Michal Cizek/AFP - 25/02/2022
Michal Cizek/AFP - 25/02/2022

The Economist: As consequências econômicas da guerra na Ucrânia

Inflação mais alta, crescimento menor e transtornos no comércio global são algumas das consequências imediatas; no longo prazo, o que está em jogo é a integração econômica mundial

The Economist

25 de fevereiro de 2022 | 16h27

Na última década, a intensificação do risco geopolítico tem sido um aspecto constante da política mundial, no entanto, a economia mundial e os mercados financeiros dão pouca importância a isso. Da disputa entre a China e os Estados Unidos até a ascensão de governantes populistas na América Latina e as tensões no Oriente Médio, as empresas e os investidores continuaram indiferentes, acreditando que as consequências econômicas seriam contidas.

A invasão da Ucrânia pela Rússia provavelmente quebrará esse padrão, porque ela terá como consequência o isolamento da 11ª maior economia do mundo e uma das maiores produtoras de commodities

As implicações globais imediatas serão inflação mais alta, crescimento menor e alguns transtornos nos mercados financeiros à medida que sanções mais extremas forem aplicadas. As consequências de longo prazo serão mais um enfraquecimento do sistema de cadeias de suprimentos globalizadas e dos mercados financeiros integrados que dominaram a economia mundial desde o colapso da União Soviética em 1991.

Comecemos pelo impacto nas commodities. Além de ser o principal fornecedor de gás para a Europa, a Rússia é um dos maiores produtores de petróleo do mundo e um importante fornecedor de metais usados na indústria como níquel, alumínio e paládio. Tanto a Rússia quanto a Ucrânia são grandes exportadores de trigo, já a Rússia e Belarus (aliada russa) exportam enormes quantidades de potássio, um insumo para fertilizantes. 

Os preços dessas commodities vêm subindo este ano e agora devem subir ainda mais. Em meio a relatos de explosões em toda a Ucrânia, o preço do petróleo Brent ultrapassou US$ 100 por barril na manhã de 24 de fevereiro e os preços do gás na Europa aumentaram 30%.

O fornecimento de commodities pode ser prejudicado de uma ou duas maneiras. A entrega delas talvez seja interrompida se estruturas físicas, como oleodutos ou portos no mar Negro, forem destruídas. Por outro lado, sanções mais severas ao complexo de commodities russo poderiam impedir os clientes no Ocidente de comprar do país. 

Até agora, ambos os lados têm sido cautelosos quanto a usar a venda de energia e commodities como arma, que não foi interrompida durante a Guerra Fria. As sanções após a invasão da Crimeia não impediram que BP, ExxonMobil ou Shell investissem na Rússia, enquanto as penalidades americanas à Rusal, empresa russa de metais, em 2018, duraram pouco. A decisão da Alemanha de suspender a autorização para o gasoduto Nord Stream 2 em 22 de fevereiro foi em grande parte simbólica, já que ele ainda não envia gás da Rússia para o Ocidente.

No entanto, a perspectiva agora é de mais restrições do Ocidente à indústria de recursos naturais da Rússia que reduzem a oferta global. A Rússia pode retaliar criando gargalos na cadeia de suprimentos de forma intencional, o que levaria ao aumento dos preços. Os EUA talvez dependam da Arábia Saudita para aumentar a produção de petróleo e estimular as empresas de xisto sauditas a aumentar a produção.

Reequilíbrio

O segundo impacto está relacionado à tecnologia e ao sistema financeiro global. Embora o comércio de recursos naturais seja uma área de dependência mútua entre o Ocidente e a Rússia, nas finanças e na tecnologia o equilíbrio do poder econômico é mais desigual. 

É provável, portanto, que os EUA imponham sanções muito mais severas, no estilo das aplicadas à Huawei, às empresas de tecnologia russas, limitando seu acesso a semicondutores e softwares de ponta, e também boicotem os dois maiores bancos da Rússia, Sberbank e VTB, ou tentem excluir o país do sistema Swift, que é usado para transferências bancárias internacionais.

As medidas em relação à tecnologia vão criar obstáculos ao crescimento da Rússia com o passar do tempo e incomodar seus consumidores. Já as restrições bancárias terão efeitos imediatos, causando uma crise de recursos financeiros e impedindo os fluxos de entrada e saída de dinheiro do país. 

A Rússia tem tentado proteger sua economia exatamente disso: o volume de suas faturas expressas em dólares despencou desde a invasão da Crimeia em 2014, e o país acumulou reservas cambiais. Mesmo assim, ela será prejudicada. A Rússia se voltará para a China para suas necessidades financeiras. O comércio entre os dois países já foi isolado das sanções ocidentais, com apenas 33% dos pagamentos da China à Rússia sendo feitos em dólares atualmente, ante 97% em 2014.

Os bancos ocidentais parecem ter uma exposição bastante baixa à Rússia. Entretanto, desde que a era moderna da globalização começou nos anos 1990, nenhuma grande economia foi excluída do sistema financeiro internacional, e o risco de contágio mais amplo pelos mercados, embora aparentemente baixo, não pode ser descartado.

Repercussão

O que tudo isso significa para a economia global? A Rússia se depara com um grave, mas não fatal, choque econômico, já que seu sistema financeiro está protegido. Para a economia global, a perspectiva é de inflação mais alta conforme os preços dos recursos naturais subam, intensificando o dilema que os bancos centrais enfrentam, e uma possível redução do investimento corporativo à medida que o nervosismo nos mercados diminui a confiança.

O impacto de longo prazo será acelerar a divisão do mundo em blocos econômicos. A Rússia será obrigada a pender para o leste, dependendo mais dos laços comerciais e financeiros com a China. No Ocidente, mais políticos e empresas indagarão se um princípio fundamental da globalização – o de que se deve negociar com todos, não apenas com seus aliados geopolíticos – ainda é válido, não apenas para a Rússia, mas para outras autocracias. 

A China analisará as sanções do Ocidente à Rússia e chegará à conclusão de que precisa reforçar sua campanha de autossuficiência. A invasão da Ucrânia talvez não provoque uma crise econômica global hoje, mas mudará a forma como a economia mundial funcionará nas próximas décadas. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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