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Guy Perelmuter
O Futuro dos Negócios
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Constelações artificiais

Diariamente, somos monitorados, orientados e informados por uma crescente rede de satélites

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2020 | 08h55

Poucas tecnologias tornaram-se tão populares em tão pouco tempo quanto o GPS (Global Positioning System, ou Sistema de Posicionamento Global). Apesar de uma implementação que demorou décadas (os projetos iniciais são da década de 1960, e o sistema tornou-se plenamente operacional em 1995), com a expansão dos smartphones e o desenvolvimento de aplicativos de navegação acessíveis aos consumidores, o GPS rapidamente tornou-se parte do cotidiano de bilhões de pessoas.

O sistema é baseado em uma constelação satélites, que são necessários para que seja possível manter cobertura integral de uma determinada área utilizando satélites em órbita baixa do planeta (Low Earth Orbit). Cada satélite cobre uma área relativamente pequena, que muda à medida em que ele viaja em alta velocidade em torno da Terra – é apenas o conjunto que consegue fornecer cobertura contínua. Justamente por estarem mais próximos da superfície do planeta, o tempo que um sinal leva para viajar do satélite em órbita baixa para superfície do planeta (e vice-versa) é menor do que o tempo necessário para realizar o mesmo trajeto utilizando-se satélites geoestacionários, por exemplo. A difusão da tecnologia necessária permitiu que não tenhamos problemas para navegar pelo mundo (seja por terra, mar ou ar), e viabilizou o monitoramento de tratores, carros, telefones, patinetes, bicicletas, navios, drones, aviões, ou quaisquer outros ativos que precisem ser localizados ou guiados. 

Além dos satélites de telecomunicações, que discutimos na última coluna, e dos satélites de navegação, há um número crescente de satélites utilizados para observar a superfície do planeta. Atualmente, este tipo responde por cerca de um terço do número de satélites ativos em órbita terrestre. Vale notar também que seu crescimento tem sido notável: nos últimos cinco anos, estima-se que o total de satélites de observação subiu mais de 200%, impulsionado pelo maior número de opções para colocação de equipamentos em órbita e pelo desenvolvimento de empresas (sendo diversas delas startups) que projetam e implementam satélites com menos de 500 kg, considerados pequenos para os padrões da indústria aeroespacial.

Alguns satélites de observação tiram fotos em alta resolução da superfície terrestre com alta frequência, fornecendo – por exemplo – imagens de estacionamentos de shoppings centers que permitem que analistas possam estimar o movimento de compras e a saúde da economia, ou fotos de regiões florestais para acompanhamento das atividades de desmatamento; outros satélites auxiliam em melhorias na previsão do tempo, que gera impactos importantes em setores como agricultura e transportes. O fato é que satélites tornaram-se, nos últimos anos, mais um negócio viabilizado pelos avanços tecnológicos em múltiplos segmentos, que incluem manufatura, eletrônica, processamento de sinais, sistemas de propulsão, ótica e engenharia aeroespacial.

Em seu último relatório anual, a Associação da Indústria de Satélites (Satellite Industry Association), constituída em 1995 por várias empresas norte-americanas do setor, estimou que cerca de 80% das receitas oriundas do ecossistema espacial – estimadas em US$ 350 bilhões em 2017 – podem ser mapeadas diretamente aos serviços oferecidos pelos satélites (como telecomunicações, segurança, ciências e observação) e à manufatura dos próprios satélites e dos equipamentos associados. Dos US$ 128 bilhões gerados em serviços, praticamente US$ 100 bilhões foram oriundos a partir de tarefas para o setor televisivo, e há considerável expectativa a respeito do crescimento das receitas associadas ao desenvolvimento de uma possível infraestrutura de acesso global à Internet.

Mas apesar da vocação inquisitiva da raça humana, que desde o início da sua História explorou o ambiente à sua volta – por terra, mar, ar e, mais recentemente, pelo espaço – infelizmente pode ser que nossa busca por formas mais eficazes de viajar pelo cosmos e o eventual estabelecimento de colônias terrestres em outros astros seja menos uma questão de vocação e curiosidade, e mais uma questão de sobrevivência. Os impactos econômicos da exploração sem precedentes dos recursos naturais do planeta, bem como as oportunidades para inovação que literalmente podem salvar o mundo são temas que iremos abordar na próxima coluna. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital e autor do livro Futuro Presente - o mundo movido à tecnologia, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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