Conselheiros rock’n roll para a Fender

Fundo que assumiu a icônica fabricante de guitarras terá ajuda de Bono e The Edge, do U2

Michael J. de La Merced, The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2014 | 02h05

Poucas fabricantes de guitarras podem reivindicar o mesmo lugar no panteão da música de rock quanto a Fender, cujas Stratocaster e Telecaster eram as preferidas de músicos como Jimi Hendrix e Kurt Cobain. Hoje a Fender, em meio a uma estratégia de expansão e renascimento, foi buscar a ajuda de dois conhecidos músicos.

A empresa trouxe Bono e The Edge, do U2, para o conselho de administração. Ambos foram convidados pelo sócio majoritário, o fundo TPG Growth. O desafio para os músicos é ajudar a companhia de 68 anos a sobreviver na era digital, na qual o Spotify é uma marca musical mais influente do que o Strat.

"Acho que as guitarras estão aqui para ficar e, longe de a tecnologia digital significar o seu fim, oferece novas maneiras de aumentar a criatividade e dar às pessoas um maior acesso ao enorme potencial da guitarra elétrica", The Edge escreveu num e-mail do estúdio onde a banda grava seu próximo álbum.

Esta é a mais recente guinada de uma empresa que ajudou a criar a guitarra elétrica moderna. O projeto deu origem à Telecaster, escolha de Bruce Springsteen, e depois à mundialmente famosa Strat, o amado instrumento de Eric Clapton, Stevie Ray Vaughan e The Edge. Todos esses músicos têm algo em comum: um estilo minimalista de tocar.

Em seu e-mail, The Edge, cujo nome é David Evans, observou que algumas das mais populares músicas do U2, como Sunday Bloody Sunday e Pride (In the Name of Love) foram gravadas com Strats e Telecasters.

Há dois anos a Fender pretendia abrir seu capital esperando levantar US$ 160 milhões. Mas o prospecto de venda de ações revelou alguns sinais de dificuldades de administração da dona da fabricante na época, a empresa de investimento Western Presidio. Entre os problemas estavam os resultados financeiros nada entusiasmantes, com prejuízo de US$ 11,8 milhões nos três meses encerrados em primeiro de abril de 2012, em comparação ao lucro de US$ 6,5 milhões um ano antes.

Em 2013, Mark Fukunaga, um dos mais antigos investidores da companhia, procurou um novo sócio que o ajudasse na recuperação da marca. E acabou escolhendo a TPG Growth, braço para investimentos de médio porte da TPG, uma enorme companhia de investimento com experiência em produtos digitais de consumo.

"É uma marca importante e também uma parte importante da cultura do país", disse numa entrevista o fundador e sócio gerente da TPG Growth, William E. McGlashan. "Nossa história no setor de consumo, nossa história na mídia e o conhecimento de ambos os setores levaram Mark a acreditar que somos o sócio perfeito para conduzir a Fender a um estágio maior".

Desde que assumiu a Fender como sócia majoritária, a TPG Growth adotou medidas para escorar as finanças e as operações da empresa. O aprimoramento de áreas. como a armazenagem da madeira usada nas guitarras, e a modernização do processo de manufatura para reduzir a lista de espera de três anos para os modelos sob medida, foram as grandes prioridades, disse McGlashan.

Sócios famosos. Há algumas semanas, McGlashan contatou Bono por meio de um amigo recíproco, e o líder do U2 pediu ao velho amigo The Edge para unir-se a ele no empreendimento. Embora Bono tenha conhecimento da área de investimento, tendo sido investidor da Elevation Partners, The Edge tem pouca experiência no setor.

Mas, depois de se reunirem com os proprietários da Fender e visitarem a fábrica em Corona, Califórnia, ambos resolveram embarcar no projeto.

"O que me conquistou foi uma combinação da tradição respeitada e valorizada de produção de guitarras com algumas ideias novas sobre o que a companhia pode fazer para se inserir no futuro", escreveu The Edge.

Os astros do U2 trazem qualidades diferentes para a Fender, disse McGlashan. Bono traz um enorme conhecimento quanto a saber se uma marca está funcionando, ao passo que The Edge poderá orientar a companhia tanto em termos de inovação e também sobre como educar os consumidores em relação a seus diferenciais.

A empresa TPG Growth manteve-se totalmente silenciosa sobre o que a Fender tem pela frente, embora seu futuro gire em torno de uma expansão da marca e novas iniciativas na área digital.

A ideia não é por fim ao famoso logo manuscrito em camisetas e xícaras de café. Mas a empresa deverá ampliar suas atividades para além dos amplificadores de guitarras, passando a produzir alto-falantes, microfones, fones de ouvido e outros sistemas de som, como a Marshal, fabricante de amplificadores, começou a fazer.

Pela web. A educação digital é uma outra oportunidade de negócios atraente. A companhia já produz uma guitarra que pode ser ligada a um computador; o próximo passo pode ser o ensino de guitarra online. A chegada dos membros do U2 não deve mudar uma coisa, segundo The Edge: ele ainda usará equipamentos de outras companhias, incluindo um conjunto de guitarras Gibson e Gretsch e amplificadores Vox.

"Continuarei a usar guitarras, amplificadores e unidades de efeitos fabricados por outras companhias", disse. "Com certeza sempre o farei, mas estou entusiasmado quanto aos instrumentos e hardware que ajudarei a criar na Fender." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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