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José Roberto Mendonça de Barros
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Consolida-se a recuperação

A continuidade do crescimento dependerá muito da eleição de 2018

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S. Paulo

17 Setembro 2017 | 05h00

Escrevi recentemente (20/8) que a economia brasileira teima em melhorar. Uma bateria de dados recentes sugere que isso está acontecendo rapidamente. De fato, o IBC-Br, indicador conhecido como a prévia do Banco Central para o PIB, cresceu 0,41% em julho, além de uma revisão para mais do índice estimado em junho. Com isso, o terceiro trimestre do ano se inicia com arrasto positivo de 0,70%, que se soma a resultados positivos em outras áreas relevantes.

Como calculou Fernando Montero, as vendas do comércio restrito mostram um “carry-over” de 0,9%; as vendas do comércio ampliado, 1,7%; e da produção industrial, 1,4%. Tudo isso é consistente com a projeção da MB de 0,1% do PIB no terceiro trimestre em relação ao segundo e de 0,4% no quarto trimestre em relação ao terceiro. 

Com isso, o ano corrente fecharia com uma expansão de 0,7%. Projetamos para 2018 um robusto crescimento de 3% do PIB. Se, no primeiro semestre deste ano agricultura, mineração, petróleo e exportações foram os destaques no crescimento, tanto na ótica da produção como da demanda, veremos doravante que a expansão do consumo será a variável-chave na explicação do crescimento projetado. 

Inúmeros fatores estão alinhados, formando a convicção de que o mercado interno puxará nosso desempenho. Essas condições se iniciam com a queda no preço dos alimentos, resultante direto da grande safra que colhemos. Há um ano os preços dos alimentos estavam se elevando a 12% ao ano e agora caíram 2% nos últimos 12 meses. Essa espetacular queda elevou o poder de compra dos salários das classes C, D e E. 

Além disso, a inflação recuou não apenas por causa da alimentação. Até a inflação de serviços vem se reduzindo, de sorte que projetamos para este ano uma inflação de 2,9% e de 3,9% para 2018. Desse modo, os rendimentos do trabalho crescerão de forma significativa, na faixa de 2,5% a 3%. 

Em paralelo, os dados do Banco Central mostram uma significativa melhora no balanço das famílias, resultante de uma desaceleração do endividamento. Por exemplo, a dívida total, que estava em 46% da renda anual no final de 2015, caiu para 41,6% em julho. Da mesma forma que a inadimplência das pessoas físicas está diminuindo consistentemente. Não é de surpreender que, entre junho e julho deste ano, a média diária de concessões de crédito para as pessoas cresceu quase 6%.

Esse processo é reforçado pela continuidade da redução da taxa de juro. Todos os analistas esperam, depois da divulgação da comunicação do Banco Central, que o ano corrente se encerre com a Selic na faixa de 7%. Esperamos continuidade nesse processo em 2018. Naturalmente, o crédito seguirá se expandindo, o que deverá afetar positivamente o mercado de bens de consumo duráveis, como já ocorre com o de automóveis.

Finalmente, temos de considerar a rápida queda na taxa do desemprego. Embora seja correto que ainda esteja muito alta, chama a atenção que, entre o trimestre de fevereiro a abril e o último trimestre divulgado (mai/jun/jul), a taxa de desocupação tenha caído 0,8%, o que significa que mais de 1,4 milhão de pessoas passaram a ter alguma ocupação e renda. Apesar de a informalidade ainda ser grande, precisamos lembrar que essa melhora vai continuar até o final do ano que vem. Além disso, a reforma trabalhista recentemente aprovada poderá exercer algum efeito positivo sobre o emprego formal.

A pergunta relevante agora não é mais se haverá ou não recuperação. Teremos um robusto crescimento em 2018 e a questão é se ele será sustentado ou não.

Acredito que a maior parte dos leitores concordaria que isso não está garantido por ora e que dependerá de uma evolução positiva em duas áreas: avanço nas reformas e melhoria fiscal e avanço nos investimentos em infraestrutura, resultantes de concessões e privatizações. 

O espaço não permite maior desenvolvimento, mas acredito que poderemos avançar algo nessas direções em 2017 e no próximo ano. 

Finalmente, a continuidade do crescimento dependerá muito da eleição, em 2018, de alguém minimamente reformista. Isso poderá ser facilitado porque o ambiente econômico nas proximidades do pleito será muito melhor do que o de hoje. Nesse caso, poderemos entrar numa fase de crescimento mais sustentado. 

Não será fácil, mas está longe de ser impossível.  

ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE 

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