletrônicos para todas as declarações e formulários exigidos na aduana, com poucas exceções.

Já o acordo de boas práticas regulatórias traz um protocolo para a adoção de compromissos como revisão de regulações existentes e a previsão de um órgão ou mecanismo central de coordenação para supervisionar a adoção de boas práticas regulatórias pelo governo federal. É o primeiro acordo com cláusulas vinculantes adotado pelo Brasil nesse tema e prevê que, em 60 dias, seja feita uma proposta com impacto “significativo” no comércio para garantir a retirada de obstáculos regulatórios desnecessários.

Outro anexo prevê medidas anticorrupção, um dos primeiros sobre o tema negociado em acordos comerciais. O documento determina a adoção de padrões que proíbam um funcionário público de solicitar ou aceitar suborno ou auxiliar ou encorajar tais crimes. Também deverão ser adotadas medidas para proteger quem reportar práticas de corrupção a autoridades.

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Banco de Desenvolvimento norte-americano anuncia quase US$ 1 bi em investimentos no Brasil

Maior parte do dinheiro será utilizada pelo Itaú e BTG Pactual para empréstimos a pequenas e médias empresas; também será assinado um pacote comercial que inclui acordo para facilitação de comércio entre Brasil e EUA

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2020 | 12h53

BRASÍLIA - A Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (DFC, na sigla em inglês) anunciou nesta segunda, 19, o aporte de US$ 984 milhões em investimentos e projetos brasileiros. 

A maior parte dos recursos será utilizada pelos bancos Itaú e BTG Pactual para empréstimos a pequenas e médias empresas atingidas pela pandemia do coronavírus. O DFC é um banco de desenvolvimento criado pelos EUA no ano passado para financiar projetos na região.  

O anúncio faz parte da visita da delegação norte-americana ao Brasil, liderada pelo conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Robert O'Brien, e autoridades do Escritório do Representante de Comércio (UTSR), da Agência de Crédito a Exportação do governo dos Estados Unidos (Eximbank) e do DFC.

A delegação teve encontros com  representantes da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) e Câmara Americana de Comércio (Amcham). A agenda do dia inclui reuniões em Brasília com os ministros da Economia, Paulo Guedes, e das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

O ponto alto da visita será a assinatura, prevista para as 18h15, de um pacote comercial que inclui acordo para facilitação de comércio, regulação e anticorrupção. O pacote foi antecipado pelo Estadão/Broadcast na semana passada. 

Na terça, 20, O'Brien se encontrará com o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, com foco em segurança, e se reúne depois com o presidente Jair Bolsonaro.

Investimento

Foram anunciadas duas cartas de intenção de investimento, sendo um empréstimo direto de US$ 300 milhões ao BTG Pactual para apoiar a expansão da carteira de empréstimos para pequenas e médias empresas, com foco em mulheres e empresários do Norte e Nordeste. 

Outros US$ 259 milhões serão dados como garantia de investimento para a Smart Rio, para modernização e expansão de iluminação pública e instalação de câmeras e pontos de acesso a Wifi no Rio de Janeiro.

Além disso, o pacote inclui US$ 425 milhões em projetos previamente acordados, sendo US$ 400 milhões para o Banco Itaú, que serão destinados a empréstimos para micro e pequenas empresas afetadas pela pandemia de covid-19, especialmente para mulheres e Estados menos desenvolvidos. 

Outros US$ 25 milhões serão investidos pela empresa TechMet para aumentar a capacidade de produção de uma mina de cobalto e níquel no Piauí.

O DFC tem oito projetos ativos no Brasil que somam US$ 1 bilhão e seis em preparação que somam mais de US$ 800 milhões.

Pacote comercial

Como mostrou o Estadão/Broadcast na semana passada, a 15 dias da  eleição presidencial norte-americana, Brasil e Estados Unidos assinam nesta segunda-feira um pacote de medidas para acelerar e desburocratizar o comércio entre os dois países. De acordo com fontes da área econômica, deverão ser firmados três acordos: de facilitação de comércio, boas práticas regulatórias e anticorrupção.

Longe de ser um acordo de livre-comércio - como o ministro Paulo Guedes chegou a anunciar no ano passado -, o conjunto de medidas está sendo considerado pelo governo brasileiro como base para um entendimento mais amplo, a ser futuramente discutido entre os países.

O principal acordo é o de facilitação do comércio, que pretende reduzir burocracias administrativas e aduaneiras na exportação e importação de bens e diminuir prazo e custos das operações. 

Uma das medidas é o compromisso dos dois países em reconhecer programas de Operador Econômico Autorizado (OEA), que são empresas importadoras e exportadoras com uma espécie de selo do governo. Com isso, elas conseguem desembaraçar suas mercadorias de maneira quase automática nas fronteiras. Esse reconhecimento não será imediato e ainda depende de uma visita de autoridades dos EUA às aduanas brasileiras, que foi adiada por conta da pandemia.

O entendimento prevê ainda o uso de tecnologias no processamento das exportações e importações, como adoção de documentos eletrônicos em substituição a papéis hoje exigidos, pagamentos eletrônicos e uso de um guichê único no comércio exterior. Haverá uma seção específica para o tratamento comercial de produtos agrícolas, importantes na pauta de exportação dos dois países.  

O acordo de boas práticas regulatórias trará um protocolo para a adoção de compromissos como revisão de regulações existentes e a previsão de um órgão ou mecanismo central de coordenação para supervisionar a adoção de boas práticas regulatórias pelo governo federal.

Será assinado ainda um protocolo anticorrupção, um dos primeiros sobre o tema negociado em acordos comerciais. O documento prevê a adoção de padrões que proíbam um funcionário público de solicitar ou aceitar suborno ou auxiliar ou encorajar tais crimes. Também deverão ser adotadas medidas para proteger quem reportar práticas de corrupção a autoridades.

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