Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Construção espera crescer em 2018

Depois de cortar um terço da força de trabalho, setor aposta na reação dos projetos de infraestrutura

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

20 Dezembro 2017 | 05h00

Importante indutor de emprego e renda, o setor da construção civil demitiu 1,6 milhão de trabalhadores com carteira assinada de 2014 para cá. Isso representa um terço da força de trabalho do segmento, que sofre com a crise fiscal e com os escândalos de corrupção envolvendo as construtoras.

A queda do número de empregos é a face mais cruel de uma crise que deteriorou rapidamente os indicadores do setor. Com boa parte da carteira de projetos interrompida e sem a entrada de novas obras, o setor enfrenta três anos de quedas seguidas no Produto Interno Bruto (PIB). Pelos dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), em 2015, houve recuo de 9%; em 2016, 5%; e neste ano, deve ficar em menos 6%.

“Pior: a participação do setor no PIB nacional caiu de 10%, em 2013, para 7,3% neste ano”, afirma o presidente da Cbic, José Carlos Martins. Segundo ele, o número é ainda mais dramático se for considerado que o PIB do País recuou em termos de valor. Os números negativos são um reflexo do baixo investimento do Brasil. Em 2013, o governo conseguiu uma das melhores taxas das últimas décadas, ao investir 20,7% do PIB.

Daí para frente, o movimento se inverteu e bateu os 15,7% do PIB no segundo trimestre deste ano. No setor de infraestrutura, onde estão as maiores obras do País, a situação tem sido alarmante. Segundo dados da consultoria Inter.B, o segmento deve fechar o ano com investimentos da ordem de apenas 1,37% do PIB, resultado ainda pior que o de 2016, de 1,95% do PIB.

Sem planejamento. “A situação é terrível”, avalia o presidente da Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Venilton Tadini, destacando que o País não tem conseguido investir nem o necessário para fazer a manutenção dos ativos existentes (da ordem de 3% do PIB). Na avaliação dele, embora haja o problema da Operação Lava Jato e da crise fiscal, o baixo investimento no setor é resultado de três décadas sem planejamento.

“Em vez de ter programas claros, sempre soltam blocos de investimentos para dar respostas rápidas aos anseios de áreas mais carentes”, completa Tadini. Com essa estratégia, considerada de improviso, o País acaba perdendo para os concorrentes em termos de qualidade da infraestrutura, o que reduz a competitividade. O resultado dessa defasagem um transporte de má qualidade e uma oferta restrita de serviços públicos.

Mas, apesar do quadro negativo, o setor de construção civil espera um 2018 melhor, especialmente com a reação dos projetos de infraestrutura. Para Martins, da Cbic, não dá mais para depender da agricultura e do consumo para ampliar o crescimento econômico. O avanço do PIB, diz ele, precisa estar ancorado na volta dos investimentos. Os programas de concessão dos governos federal e estaduais devem atrair o interesse da iniciativa privada, como os leilões de rodovias e aeroportos. A expectativa é que no ano que vem seja feita também licitação de ferrovias, como a Norte-Sul, e também a renovação das concessões que exigirá projetos bilionários na da malha ferroviária nacional.

Carência. Mas só isso não é suficiente diante da enorme carência de infraestrutura no País, especialmente depois da lacuna deixada nos últimos três anos. O presidente da Comissão de Infraestrutura da Cbic, Carlos Eduardo Lima Jorge, destaca que em novembro o governo transformou em lei uma MP que cria um plano de apoio às concessões municipais. O programa envolve projetos de água, esgoto, resíduos sólidos, mobilidade urbana e iluminação pública.

“O gestor municipal não tem como fazer projetos e todos os estudos necessários numa licitação”, diz Jorge. O plano envolve concessões menores, mas que têm capacidade para deslanchar os investimentos em áreas como saneamento básico. Mas para esses projetos saírem do papel, a iniciativa privada precisa ter confiança no País. “A reforma da Previdência, por exemplo, tem um peso importante no apetite dos investidores”, analisa Martins.

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