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Consolidação da siderurgia brasileira deverá se acelerar

A consolidação da indústria siderúrgica brasileira deverá se acelerar depois da decisão do governo americano de restringir as importações do aço fabricado aqui. Dos cerca de dez grupos existentes hoje no País, deverão restar apenas quatro ou cinco nos próximos seis anos, prevê o sócio-diretor especializado em siderurgia da consultoria Accenture, Marcelo Astrachan. O consultor, que desenvolveu um estudo estratégico sobre o setor, destaca que a aceleração das consolidações já em andamento será uma das formas de reação da indústria às medidas protecionistas dos EUA. Na sua opinião, as limitações estabelecidas ao produto brasileiro não atendem as necessidades de ganho de escala das siderúrgicas nacionais, que em 2000 produziram juntas 27 milhões de toneladas de aço bruto. "O que falta à siderurgia brasileira é escala", afirma Astrachan. Por isso, observa, as siderúrgicas terão de "olhar para dentro" e continuar o esforço interno de manter seus custos competitivos. "Esse é um diferencial que não podemos perder." O estudo revela que as indústrias brasileiras têm o menor custo nas placas de aço entre os principais produtores mundiais. O custo de produção de placas nas siderúrgicas dos EUA é 68% maior do que o das indústrias brasileiras. As fábricas de aço da Índia gastam 33% a mais do que as do Brasil para produzir esse item. As siderúrgicas européias, por sua vez, desembolsam 31% mais do que as brasileiras no custo de fabricação. A análise, destaca o consultor, não leva em conta custos financeiros e depreciação. "O Brasil só perde para a Austrália no custo de fabricação de placas de aço, se for incluído o custo de capital." Astrachan diz ainda que a siderurgia brasileira é extremamente bem-sucedida e o marco dessa virada foi a privatização do setor, que absorveu investimentos da ordem de US$ 9 bilhões entre 1994 e 1999. Além da compra de ativos, os recursos foram usados na modernização de processos produtivos e na capacitação de pessoal. O consultor comprova essa afirmação com números. O custo operacional médio das siderúrgicas brasileiras, por exemplo, corresponde a 62,1% das receitas, enquanto a média da indústria mundial de aço é de 70,9%. A média de geração de caixa das empresas brasileiras em relação à receita é 14,3% ante 9,6%, que é a média das siderúrgicas no mundo. Já o desempenho dos custos administrativos das siderúrgicas brasileiras tem de melhorar: eles correspondem a 11,8% das receitas, enquanto a média global das fabricantes de aço é de 10,2%. A ineficiência da indústria americana resulta, segundo o consultor, do protecionismo existente naquele país, que alimentou indústrias obsoletas. A grande pulverização das empresas do setor nos EUA é outro fator que reduziu a eficiência das siderúrgicas, aponta ele. Para Astrachan, o modelo americano é comprovadamente malsucedido e a decisão do governo de limitar as exportações brasileiras é "mais um suspiro, eles adiaram o problema por mais três anos". Estudo da Accenture mostra que os cinco maiores fabricantes de aço dos EUA, Canadá e México, por exemplo, respondem hoje por 33% da produção da região. Já na Europa, as cinco maiores siderúrgicas detêm 62% da produção. Entre 1986 e 2001, o número de siderúrgicas na Europa foi reduzido a dois terços. A Europa, com grande concentração da produção e a propriedade dos canais de distribuição por parte das siderúrgicas e prestação de serviços aos clientes, adotou o modelo que deverá ser seguido pelo Brasil para fazer frente aos obstáculos que atingem o setor mundialmente: excesso de capacidade, volatilidade dos preços do aço, pressões ambientais, diferenças de custos, novas tecnologias e concentração na base de clientes.

Agencia Estado,

10 de março de 2002 | 10h48

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